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Duas ou três coisas sobre “O código da Vinci”
A figura de Jesus continua a ocupar o primeiro lugar na atenção mundial, quer através do cinema, quer através da literatura. Nesse sentido, a discussão em torno do livro de Dan Brown, “O Código da Vinci”, lançado no Brasil pela Editora Sextante, tem razão de ser, pois traz à tona antigas discussões, algumas delas já insinuadas por Umberto Eco em “O nome da rosa” e “O pêndulo de Foucault”, ou pelo livro de José Saramago, “O evangelho segundo Jesus Cristo”, ou ainda o filme de Martin Scorcese, “A última tentação de Cristo” (1988).
O certo é que mais uma vez a discussão gira ao redor de duas constantes na história da cristologia: “Jesus histórico” versus “Cristo da fé”. O que nos leva, de novo, ao axioma: “quanto o infinito se cruza como o finito, surgem questões que são praticamente impossíveis de responder a partir de nossa finitude”.
É verdade que o texto de Brown parte de uma visão totalizante, como explicou o professor Sérgio Mota [in “O romance de 10 milhões de leitores”, Universia Brasil, 03/12/2004], da PUC/Rio, “onde os fatos são substituídos por uma explicação por detrás dos fatos”. Ou seja, não há compromisso com as diversas leituras da história, nem critério metodológico e científico de confrontar apócrifos [do grego, apókruphos, subtraído da vista, oculto, secreto: dizia-se dos livros não canônicos por ser sua leitura proibida nas sinagogas e depois no cristianismo] e canônicos [do latim canonìcus, em teologia relativo a uma regra, a uma medida; do grego kanonikós, feito conforme as regras, de acordo com as regras eclesiásticas, os dogmas da igreja], a fim de analisar semelhanças e diferenças.
Mas, a partir da ficção somos levados, também, a interessantes questões teológicas: a do suposto casamento de Jesus Cristo com Maria Madalena e da linhagem descendente desta união. Segundo Brown, autores antigos trataram do tema, e o Santo Graal não seria a taça na qual Jesus tomou vinho na última ceia, mas textos que comprovariam esta união. Este segredo e a localização destes documentos estariam sendo guardados por gerações e pelo Priorado de Sião, grupo originado dos Cavaleiros Templários que guardavam o templo de Salomão na época das cruzadas. E o pintor Leonardo da Vinci teria sido um dos guardadores do segredo e deixou pistas dele em algumas de suas obras, como em “A última ceia”.
O casamento de Jesus
Ainda segundo Brown, o casamento de Cristo é óbvio. Ele usa como argumentos costumes do judaísmo palestino da época, como o fato de Jesus ser um rabino, mestre, o que dentro daquela tradição cultural leva à possibilidade de ter sido casado. Ele cita os evangelhos apócrifos, mas especialmente gnósticos [do grego gnóstikós, que é capaz de conhecer, conhecedor; que estava ligado ao gnosticismo, corrente religiosa de caráter sincrética e esotérica, que combinava misticismo e especulação filosófica e que se desenvolveu nos primeiros séculos de nossa era à margem do cristianismo institucionalizado], que contariam esta história. E afirma que Jesus teria deixado a responsabilidade pela continuidade de sua obra nas mãos de Maria Madalena, que por isso teria sido perseguida pelos apóstolos enciumados, indo refugiar-se, grávida, na França, após a crucificação de Cristo. Parte disso é tradição gnóstica, parte é ficção.
Ou, como explica o cientista da religião Gabriele Cornelli, da Universidade Metodista de São Paulo [in Renata Costa, O Código da Vinci, Universia Brasil, 03/12/2004], “essa é uma tradição antiga, que lembra uma relação especial de Jesus com Maria Madalena e os evangelhos apócrifos falam disso. Mas não dá para afirmar isso no contexto histórico, pois parece que o assunto não é considerado dentro das últimas pesquisas”.
Depois de Agostinho, a igreja católica passou a considerar o pecado de origem como sexual. Tal definição não somente aprofundou a misoginia, mas fez do clero romano sexófobo. Com o tempo isso levou a igreja romana a construir uma imagem assexuada de Jesus, dos apóstolos e, por extensão, exigir tal postura de seu próprio clero. Por linhas tortas, nós reformados herdamos parte dessa distorção de ver Jesus como ser humano incompleto e, na seqüência, bem à moda católica, relacionar sexualidade a pecado. Assim, se era divino, Jesus não poderia se casar. Mas, como afirma Cornelli, se “não há evidências de que ele tenha se casado, também não há evidências do contrário”.
Conhecedor da força do preconceito, Brown em seu livro agarra-nos e confronta-nos a partir dele. Não precisa analisar teologicamente a questão, nem confrontar textos. Basta dizer que casou e a conseqüência é óbvia: não era Deus.
