
|
|
 |
|

A Teologia Negra é uma realidade não somente na África, mas também nos Estados Unidos e Europa. Infelizmente, é pouco conhecida e utilizada no Brasil. Hoje, vamos analisar uma história bíblica a partir da leitura que a Teologia Negra faz.
Traduttore, traditore.
Ou, sou negra e bela!
O
"Mulheres de Jerusalém, eu sou negra e bela. Sou negra como as barracas do deserto, como as cortinas do palácio de Salomão". Cantares de Salomão 1.5.
Os leitores certamente se lembrarão das imagens de amor deste que é considerado um dos mais belos poemas da humanidade. Mas, a moça em torno da qual gira a narrativa é motivo de acirrada polêmica, principalmente para as teólogas e teólogos negros. Segundo a ensaísta norte-americana Peggy Ochoa, o livro de Cantares traz à tona os detalhes dolorosos da animosidade entre grupos étnicos no reinado de Salomão.
Aqui estamos diante de uma constatação fundamental: a Sulamita, mulher inspiradora dos poemas de amor do livro de Cantares era uma bela negra. E quando as filhas de Jerusalém, que faziam parte da casta dominante ligada à corte, protestaram ao descobrir a paixão do rei, a Sulamita respondeu ao clamor preconceituoso com a famosa afirmação: "Eu sou negra e formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão" (Cantares 1.5).
Na versão inglesa King James a Sulamita diz nos versículos 5 e 6 (ênfase minha): "I am black, BUT comely, O ye daughters of Jerusalem, as the tents of Kedar, as the curtains of Solomon. Look not upon me, because I am black; because the sun hath looked upon me...".
Na Bíblia hebraica lemos assim o mesmo texto, em representação fonética e ênfase minha: "shekhorah ani VE na'vah benot yerushala'im ke ahalei kedar kiri'ot shlomo: al-tir'uni she'ani shekharkhoret sheshezafatni hashemesh".
Em hebraico não há distinção entre "porém" e "e". A conjunção hebraica "ve" pode ser traduzida por "porém" e "e". O tradutor decidirá por um ou por outro com base no contexto. Mas, tanto no inglês, como no português, a escolha pode fazer uma diferença enorme.
Mas, por que o tradutor da versão King James, assim como os nossos tradutores optaram pelo "porém"? Talvez porque essas traduções tenham sido feitas através do filtro cultural branco e ocidental, já a partir da versão latina da Bíblia, a Vulgata, que introduziu o "porém": "Nigra sum sed formosa". Eu sou negra, "porém" formosa. Não negra e bela, mas bela apesar de negra.
Segundo a teóloga Susan Durber, da St. Columba United Reformed Church, Oxford, no ensaio "A Rainha do Sul se fará presente no Julgamento quando esta geração estiver sendo julgada", uma mulher pode nos ajudar a entender este enigma. Em I Reis 10 encontramos a história da rainha do Sul ou rainha de Sabá. Uma mulher inteligente, que fez perguntas duras a Salomão. Queria saber se ele era tão sábio quanto se comentava. Assim, a Bíblia está interessada nela por causa de sua inteligência.
Mas um fato significante sobre Sabá é que ela era negra. Não se sabe exatamente de que região.
Poderia ser do Iêmen ou do Norte da África, possivelmente a Etiópia. Os falashas, judeus etíopes, e os rastafares reivindicam ser descendentes de Menelik, o filho de Salomão e Sabá.
E também para os cristãos negros de todo o mundo, Sabá surge como ícone racial e é vista como a musa de Cantares de Salomão.
O poeta W. B. Yeats, por exemplo, releu o versículo "sou negra e bela" e poemou assim: "Salomão cantou a Sabá, e beijou a face negra dela".
Ainda segundo Durber, onde os cristãos africanos celebraram a cor negra de Sabá, o cristianismo europeu marginalizou sua história. Na rainha de Sabá viu a história de uma mulher pagã, uma mulher estrangeira que tinha se rendido à verdadeira fé. Em sua rendição, aparentemente, Sabá perdeu também a cor negra de sua pele.
Assim a história de uma mulher sábia não combina com a história de uma negra, e tal leitura produziu uma terrível alienação na igreja cristã européia e norte-americana, que levou o terror e o medo ao "outro de cor negra". Dessa maneira, o "outro de cor negra" foi seduzido, subjugado e domesticado. E a leitura do texto é que Sabá capitula a Salomão e torna-se culturalmente "branca".
Na verdade, Sabá foi companheira de Salomão e o texto pode ser lido assim. Mas a tradição, a partir da Vulgata, fez dele um conquistador e dela uma conquista, gerando ideologias como a da vitória da Europa sobre Oriente, do homem sobre a mulher, do branco sobre o negro e da "verdade" sobre o erro.
Mas a Bíblia hebraica fala de negros e de nações africanas como Cuxe, Mizraim e Pute, que hoje são Etiópia, Egito e Líbia. E até a construção do canal de Suez, em 1859, não se fazia distinção entre as terras bíblicas. O cenário da atuação divina cobria também a península do Sinai, o Egito, que está na África. E Israel era visto como parte do continente africano. Só com a construção do canal de Suez, a África passou a ser olhada como continente separado do Oriente Médio.
Assim, na Bíblia hebraica, Israel é uma nação africana e semita, e a mensagem que leva ao mundo teve início nesse continente negro. E, embora muitos afrobrasileiros vejam a Igreja como de origem européia, a análise da história bíblica demonstra que teve origem multirracial e que a Bíblia começou a ser escrita na África.
Por isso, nossas irmãs afrobrasileiras podem, conscientes de sua raça e cor, dizer junto com a Sulamita: "eu sou negra e bela, como as barracas do deserto, como as cortinas do palácio de Salomão".
|| Comente este artigo ||
|

|
|