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Em defesa da Bíblia,
em defesa da América

[De Montpellier, França] -- A Europa, estarrecida, vê o gigante norte-americano se levantar contra seu próximo alvo: o Irã. Le Monde Diplomatique [fevereiro/2005] estampa em primeira página os rumores da próxima guerra e as opiniões daqueles que, direta ou indiretamente, estão envolvidos nela.

Segundo o jornalista norte-americano Seymour Hersh, do The New Yorker, citado pelo jornal francês, “depois do Iraque a guerra contra o terrorismo se expandirá com um ataque contra Teerã”, a capital iraniana. O presidente George W. Bush não desmentiu tal possibilidade, mas de certa forma a confirmou, ao dizer: “Espero resolver as coisas diplomaticamente, mas não descarto nenhuma opção”.

Um aliado incondicional dos Estados Unidos nessa extensão da guerra é o Estado de Israel, que põe lenha na fogueira ao defender a possibilidade de que o Irã, em seis meses, terá condições de produzir urânio enriquecido e no correr dos próximos três anos poderá construir sua primeira bomba atômica. E, segundo o general Aaron Zeevi, chefe do alistamento militar israelense, o Irã já tem um míssil, o Shihab-3, “com capacidade para atingir o coração de Israel”.

Logicamente, os rumores de um ataque à Teerã produzem conseqüências desastrosas a qualquer projeto reformista para democratizar o Irã. Assim, segundo o presidente Mohammad Katami, “a maior parte dos iranianos viu com simpatia as intervenções norte-americanas contra o Afeganistão dos talibãs e contra o Iraque de Saddam Hussein, porque eles derrubaram dois regimes fortemente hostis a nós. Mas, as ameaças atuais fortalecem nas próximas eleições as correntes mais conservadoras. Para os democratas iranianos, isso é um desastre”.

Como entender o apoio que os evangélicos conservadores estão dando ao presidente George W. Bush e aos seus falcões: Donald Rumsfeld, Paul Wolfowitz e Douglas J. Feith, entre outros?

Irving Kristol é um dos líderes da corrente neoconservadora norte-americana. Apóia Bush e organiza o respaldo cristão evangélico às suas políticas de beligerância. Mas é interessante, afirma Tarek Mitri, autor de um livro audacioso “Au nom de la Bible, au nom de L’Amérique” [Labor et Fides, Genebra, 2004], que Kristol “se põe de acordo com Marx sobre o fato de que a religião é o ópio do povo, mas acredita que o povo necessita desse ópio”.

Tarek Mitri é o responsável pelas relações inter-religiosas do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra e tem trabalhado a partir das Ciências Sociais na compreensão dos messianismos que mobilizam dezenas de milhões de pessoas.

Para Mitri, a ambigüidade dos movimentos norte-americanos irrigados pelas ideologias religiosas e, sobretudo, pela aliança do neoconservadorismo evangélico com o Estado de Israel e com as comunidades judaicas norte-americanas pode ser traduzido pelas idéias de Irving Kristol e por sua defesa do “ópio religioso como uma necessidade das massas”.

Em seu livro “Au nom de la Bible, au nom de L’Amérique”, Mitri se pergunta sobre o paradoxo: como, quando a constituição dos Estados Unidos propõe uma clara separação entre o Estado e a religião, os movimentos religiosos podem continuar impregnando com suas ideologias toda a vida política, social e cultural norte-americana?

Para Mitri existe uma explicação, “a vontade política de remodelar o mundo e o desejo de acabar com as inquietações que assombram a sociedade norte-americana”.

Mas será esse o caminho cristão? É claro que não. Prefiro ficar com o belo sermão que o pastor Michel Bertrand proferiu domingo, 6 de fevereiro de 2005, no “Culte de la cité”, na Igreja Reformada de Montpellier, em La Margelle, quando falou de luz e escuridão no mundo de hoje. E começou por um texto de Efésios:

“Antigamente vocês mesmos viviam na escuridão; mas, agora que pertencem ao Senhor, vocês estão na luz. Por isso vivam como pessoas que pertencem à luz, pois a luz produz uma grande colheita de todo tipo de bondade, honestidade e verdade. Procurem descobrir quais são as coisas que agradam o Senhor. Não participem das coisas sem valor que os outros fazem, coisas que pertencem à escuridão. Pelo contrário, tragam todas essas coisas para a luz. Pois é vergonhoso até falar sobre o que essas pessoas fazem em segredo. E, quando qualquer coisa é trazida para a luz, então a sua verdadeira natureza é revelada. Porque o que é claramente revelado se torna luz. E é por isso que se diz: Você que está dormindo, acorde! Levante-se da morte, e Cristo o iluminará”. [5.8-14].

E faço minha as suas palavras: Somos a luz do mundo. Os cristãos somos a luz do mundo. Mas, o que significa ser luz do mundo? Quando fala da luz, Jesus nos dá uma chave: “Vocês são a luz para o mundo. Não se pode esconder uma cidade construída sobre um monte. Ninguém acende uma lamparina para colocá-la debaixo de um cesto”. [Mateus 5.14-15].

Somos luz do mundo para ouvir o outro, para estar junto daquele que é diferente. Somos luz quando servimos. Mas, quando nos colocamos a serviço da intolerância, da segregação e da guerra, colocamos a luz debaixo de um cesto. Debaixo deste cesto que por impedir a luz é ídolo, pois separa, discrimina, mata.

E ídolo é isso: falso deus, deus desse mundo, travestido de deus-todo-poderoso, mas a serviço do ódio. Você é luz, mas onde você está colocando a sua luz?

É importante lembrar que neste culto estavam presentes a prefeita de Montpellier, parte de sua equipe – os assessores de administração, cultura e segurança – e outras autoridades. O que pregamos às nossas autoridades? O que elas querem ouvir? De fato a mensagem da luz é: “você que está dormindo, acorde! Levante-se da morte, e Cristo o iluminará”. Por que não dizemos isso aos senhores da guerra?

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