A divindade de Cristo
Dan Brown erra ao dizer que Jesus só começou a ser considerado filho de Deus após o Concílio de Nicéia, em 325. Não somente o título de Filho de Deus é anterior ao concílio, mas também o título de Senhor (kyrios, em grego) foi amplamente utilizado pela igreja primitiva e está presente nos Evangelhos, o que remete à idéia de que era considerado Deus. O tetragrama, nome de Deus no Antigo Testamento, impronunciável para os judeus, foi substituído na cultura cristã pela expressão Senhor. Assim, ao dizer Senhor Jesus, os cristãos reconheciam a sua divindade. E esse costume estava presente na história da primeira igreja.
Cornelli concorda com isso. “A história no começo da igreja primitiva tem muita pluralidade, muita gente falando coisas diferentes. Quando um movimento carismático começa a ganhar força e a se institucionalizar, é preciso acertar algumas coisas e diminuir as diferenças”.
É neste contexto que começam a acontecer os concílios, a fim de estabelecer uma uniformidade para a igreja cristã. “Quem bateu o martelo no concílio sobre a questão da divindade faz parte deste grande movimento, isso não quer dizer que antes não houvesse em várias comunidades a crença na divindade de Jesus”, afirma Cornelli.
Valorização da mulher
Mas nessa discussão alguns aspectos devem ser destacados. Os livros apócrifos valorizam a mulher. Maria Madalena não é apresentada como prostituta, mas como discípula e líder entre os seguidores de Jesus.
No Evangelho de Maria Madalena [Jean-Ives Leloup, Evangelho de Maria, Miriam de Mágdala, Petrópolis, Vozes, 1998], gnóstico, diz que ela recebe os ensinamentos do Mestre e os transmite, causando a irritação de Pedro, que diz:
-- Será possível que o Mestre tenha conversado assim com uma mulher? Devemos mudar nossos hábitos e escutarmos todos essa mulher?
Levi repreende Pedro, dizendo:
-- Se o Mestre tornou-a digna, quem és tu para rejeitá-la? Arrependamo-nos!
No tratado gnóstico “Pistis Sophia” [Pistis Sophia: os Mistérios de Jesus. Organizador: Raul Branco, Editora: Bertrand Brasil, 1997] vemos que a liderança de Maria incomodava os discípulos. Assim diz o texto:
Pedro precipitou-se adiante e disse a Jesus:
-- Meu Senhor, nós não podemos mais suportar esta mulher, pois nos tira a oportunidade; ela não deixou falar ninguém de nós, mas sempre ela a falar. Meu Senhor que as mulheres cessem afinal de perguntar, de modo que nós possamos também perguntar.
E Maria Madalena também disse a Jesus:
-- Por isso, eu tenho medo de Pedro: ele costuma ameaçar-me e odeia o nosso sexo.
O Evangelho de Filipe [Evangelhos Gnósticos, Cristo Vivo; O Evangelho de Filipe, Araraquara, Editora Século XXI] diz que Jesus amava Maria Madalena e a beijava na boca. O beijo na cultura bíblica palestina traduzia também a idéia de transmissão do espírito. Nesse sentido, podemos estar diante de uma metáfora -- Jesus transmitiu seu conhecimento, seu saber, a Maria Madalena. Se esse é o sentido do texto, o pecado de Maria Madalena perante os discípulos foi o pecado do saber. Se tomarmos o texto literalmente, numa leitura de afeição humana, então, Jesus teria amado aquela mulher.
Segundo os gnósticos, as duas leituras são complementares e corretas e, por isso, os discípulos tinham ciúmes dela. A verdade é que a igreja católica romana fez de Maria Madalena uma prostituta em contraste à outra Maria, mãe de Jesus. A primeira entrou para a história da teologia como pecadora que se arrepende e a segunda, como virgem. Ambas tiveram suas imagens mutiladas pelo patriarcalismo eclesial romano.
Agora, há uma explicação para o clero romano fazer de Maria Madalena uma prostituta: minimizar sua liderança. Na verdade, as disputas entre os discípulos aparecem com mais claridade quando lemos os apócrifos como fontes secundárias, embora importantes, em nossas pesquisas. Se ficarmos apenas nos escritos canônicos, Pedro é o líder. Já nos apócrifos, aparece como ciumento. É interessante que no “Pistis Sofia”, Pedro pede a Jesus que expulse Maria Madalena do grupo, porque fala muito e não deixa os outros falarem. Mais adiante, é ela quem reclama com Jesus de que Pedro está sempre à frente e que detesta o sexo feminino. No Evangelho de Tomé [Jean-Yves Leloup, O Evangelho de Tomé, Petrópolis, Vozes], Jesus diz a Pedro que se fosse necessário transformaria Madalena em homem para que ela pudesse entrar no reino.
Sem dúvida, longe dos recursos da ficção, estamos diante de uma discussão atual, de gênero, que incomoda muita gente.
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