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No capítulo anterior nos perguntamos se o cristianismo pode superar sua crise social. Se pode, de fato, dar uma contribuição relevante para a humanização do mundo. E nos perguntamos, também, se a teologia tem condições de trilhar o caminho da crítica da economia neoliberal globalizada. Vamos agora aprofundar um pouco essas questões, mas a partir de uma discussão que divide os estudiosos: a relação entre teologia e espiritualidade.
EXCLUSÃO E LIBERDADE NO SÉCULO 21 A espiritualidade, divisor de águas
Segunda parte
Se há crise do mundo, se há crise do cristianismo, de onde partir para superar a crise da teologia? Dois teólogos, nesse início de milênio, tentam pontuar modos de encarar a crise. Para Gustavo Gutiérrez, três questões devem ser ressaltadas no esforço de fazer teologia que enfrente as crises presentes neste início de século:
Em primeiro lugar, levar em conta a complexidade do mundo do excluído. Exclusão, do latim exclusióne, é uma categoria sócio-econômica, cultural, de gênero, de cor, mas aqui estamos trabalhando o conceito conforme exposto por Enrique Dussel, onde excluído é aquele que tem negada sua eticidade à vida. Assim, exclusão é também pobreza, mas antes de qualquer coisa, morrer no começo, fome, doença, mortalidade infantil, marginalidade. Enfim, é a negação do dom da vida. E a complexidade desse mundo não pode ser esquecida por aqueles que desejam fazer teologia e apresentar ao mundo a boa nova da salvação.
É necessário entender, também, que há esforço para silenciar o mundo do excluído. Esse esforça se faz presente através de ideologias como a meritocracia, a cultura do contentamento e do consumo, em última instância a do mercado transcendentalizado.
Esse engano da globalização selvagem alarga a brecha entre ricos e excluídos, impõe o pensamento único, e objetiva calar o excluído. A economia é colocada acima da ética, a política é negada enquanto relação e é pregada a morte das ações de transformação social, a fim de calar as vozes dos não incluídos no mercado transcendentalizado.
Mas a espiritualidade não pode ser esquecida. Ela é o terreno da esperança. E para Gutiérrez é fundamental a construção de uma hermenêutica da esperança, pois a razão da opção pelo evangelho social é o amor gratuito de Deus.
Já para José Comblin é preciso resgatar a noção de teologia como reflexão crítica sobre os discursos religiosos. E mais: acredita que se tem perdido de vista o projeto inicial da Teologia da Libertação que era o de formar uma nova sociedade. Será que os teólogos não sucumbiram ao capitalismo, típico em seu individualismo e ausente na construção de projetos de sociedade?
Assim, afirma Comblin:
Com a mudança do sentido da palavra teologia, corre-se o perigo de ver desaparecer a reflexão crítica sobre a prática cristã. Tem-se a impressão de que há uma penetração insensível ou inconsciente das preocupações, do modo de pensar e dos modos de expressão da cultura (...). No individualismo (...) a sociedade não é problema. O mercado resolve todos os problemas sociais.
Na experiência imediata, o que há, e o que deve haver, é a luta de todos para sobreviver, vencer e permanecer num lugar de destaque. Por isso, o discurso que prevalece, é o discurso de afirmação de identidade. Cada grupo humano, desde que tenha uma pequena diferença, luta para defender a sua identidade e para que esta seja respeitada pelos outros. Daí uma imensa diversidade de discursos paralelos que nunca se encontram, e lutam para conquistar mais espaço.
São, essencialmente, discursos de defesa de direitos. (...) A vida social fica dominada por essa necessidade de salvar a própria identidade, a identidade do grupo.
O discurso de identidade é também religioso. Cada grupo quer fazer a sua teologia e defender os direitos da sua teologia no mercado de todos os discursos teológicos, no grande mercado religioso.
Diante de tal multiplicidade de discursos a sociedade real desaparece porque o mercado não cria sociedade, não cria solidariedade, não cria colaboração a serviço do bem comum. O único bem comum é o próprio mercado.
Ora, o desafio assumido pela teologia da libertação foi o desafio de refletir sobre o movimento de mudança da sociedade. Havia que ajudar o povo cristão a construir uma nova sociedade. Dada a terrível herança da sociedade latino-americana, o desafio era criar uma sociedade onde ainda não havia verdadeira sociedade. Tratava-se de criar laços sociais fundados em compromissos mútuos.
Por outro lado, observa Comblin, a espiritualidade aparece como se isto fosse a função do projeto teológico. Entretanto, construir a espiritualidade não é a função do teólogo, que tem como dever examinar e julgar, à luz do evangelho, as espiritualidades existentes.
