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O Islã e suas teologias

No sábado, dia 24 de abril deste ano, participei de um Diálogo de Fé com o Sheik Jihad Hammadeh, vice-presidente da Assembléia Mundial da Juventude Islâmica, promovido pela revista Defesa da Fé, do Instituto Cristão de Pesquisa, ICP. Na ocasião, falei de minha compreensão da dívida ocidental com a cultura e teologia cristã árabe e também expus meus estudos sobre a teologia da morte no islamismo sunita. Foi uma discussão acadêmica e séria.

Com todo respeito ao Sheik Jihad Hammadeh, homem de cultura e sabedoria, publico agora, em três partes, a exposição que fiz no Diálogo de Fé. Seria, também, um prazer para o Bíblia World Net publicar a ilustrativa exposição que o Sheik Jihad Hammadeh fez sobre o Islamismo.

Introdução

É comum no Ocidente pensarmos que só os cristãos produzem teologia e que o islamismo não produziu nenhuma reflexão teológica nesses quase quatorze séculos de história. E quase nunca relacionamos o pensamento teológico islâmico com a expansão dos movimentos revolucionários islâmicos em nossos dias.

Na verdade, o Islã produz e sempre produziu teologia, fruto da reflexão sobre seu livro sagrado, o Alcorão e a tradição islâmica posterior. Mas, no século 20, três pensadores religiosos revolucionaram a teologia islâmica. Foram eles Hassan al-Banna, Abu al-A'la al-Maududi e Sayyd Qutb.

Assim, para entendermos um pouco o que acontece hoje no mundo muçulmano vamos analisar nesses três artigos as idéias e propostas desses intelectuais religiosos muçulmanos. Mas antes vejamos um pouco de nossa dívida intelectual e histórica com a cultura árabe.

Nossa herança árabe

O Oriente Médio é uma das regiões que viram a civilização nascer. Povos diferentes ocuparam seus desertos e vales férteis. Levas de invasores e povos dominados se alternaram ao longo da história a tal ponto que se tornou difícil separar laços culturais construídos nos últimos milênios.

A partir do sétimo século de nossa era, os árabes ocuparam os espaços da cultura cristã helênica nas regiões da Síria, Palestina, Mesopotâmia, Pérsia, Egito e norte da África. Absorveram essas culturas e o helenismo e desenvolveram áreas da ciência e da filosofia. Assim, foram grandes as contribuições dos árabes nos campos da matemática, química, medicina, agronomia e filosofia para a cultura ocidental.

Traduziram do grego para o siríaco e para o árabe as obras de Platão e Aristóteles. Mas cultura árabe e islamismo não são sinônimos.

Em 711, sob a liderança de Tárik, invadiram a península ibérica, derrotando os visigodos. Criaram o Emirado de Córdoba em 756, que mais tarde passou a Califado, tornando-se independente de Bagdá, e dando origem ao reino árabe da Espanha, El Andaluz.

É importante notar que Bagdá, na Mesopotâmia, capital do império árabe era, no século IX, a cidade mais desenvolvida da época, sem rival no mundo ocidental. E Córdoba, por sua vez, era a cidade mais importante da Europa.

Na Espanha, os árabes desenvolveram uma cultura helenística de leitura árabe, que criou as bases teóricas e metodológicas para o desenvolvimento da escolástica no século XIII.

Para vislumbrar essa riqueza civilizatória, vale a pena citar três expoentes do pensamento medieval, que exemplificam esse florescimento do pensamento árabe:

Hunayn ibn Ishaq, árabe cristão, que viveu em Bagdá e que no século IX traduziu e comentou as obras de Aristóteles.

Averroes (1126-1198), que viveu em Córdoba e se tornou o maior comentador de Aristóteles no Ocidente. Aliás, foi através dele que Aristóteles ficou conhecido no mundo cristão latino.

O terceiro é Moisés Maimônides (1135-1204), nascido em Córdoba, o maior pensador judeu da Idade Média. Maimônides, contemporâneo de Averroes e profundo conhecedor de Aristóteles e da cultura muçulmana, escreveu inclusive sua principal obra, Guia dos Perplexos, em árabe.

Dentro desse contexto, era de se esperar que os árabes cristãos desenvolvessem uma exegese e uma teologia bíblica, principalmente do Novo Testamento, peculiar e profunda. Ibn al-Salibi, Ibn al-Tayyib e Ibn al-Assãl foram eruditos cristãos de primeira grandeza.

Ibn al-Salibi, por exemplo, em 1050, escreveu uma belíssima obra de exegese, o Livro das Pérolas Inusitadas de Interpretação do Novo Testamento. Ele, em seu Comentário sobre Lucas 13.1-5 fala de Jesus com respeito e adoração. Diz Ibn al-Salibi: O Glorificado respondeu às suas insinuações com uma conclamação ao arrependimento e comparou esse terrível acontecimento à queda de uma torre em Siloé.

Outro teólogo árabe cristão de primeira grandeza foi Ibn al-Tayyib, que escreveu um extenso comentário dos quatro evangelhos, publicado no Cairo, em 1908.

Os dois esforços

O termo árabe Jihad significa esforço. Jihad é um conceito teológico do islamismo clássico e o verdadeiro esforço é aquele voltado para a causa religiosa. Mas uma das modalidades desse esforço pode ser a guerra. Como aparece no Alcorão, o termo autoriza duas leituras, uma interior e espiritual, e outra exterior e militar.

A guerra tem como objetivo a conquista da paz para que o mundo não seja tomado pelo caos. Mas existem limites estabelecidos para a guerra. Por exemplo: ela não pode envolver civis, não pode envolver crianças, mulheres e velhos. Esse seria o Jihad mais conhecido no mundo ocidental.

Há o esforço no sentido espiritual. Essa é a batalha espiritual do sufismo, a dimensão mística do Islã. Para o Islã tradicional, a guerra exterior é secundária, exatamente o contrário do que pensa o Islã fundamentalista. A guerra interior é mais importante, é a verdadeira guerra.

Há uma história de Mohamed que mostra um pouco da perspectiva islâmica em relação à guerra. Mohamed, o profeta, voltou de uma batalha e chegou à Meca. Aclamado pelo povo por sua vitória, alguém lhe disse: "Você voltou vencedor do Jihad". E Mohamed respondeu: "Voltei do pequeno Jihad contra os inimigos do Islã. Mas o essencial é jihad al-akbar, aquela que todo homem deve travar dentro da sua própria alma, a batalha contra as paixões".

A morte no Islamismo clássico só é justificada se for para defender a própria vida. O muçulmano não pode partir para o ataque fora dessas premissas. É proibido na guerra o envolvimento de crianças, mulheres e velhos. Por isso, do ponto de vista místico, as guerras são lutas interiores.

Essa compreensão tem como ponto de partida o entendimento islâmico sobre o problema do mal, que é visto não como ser ou realidade objetiva, mas como questão metafísica. O mal para o islamismo é a sombra do bem. Não possui existência autônoma, própria. A imagem utilizada para ilustrar o mal é: a luz quando incide sobre uma pessoa ou objeto sempre produz sombra.

Os povos têm características próprias e às vezes são muito diferentes uns de outros. Os povos do Mediterrâneo, por exemplo, como os italianos e espanhóis são calorosos e abertos. De maneira idêntica, o árabe é um povo apaixonado e extrovertido. Aparentemente predisposto a entrega total de si. Com o advento do Islã isso se potencializou. E no século 20 o conceito de Jihad deu origem no islamismo sunita a uma teologia da morte.

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