
|
|
 |
|

Minority Report
Arminius e Spielberg falam de escolha
A nova lei, as tecnologias de informação - computadores, engenharia genética e neurologia - encontraram sua tradução teológica no filme de Steven Spielberg. Como afirmou Paulo Vaz, filósofo e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, conceber uma ficção científica é estabelecer um jogo entre o que permanece constante e o que é variável. "No filme de Spielberg, há muita coisa constante. Em 2054, vestimos as mesmas roupas, a cidade e as casas são parecidas, os carros se deslocam agarrados a estradas, empresas sobrevivem, o sistema de governo ainda é a democracia, os indivíduos usam drogas e a única ordem que aceitamos é a de nos divertirmos. Nada de novo sob o sol, portanto", conclui Vaz.
Mas, sem dúvida, a discussão de fundo colocada por Spielberg gira ao redor do alcance da liberdade humana. Será que ela existe? Tomás de Aquino (1225-1274) e seus seguidores achavam que sim, entrelaçando a questão da liberdade de escolha com a capacidade da razão. Para ele, a razão tinha essa possibilidade. Assim, partindo da análise indutiva do mundo, do tempo e do espaço, o homem teria todas as condições para construir um conhecimento natural, onde, através da razão, as verdades poderiam ser apreendidas nas coisas criadas, na natureza, no homem, no mundo e no que se referia à própria revelação.
Esse racionalismo indutivo, que partia da lógica aristotélica, soou como heresia para os reformadores do século 16. Mas foi Immanuel Kant, mais cientista do que teólogo, quem rechaçou as proposições tomistas, dizendo que é impossível conhecer Deus e sua realidade, dando origem ao fideísmo ou irracionalismo cristão. Fideísmo é o termo técnico da teologia que nega à razão condições de conhecer a verdade religiosa. Para os fideístas ou irracionalistas, a fé só pode ser compreendida através da experiência religiosa. Assim, o fideísmo considera que a razão é incapaz de estabelecer a certeza da fé. Expoentes do pensamento reformado, como Lutero, Schleiermacher e Karl Barth são considerados fideístas.
Temos, então, duas visões que se opõem: o racionalismo e o fideísmo. E aqui, no fio da navalha, se movimenta Spielberg com uma leveza de criador que é. Mas, para entender essa discussão de fundo, que é feita em Minority Report, somos obrigados a analisar a relação entre revelação e liberdade humana. Se há uma revelação universal, que é, como acreditamos, a automanifestação de Deus a todas as pessoas, em todos os tempos e lugares, objetiva, e que apresenta a partir do cosmológico, do ontológico e do antropológico um conhecimento universal, será possível a existência de pessoas com poderes de vidência, capazes de visualizar assassinatos antes que sejam praticados? Para Spielberg e para a engenharia genética, sim, é possível. Assim, Spielberg parte do atual conhecimento humano e faz projeções: estamos, então, diante de pre-cogs. Esses videntes desenvolvidos pela ciência não veriam as coisas como num filme, com enquadramento e cortes, mas como faz o olho humano, que vê em círculos. E mais uma vez, sem pedir permissão, Spielberg discute teologia, mais especificamente visão profética e escolha.
A discussão entre razão e revelação guarda em seu bojo a discussão da extensão da liberdade humana. E esse é o tema recorrente do Minority Report. Aliás, tal debate vem desde os primeiros séculos, quando Justino Mártir afirmou que o homem, por ser racional e livre, é responsável por seus próprios atos. Mais tarde, essa discussão tomou corpo com Pelágio e Agostinho. Pelágio afirmava que a humanidade retinha sua liberdade de escolha, podendo optar entre o bem e o mal. Agostinho discordava. Para Agostinho, querendo ou não o ser humano sempre expressaria a natureza pecaminosa herdada dos pais da humanidade.
A partir da crítica que a Reforma faz ao racionalismo tomista, o assunto volta à tona. Só que será feita sob novos prismas. Qual é o destino que Deus reservou ao homem? Assim, a discussão entre razão e revelação, liberdade e depravação do homem levam o tema do destino.
Em Minority Report, Spielberg e sua equipe investigam a natureza do crime, podemos dizer do pecado, a tecnologia e o destino com um sentido de aventura e um toque de mistério característico dos filmes noir da década de 40. Spielberg explica: "Quero abordar temas em que nunca havia tocado. Estou numa fase de experimentação, testando coisas que me desafiem. Minority Report - A Nova Lei é um verdadeiro mistério. As questões são 'quem foi?' e 'quem irá fazer', e você é envolvido pelo clima. É também uma história muito humana sobre um homem que passou por uma tragédia e está tentando superá-la".
Não podemos esquecer que Spielberg trabalhou com um grupo que reunia cientistas do MIT (Massachusetts Institute of Tecnology) como John Underkoffler. Durante três dias, instalados num hotel em Santa Mônica, na Califórnia, discutiram o mundo dentro de cinqüenta anos. E junto com os cientistas estavam os realizadores do filme, o roteirista Scott Frank, o desenhista de produção Alex McDowell e sua equipe. Segundo o desenhista de produção, nos sentamos para discutir como será a sociedade daqui a 5, 10, 20, 30 anos. As conversas englobavam de tudo, avanços na medicina, como as pessoas irão escovar os dentes, transportes, planejamento urbano, arquitetura e arte.