As espiritualidades respondem à necessidade de desenvolver o aspecto subjetivo da fé, como experiência vivida e consciente. Hoje em dia, com o desenvolvimento extremo da subjetividade e a ruína de todas as instituições religiosas, a espiritualidade torna-se quase a totalidade da religião e da fé. Nasce uma abundância de espiritualidades. Ao lado das espiritualidades cristãs surgem centenas de espiritualidades de outras religiões que muitas vezes se misturam com espiritualidades cristãs.
Tudo isso é sinal dos tempos. Diante de uma imensa procura de espiritualidade, os cristãos devem valorizar as suas próprias, criar novas expressões e transmiti-las ao mundo de hoje.
No entanto precisam levar em conta que é pouco provável que um teólogo ou uma teóloga possa criar uma espiritualidade. Os dons espirituais são diferentes. A sensibilidade, a imaginação, os dons de comunicação, a experiência autêntica de realidades religiosas não são necessariamente características dos teólogos. Inclusive analfabetos podem fundar uma espiritualidade. Há pessoas dotadas de uma intuição religiosa muito forte, mesmo sem nenhum conhecimento teológico, que têm o dom de saber mostrar o caminho a outros.
Os teólogos ou as teólogas não podem pensar que têm a responsabilidade de criar uma espiritualidade. A sua tarefa consiste em refletir criticamente sobre as espiritualidades julgando-as a partir da Bíblia lida e vivida por 2000 anos de vida cristã. Pois, o teólogo é a pessoa que deve aprender a Bíblia e a história da leitura da Bíblia, o que constitui os critérios que permitem dar uma apreciação sobre o que acontece hoje em dia.
O teólogo e a teóloga devem viver uma espiritualidade, mas esta não será criada por eles e sim recebida de outras pessoas dotadas de dons espirituais ainda que não tenham formação teológica.
De um professor de teologia espera-se que ensine teologia e não que ensine uma espiritualidade, ainda que seja recomendável que possa mostrar que ele ou ela também vivem uma espiritualidade recebida de outros. É bom ele ou ela ter uma espiritualidade, mas não é o que se espera dele ou dela porque há outras pessoas que podem fazer isso muito melhor. As faculdades e escolas de teologia não preparam de modo algum para produzir uma espiritualidade. Há outros cristãos que o fazem e o fazem muito bem. Não aprenderam numa escola e sim na vida.
Mas a posição de José Comblin acerca da relação teologia e espiritualidade não é unânime entre os teólogos da libertação. Clodovis Boff, por exemplo, vê de maneira diferente. E começa colocando em questão a crise da Teologia da Libertação. Para ele, a TeoLiber não é um processo tão orgânico que possa ser colocado em crise de um momento para outro.
Antes de refletir analiticamente como a TeoLiber enfrenta a crise atual, importa dizer como os teólogos a vivem. Pois, mais que esmiuçar as razões da Teologia da Libertação, é preciso ver sua razão de fundo.
A Teologia da Libertação, mais que ser uma teoria, é um modo de teologizar. Antes de ser método específico, é uma sensibilidade. Tornou-se um hábito. É o jeito de se fazer teologia na América Latina.
Como estilo de fazer teologia, a aborda problemas duma determinada maneira, pensando em termos de comunidade e transformação social. A Teologia da Libertação pensa a problemática do excluído, e isso inclui a política.
Esta atitude de fundo, feita mais de espírito que de método, mais de vida que de teoria, é o diferencial da Teologia da Libertação.
Mas, e a falência do socialismo real? E a ascensão do neoliberalismo? E o domínio da pós-modernidade tecnológica? Bem, a realidade continua a gritar alto. É partindo deste espírito que a Teologia da Libertação procura enfrentar os novos problemas. Não pode ter uma agenda fechada. Pois se define como um modo de ver as coisas e não tanto por essa ou aquela temática.
A TeoLiber está se reformulando, ampliando dialeticamente intuições, a dupla referência aos excluídos e ao evangelho, e incorporando novas questões. Eis algumas tarefas que está levando em frente:
No nível metodológico, assume uma mediação socioanalítica plural. No nível eclesiológico, trabalha em questões como o papel social e religioso das massas, o lugar das novas classes médias e as tendências dos novos movimentos religiosos.
No nível político, revaloriza a relação direta e imediata com os excluídos e dá lugar às alianças estratégicas com as esquerdas e correntes não globalizantes.
No nível da espiritualidade, redescobriu a fé e a graça como ponto de partida e pólo dialético para o misticismo latino-americano.
A Teologia da Libertação é uma teologia de coisas e não apenas de idéias: ela faz da realidade vivida seu tema de reflexão.
