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Montpellier cidade da massa cinzenta


(De Montpellier, França) - Estou no sul da França, no Mediterrâneo, lugar de cidades famosas por beleza natural, turismo internacional e preços astronômicos. Mas não vou falar de turismo, nem de praias, iates e ricaços. Vou falar de uma cidade que me sensibilizou e para a qual, se esta for a vontade de Deus, irei no começo de 2005 para finalizar minha pesquisa de doutorado. Estou falando de Montpellier.

A principal matéria-prima que Montpellier explora, segundo slogan conhecido na cidade, é a massa cinzenta. Centro de ponta no estudo da medicina, direito e agronomia, também é destaque na pesquisa das tecnologias da informação e comunicação, robótica e informática.

Montpellier tem cerca de 230 mil habitantes. Proporcionalmente, sua população é a mais jovem da França: 36% dela tem menos de 25 anos. Essa realidade pode ser explicada pelo seu número de estudantes, que atualmente é de 60 mil. Outro dado interessante é que 23% da população de Montpellier não nasceram na França.

Parte desses 60 mil estudantes estão presentes em suas três universidades, cinco escolas de engenharia e dezenas de estabelecimentos de investigação e pesquisa, entre os quais se destaca o Instituto de Teologia Protestante, do qual faz parte a Faculdade Livre de Teologia Protestante de Montpellier, de longa tradição.

Teologia e liberdade

Sua origem mais remota é a Faculdade Livre de Teologia Protestante de Paris, que foi criada em 1877, no âmbito da Universidade de Paris, para substituir a Faculdade de Estrasburgo quando esta passou a ser alemã. Os seus antigos professores luteranos e reformados, formados na tradição da filosofia e da ciência histórica alemãs, no clima de uma Paris liberal, procuravam o caminho das ciências religiosas e do ideal leigo, que hoje marca o ensino e a pesquisa teológicas em Montpellier.

Em 1905, como consequência da lei de separação das Igrejas e o Estado, a Faculdade tornou-se livre, passando a estar sob a tutela das Igrejas Reformadas da Fraça e da Igreja Evangélica Luterana da França. Desde 1972, a Faculdade Livre de Teologia Protestante de Montpellier está associada com a Faculdade Livre de Teologia Protestante de Paris, no seio do Instituto Protestante de Teologia.

A Faculdade Livre de Teologia Protestante de Montpellier oferece uma formação teológica de nível universitário que cobre os domínios bíblico, histórico, dogmático, teórico e prático. Esta formação está destinada não somente aos candidatos ao ministério pastoral na Igreja Reformada da França e na Igreja Evangélica Luterana da França, mas a todos os que têm a preocupação de uma cultura e uma reflexão teológica na liberdade característica do protestantismo. A Faculdade Livre de Teologia Protestante de Montpellier mantém relações acadêmicas com as universidades parisienses: Escola Prática de Altos Estudos, Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, Instituto Católico -- Instituto Superior de Estudos Ecumênicos, e relação de parceria com faculdades de teologia de outras partes do mundo.

Cem mil volumes

Um capítulo a parte na história da Faculdade refere-se à sua biblioteca. O primeiro deão da Faculdade Montauban (a partir de 1808) obteve autorização para dotar a biblioteca de uma parte das obras confiscadas pela Revolução de 1789. Constituída a partir de 1810 por livros que tinham sido apreendidos pelo antigo tribunal revolucionário, a biblioteca foi enriquecida por aquisições e doações.

Em 1920, a Faculdade de Teologia Montauban e sua biblioteca foram transferidas para a antiga casa de Charles Gide, em Montpellier. Em 1971, os livros depositados na biblioteca universitária de Montpellier foram confiados definivamente à Faculdade Livre de Teologia Protestante de Montpellier. Em 1986, a biblioteca instalou-se numa nova construção do parque da Faculdade.

Hoje a biblioteca responde não somente às necessidades dos estudantes da Faculdade de Teologia, mas seu acervo de 100.000 volumes dos quais 12.000 livros antigos são um legado para a história do protestantismo. Entre as raridades que abriga estão primeiras edições do Discurso do Método de Descartes, Máximas do Rochefoucault, as Institutas de Calvino e Trinitatis erroribus de Michel Servet, entre outras.

Um teólogo, um amigo

Foi um prazer conversar com Marc Boss. Filósofo e teólogo sistemático, um dos maiores especialistas europeus em Paul Tillich, ele é professor da Faculdade Livre de Teologia Protestante de Montpellier. Eu já o conhecia de Toulouse, há dois anos, quando apresentei comunicação sobre "O socialismo no Partido dos Trabalhadores, a partir de uma análise tillichiana", no Colóquio da Associação Paul Tillich em Língua Francesa.

