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Na segunda parte nos perguntamos sobre que tipo de igreja brasileira responde ao projeto de Jesus. E fomos mais fundo: que tipo de igreja serve aos excluídos? Eis uma discussão que muitos evitam fazer. Mas aqui, nesta terceira e última parte, vamos fazê-la, procurando respostas num sentido amplo e teológico: como, a partir de uma teologia libertadora, responder aos apelos emancipatórios da humanidade?

EXCLUSÃO E LIBERDADE NO SÉCULO 21
A relevância do sentido espiritual da vida
Terceira parte

Como ouvir o clamor dos excluídos nessa gritaria neoliberal que reduziu tudo ao discurso do mercado transcendentalizado? Até poucos anos o discurso de esquerda era o discurso hegemônico, dinâmico e criativo no campo cultural. Era também o discurso temido no mundo político e respeitado na área acadêmica.

No que toca à Teologia da Libertação podia-se dizer que na igreja da América Latina era a teologia hegemônica, que procurou dar a direção moral e intelectual à caminhada pastoral das igrejas. Ela estabelecia a agenda do debate eclesial em Medellín (1968), Puebla (1979) até os meados dos anos 80. Desde então, em virtude da conjugação de fatores sociais e eclesiais começou a perder terreno.

Apesar disso, os teólogos da libertação continuam dando aulas na perspectiva global da transformação social. Pesquisam, abrem frentes de discussão sobre questões como espiritualidade, ecologia, feminismo, inculturação, modernidade a partir das vítimas, etc. Escrevem e publicam. Mas não há dúvida, o gás baixou.

Sem dúvida há uma crise da Teologia da Libertação não pelo fato de ser de libertação, mas pelo fato de ser teologia.

A crise não se dá apenas ao nível do compromisso sócio-político, é crise de civilização: crise de valores e de sentido. Para Clodovis Boff, entre as necessidades que doem na alma não se contam apenas as necessidades materiais, mas também as não-materiais: carência de perspectiva e de esperança. Para que serve uma vida sem vitalidade?

Que significa isso para a teologia? Significa que não é só libertadora, mas fé como tal, fonte de sentido, que deve ser retomada. Aos olhos da fé cristã, que a memória dos excluídos se perca é dramático, mas resta uma esperança, ainda que extrema -- a escatológica. Mas que a memória do divino desapareça é muito pior: é trágico. Quando não se responde à pergunta “para que”, a própria luta por uma sociedade mais justa é posta em xeque e, faltando-lhe a esperança, perde sua força propulsiva.

A teologia tem pela frente não só a questão da miséria material, mas também a da miséria existencial do mundo moderno. Ela não é só chamada a ser profética, mas também kerigmática. As demandas que lhe são dirigidas não são apenas por pão, mas também por sentido. A isso a Jesus chama palavra e diz que disso também vivem os humanos!

Isso significa que a teologia é chamada não só a ser libertadora, mas a afirmar sua específica teologicidade. São suas bases que devem ser renovadas e de novo garantidas.

A primeira Teologia da Libertação, dos anos 70, aquela dos pais fundadores, possuía mediações que não eram questionadas. Utilizava o marxismo como metodologia definitiva. Mas nos meados de 80, essas mediações evidenciaram perda de plausibilidade. Já nos anos 90, mostravam a necessidade de serem revistos e teologicamente refundados.

Como testemunhas da época, observem-se os jovens dos anos 90, como são e que pensam: neles a tradição da fé já não funciona por vias da tradição cultural. O mundo moderno não lhes aparece apenas injusto, mas também sem-sentido. Em nome de que mudar as estruturas, se a vida mesma não vale a pena? Não suceda que enquanto os teólogos continuam indo para o social, boa parte dos jovens esteja voltando, em busca de outra coisa, de algo mais. O que é finalmente relevante hoje? Não se dá atualmente um deslocamento das relevâncias?

A fé cristã nunca foi totalmente funcional a qualquer cultura ou sociedade. A fé é essencialmente crítica já ao nível antropológico-existencial, justamente porque ela põe em xeque o destino do humano, confrontando-o com o mistério transcendente. Por isso será, em princípio, é disfuncional ao sistema do mundo. Mas na sociedade secularizada e pluralista, a criticidade intrínseca da fé se duplica em criticidade histórica e cultural.

O que há é um deslocamento da problemática histórica. O acento passa da libertação social para a do sentido espiritual da vida, de tal modo que esta se torna uma questão vital e prioritária. E isso não apenas para os indivíduos, mas para amplos setores da sociedade, mesmo se não é propriamente problema social.

Teologia e pensamento crítico

A problemática moderna da busca de sentido, da sede de sagrado, da fome de transcendência ou como se queira chamá-la, afirma Clodovis Boff, está recebendo os mais variados tipos de respostas.

Partindo de uma perspectiva sociológica, não seria a problemática do sentido uma problemática típica das classes privilegiadas, olhando a partir de Max Weber? Em parte sim, mas é não é exclusiva delas. E isso não só pela influência socializadora da mídia, instrumento privilegiado da mentalidade classe-média, mas por causa da cultura moderna que envolve a todos, ricos e excluídos, e que suscita em todos a busca da outra dimensão.

E nem falemos da dimensão filosófico-antropológica da questão. A menos que se creia que os excluídos não sejam gente. Não é também para serem reconhecidos como gente, mesmo se é pelo viés da solução das necessidades imediatas, que os excluídos freqüentam as igrejas pentecostais? Ou se acredita que os excluídos se fazem crentes apenas por efeito do abandono social, sem ideais mais elevados?