Nessa análise de Minority Report vamos recorrer a um teólogo, que por ter fornecido elementos para o pensamento iluminista, fornece instrumental teórico para se entender Spielberg. Alertando, no entanto, que muitos intelectuais cristãos se arrepiam ao ouvir o nome dele.
Para Jacobus Arminius (1560-1609), a questão do destino humano precisa ser encarada a partir do papel da graça, que se opõe à depravação humana. Para Arminius, o destino humano está condicionado à graça -- encontro e conjunção entre o divino e o humano que produz sentido e plenitude de vida. É confluência e presença. Assim, a graça ilumina a inteligência e move a vontade no sentido do bem. Em sua Declaração de Sentimentos apresentada ao sínodo da igreja holandesa em 30 de outubro de 1605, ele afirmou que Deus não destina ninguém para a danação. E explica que Deus escolheu seu Filho como Salvador, para mediar a favor daqueles que se arrependem e crêem em Cristo, e para administrar os meios eficientes e eficazes para a fé de cada um deles.
Voltando ao filme, é interessante ver que antes de olhar seu próprio rosto no Pré-Crime, Anderton nunca tinha se questionado acerca das implicações decorrentes da captura e prisão de pessoas anteriormente à prática dos crimes. Tudo se baseia na presunção de que o Pré-Crime, o que inclui os pre-cogs, não se engana.
Spielberg ressalta que Anderton se encontra no meio de duas jornadas: "Uma é a jornada física da descoberta das pistas que irão redimi-lo ou mostrar que ele vai realmente matar. A outra é uma jornada interior, um conflito emocional. Por isso, cada cena tem uma dupla conotação. Isto torna este o papel mais estimulante que Tom Cruise já interpretou, e acho que ele se saiu maravilhosamente bem".
Na verdade, consideramos que toda a tensão entre destino irremediável ou destino condicional está presente em Minority Report e leva a discussão graça e escolha. Teologicamente, ou melhor, partindo do destino condicional proposto por Arminius, tomamos por base o arrazoado que o apóstolo Pedro faz em sua segunda epístola, explicando esta questão. Ele nos mostra que a graça não está limitada pelo destino:
"Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada, pelo contrário, ele é longânime para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento". II Pedro 3.19 e por extensão I João 2.2 e II Coríntios 5.19.
A graça tem eficácia plena, mas há uma chave para que a função graça e a função expiação sejam plenamente exercidas. E essa chave está no final do versículo acima citado: "que todos cheguem ao arrependimento". O sacrifício pleno, eficiente e eficaz de Cristo deve ser somado ao arrependimento, produzindo então a salvação. Expiação não limitada + arrependimento = salvação. Quando essa função não se realiza, o sacrifício pleno, eficiente e eficaz de Cristo sem o arrependimento produz justiça. Expiação não limitada - arrependimento = justiça.
A verdade é que o valor da cruz não é limitado, mas sua aplicação sim. Nosso destino é o paraíso, mas a escolha depende do arrependimento. Por isso, Arminius diz que Deus decreta a salvação e a condenação de pessoas em particular com base no conhecimento divino da fé e perseverança de cada um em particular.
Spielberg e Tom Cruise buscaram em Minority um projeto no qual pudessem trabalhar juntos. Foi um caminho longo. Quando filmava De Olhos bem Fechados, o último filme do diretor Stanley Kubrick, uma adaptação da história de Philip K. Dick chamou a atenção de Tom Cruise. Ele a enviou para Spielberg e o retorno do diretor foi imediato. "Ele ficou entusiasmado. É uma excelente história", conta Cruise.
Minority Report era um projeto da Fox cobiçado por diversos realizadores. Depois que Tom Cruise enviou para Spielberg a adaptação da história escrita por Jon Cohen, o diretor leu o conto de Philip K. Dick, intitulado The Minority Report, e convidou o roteirista Scott Frank para adaptá-lo.
A história de Philip Dick tinha sido publicada pela primeira vez em 1956, na revista Fantastic Universe. O autor de ficção científica escreveu centenas de contos entre as décadas de 50 e 60, porém nunca foi bem-sucedido comercialmente. Philip Dick morreu antes da conclusão do primeiro filme baseado numa obra sua, Blade Runner, de Ridley Scott, filme que marcou minha geração e levantou questões que permanecem atuais, como a construção de pessoas e nosso relacionamento ético e social com elas.
Minority Report - A Nova Lei revela um mundo que não tem o visual futurístico tradicional de um filme de ficção científica. Mostra um desenvolvimento do mundo de hoje. Vale a pena vê-lo e discutir teologicamente as questões levantadas por Spielberg. Todos vamos ganhar com isso.
|

|
|