Ele me levou para conhecer a biblioteca e os arquivos Paul Tillich. Conversamos sobre a possibilidade de desenvolver pesquisa na Faculdade, sob co-orientação dele, em 2005. Sem dúvida, uma variável acadêmica de suma importância para minha tese. Mas, educadamente, Boss disse: "Orientador, não. Serei um amigo. Vamos conversar sobre Tillich".

E ali, diante dos arquivos Paul Tillich, começou um papo muito interessante: a influência do pensamento de Rosa Luxemburgo, revolucionária marxista, no socialismo do jovem Tillich. "Opa! Pensei é por aí. Isso interessa à minha pesquisa!". Se já tinha gostado da cidade e do ambiente acadêmico da Faculdade, naquele momento me senti desafiado pelas novas possibilidades.

Apesar de jovem, Marc Boss desenvolve um trabalho acadêmico que tem repercutido na Europa e América. Entre seus trabalhos e obras coletivas, convém citar os últimos e aqueles referentes à pesquisa em Tillich, que eu colocarei no final deste artigo para aqueles que, na academia brasileira, também pesquisam Tillich.

Mas voltemos a Montpellier. Entre os muitos agitos da cidade, seus café temáticos me chamaram a atenção. Assim, há o Café Philo, o Café Théologique e o Café Sciences Sociales, que em dias diferentes reunem a moçada para debates acalorados. E se vocês quiserem o endereço eu dou: Brasserie Le Dome, na avenida Georges Clémenceau, 2. E aí vai também o telefone: 0467926670.

Mas em relação à teologia, aqui fica uma sugestão: a Europa produz uma teologia de 24 quilates. E suas instituições de pesquisa e ensino anseiam conhecer e realizar parcerias com nossas instituições teológicas.

França, Alemanha, Suíça e outros países têm muita pesquisa teológica a nos oferecer, afinal não podemos esquecer que foi lá que nasceu a Reforma e praticamente todas as denominações históricas a que estamos ligados.

Deixar de olhar para o umbigo, como se o cristianismo fosse invenção nossa é o primeiro momento. O resto é pura bênção.

Um abraço do pastor e amigo,
Jorge Pinheiro.

Pesquisas de Marc Boss em Paul Tillich:

"Mutations religieuses de la modernité tardive": Actes du XIVe Colloque de l'Association Paul Tillich d'Expresion Française (avec Doris Lax et Jean Richard), Tillich Studien 4, Münster-Hamburg-London: Lit Verlag, 2002.

« Penser le Dieu vivant. Mélanges offerts à André Gounelle » (avec Raphaël Picon), Paris: Van Dieren, 2003.

« Postlibéralisme? La théologie de George Lindbeck et sa réception », (avec Gilles Émery et Pierre Gisel), Genève: Labor et Fides, 2004.

« Jacques Derrida et l'événement du don », in: Revue de Théologie et de Philosophie 128 (1996), p. 113-126.

« Kairos and Epochal Thinking » The North American Paul Tillich Society Newsletter, vol. XXIV, no. 2, Santa Clara, 1998, p. 2-12 (trad. fr.: « Tillich, Heidegger et la question du Kairos », Etudes Théologiques et Religieuses, 76, 2001/1, p. 47-59).

« Coincidentia oppositorum und Rechtfertigung. Das cusanische Erbe in Paul Tillichs Denken», in: Mystisches Erbe in Paul Tillichs philosophischer Theologie / Mystical Heritage in Paul Tillich's Philosophical Theology. Beiträge des VIII. Internationalen Paul-Tillich-Symposiums Frankfurt/Main 2000/ Proceedings of the VIII International Paul-Tillich-Symposium Frankfurt/Main 2000 (G. Hummel et D. Lax éd.), Münster, Hamburg, London: LIT-Verlag, 2001 (Tillich-Studien, 3), p. 135-163.

« Religious Diversity: from Tillich to Lindbeck and Back », in: Religion in the New Millennium : Theology in the Spirit of Paul Tillich (R. F. Bulman et F. Parella éd.), Mercer University Press, Macon GA, USA, 2001, p. 177-195.

« Protestantisme et modernité: Résonances troeltschiennes des premiers écrits socialistes de Tillich (1919-1920) », in: A. Dumais et J. Richard éd. Pour une nouvelle synthèse du christianisme avec la culture de notre temps, Québec/Paris: Presses de l'Université Laval/L'Harmattan, 2002, p. 87-117.

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