Mas, então, com a espiritualidade fica superada a questão da justiça social? Essa não é uma questão teórica que se possa eludir a bel prazer; é antes um problema prático que se impõe com a objetividade de uma montanha. É a montanha dos 80% do planeta que só dispõe dos 20% da renda mundial. Esta disparidade proíbe qualquer consciência tranqüila e qualquer ordem mundial segura.
E não há espiritualidade que consiga esconder esse escândalo que brada aos céus.

Frente ao mudado cenário tanto da fé quanto da política, é dever da Teologia da Libertação repor a relação fé-política em novos termos. Tudo indica que a fé, como sempre política, tenderá a sê-lo em menor medida, por enfatizar com maior vigor sua autonomia específica. Quanto à política tenderá a ser mais vulnerável à penetração da religião, com o perigo de sua colonização sob a forma de integralismo político. Na verdade, hoje o indicador política baixa, enquanto que o da fé sobe.

Considerações finais

Em relação aos novos desafios, os teólogos da libertação não pensam que se trate simplesmente de pegar ou largar. O importante é discernir. Para isso, ajuda a distinção prática, tomada de empréstimo aos pós-modernos, entre pensamento forte e pensamento fraco.

Assim, para Clodovis Boff, cumpre manter um pensamento forte frente às convicções de fundo, às intuições originais, ao que se refere à própria identidade.

E adotar um pensamento fraco no que se refere (...) às mediações teóricas da Teologia da Libertação, análises, (...) e projetos concretos. É especialmente nesse campo que os teólogos da libertação estão prontos a incorporar elementos novos, sejam eles metodológicos, éticos ou espirituais; aprender das outras correntes, para além de todas as cercas de escola, confissão e partido.

A grande tentação da Teologia da Libertação, para o teólogo belga Etienne Higuet, sempre foi a de ser uma teoria da ação social e política. Ela modificou o seu discurso porque percebeu que o modo como o estava propondo, a ação social e política, não funcionou diante da transformação que o mundo viveu nestes últimos 20 anos.

Nesse sentido concordo mais com José Comblin quando coloca que a espiritualidade não é o papel da teologia, já que pode haver grupos cristãos que elaboram uma espiritualidade e também uma teoria da ação social e política. Mas o teólogo, como tal, tem outro papel. O pensamento teológico é um pensamento crítico, na verdade crítico-hermenêutico.

Do ponto de vista da ação social e política, Higuet acha importante ver o resgate da modernidade, enquanto resgate da necessidade e da responsabilidade frente à situação de miséria e exclusão social no mundo. Aí, sem dúvida, faz-se necessário um pensamento forte, no campo da economia e da política, mas sem o dogmatismo marxista. Ou seja, como Habermas coloca, é preciso resgatar esse anseio emancipatório da modernidade. Agora, as formas de realizar tais anseios devem ser repensadas e discutidas, procurando consensos além das fronteiras do Ocidente.

Mas é necessário, agrega Maraschin, termos uma percepção da qualidade do mundo em que estamos vivendo. Como diz Heidegger, vivemos num mundo obscuro e diante disso temos que nos perguntar o que fazer diante da obscuridade. Lembro-me de Rubem Alves, que diz haver momentos em que a saída está na colocação do Eclesiastes: vai e goza a vida com a mulher que amas, já que nem sempre o que deve ser feito é empunhar o fuzil. Daí porque prego a volta à poesia, porque esta é uma época de desolação em que não temos onde firmar os pés. Não há chão.

Embora concordemos com Maraschin, é importante alertar para o fato de que a pós-modernidade por sua abertura à pluralidade e ao reconhecimento de que não há metanarrativas, possibilita o encontro das teologias modernas com novas reflexões teológicas.

Assim, o pensamento pós-moderno não tem necessidade de lançar fora reflexões e preocupações modernas, como a questão socialista, o problema da exclusão social ou as propostas partidárias de transformação da sociedade. Ou seja, são as características do pensamento pós-moderno que têm empurrado a Teologia da Libertação a construir um diálogo com reflexões antes taxadas como alienadas. É nessa perspectiva que a Teologia da Libertação tem construído um diálogo com outras teologias, como a negra, feminista e indígena, para citar apenas três delas.

Outro fato que deve ser levado em conta, é que há um crescente movimento de contestação à globalização neoliberal. Esse movimento se dá de forma desigual. Pode até aparecer como os atentados de 11 de setembro, que todos lamentamos, mas se dá também através da organização da sociedade civil, em diferentes partes do mundo, como é o caso do Fórum Mundial Social. Sem exagero, vemos que os movimentos antiglobalização tendem a crescer e que o aparecimento do populismo-nacionalista e de correntes de esquerda na América Latina são expressões desse fenômeno. Tal realidade não pode ser deixada de lado pela Teologia da Libertação.

Sem dúvida, vivemos num mundo de desolação, mas diante disso não é o caso de perguntar qual é a função do teólogo? Os filósofos choram as dores do mundo, como Schopenhauer, mas teólogos são chamados não somente a analisar a realidade, mas também a viver o clamor profético. É vida na teologia cristã, herdeira do profetismo bíblico, nos momentos de desolação levantar a esperança escatológica.

E a esperança não é mero desejo, parte do conhecimento da realidade, da compreensão dos movimentos a favor da vida que, ainda minoritários num determinado momento, se levantam. A esperança coloca-se acima do momento presente e responde com a utopia.

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