Ora, uma vez que se captou qual é o espírito que anima, sustenta e garante a Teologia da Libertação, pode-se examinar objetivamente como reage à crise que envolve tudo e todos.
Crise nas mediações, não nas raízes.
Na análise da Teologia da Libertação e a crise, segundo Clodovis Boff, sua posição é a de que se a crise toca essa teologia é no nível das mediações, não no nível das raízes. E explica.
Quais são as raízes da TeoLiber? Em síntese: a experiência de Deus no excluído. Analiticamente, sustenta a inspiração evangélica e o compromisso com o excluído da sociedade. Ora, a crise não abalou estas duas convicções de fundo. E a TeoLiber nasceu precisamente do encontro fé e opressão.
As questões históricas que levantou não foram de modo algum solucionadas. Longe disso. Antes, se transformaram e se agravaram: a miséria cresceu e tomou a forma de exclusão em massa. E com a exclusão, a dialética do senhor e escravo passou ao segundo plano em favor de outra: a dialética do integrado e excluído. A perspectiva da justiça está novamente distante e sua visibilidade histórica mais problemática.
Seja como for, a realidade do sofrimento social e da desigualdade assim como o desejo de mudar a sociedade e a vida são fenômenos estruturais. Continuam socialmente presentes e, embora reprimidos, pulsam com toda urgência histórica. A crise atual não os resolveu, mudou-lhes para pior o aspecto.
As questões da fé e do excluído são objetivamente atingidas pela crise e necessitam de aprofundamento e de um novo equacionamento. Mas ao nível subjetivo, aquelas duas convicções continuam sendo, aos olhos dos teólogos da libertação, os pilares incontestes de seu discurso.
Pode-se sustentar que, entre todos os grupos atingidos pela crise cultural que estamos vivendo, os militantes de igreja não se encontram em condições mais desvantajosas que os outros. Não se sentem em absoluto desarvorados. Ao contrário, dispõem de recursos que nem a esquerda tem: uma referência religiosa e uma vinculação com os excluídos, sem falar no apoio de uma instituição -- a igreja -- que possui lá sua vitalidade e crédito sociais.
Quanto às mediações concretas da Teologia da Libertação, às formas específicas que podem assumir a dupla referência acima -- fé evangélica e solidariedade com o oprimido --, aí sim há muito que rever e que mudar.
A crise trouxe para a TeoLiber a relativização de pontos de vista. Purificou equívocos. Constitui um exercício de despojamento.
Assim para Clodovis Boff, ao nível de suas mediações, certezas falsas foram para o chão. Essas certezas se situavam no tripé: (1) certezas de análise sobre o sistema social capitalista; (2) certezas sobre o projeto histórico de sociedade, o sistema socialista alternativo; (3) certezas sobre as estratégias para se chegar a encarnar a utopia.
A Teologia da Libertação tornou-se humilde. Percebe a realidade de modo mais complexo. Faz-se sensível à verdade que está nas outras propostas, tidas outrora como alienadas.
A crise não deixou de fortalecer a TeoLiber em suas raízes. Essencializou-a em seus princípios básicos. Operou nela concentração em torno de convicções de fundo: a fé bíblica e a opção pelos excluídos. É firmando-se aí que a Teologia da Libertação tem condições de enfrentar a crise e propor saídas criativas.
Se examinarmos porque a Teologia da Libertação hoje adota um perfil baixo, explica Clodovis Boff, podemos identificar três circunstâncias responsáveis, de peso e de valor desiguais: (1) a incorporação da temática da TeoLiber pela igreja institucional; (2) o domínio da ideologia neoliberal no debate social; (3) o deslocamento da relevância social para a questão do sagrado.
As bandeiras da TeoLiber não são mais só dela, se tornaram de uso comum. Assim as idéias de pecado social, de missão profética, de transformação das estruturas circulam com naturalidade dentro da área eclesial. Nesse sentido, a Teologia da Libertação enriqueceu a consciência social da igreja.
A Teologia da Libertação se situa no seio da eclesialidade. E aí dentro faz o papel de corrente de opinião, que busca sensibilizar a igreja para a questão da justiça social. Em relação à igreja, fica para a Teologia da Libertação um problema: ser igreja renascida, não apenas como inspiração e realização setorial, mas enquanto estrutura de efetiva comunhão e participação, coisa que alguns chamam de democracia eclesial.
A Teologia da Libertação tem aí imensos desafios históricos. Desafio esse ligado à sua dupla referência fundante, pois as perguntas que estão por trás são: Que tipo de igreja responde ao projeto de Jesus? E que tipo de igreja serve aos excluídos?
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