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Devemos fazer a crítica objetiva do espírito de finitude no Partido dos Trabalhadores? É possível buscar um Brasil novo ou o PT perdeu o sentido de finalidade?, pergunta Jorge Pinheiro.

Lições da história: Finalidade ou o tempo de fim?

A partir do Iluminismo, o desenvolvimento do conhecimento, assim como a autonomia da filosofia em relação à teologia, traduziu-se em desafio para o espírito religioso. Mas, metodologicamente, a teologia devia partir da hermenêutica de que o ponto decisivo para o conhecimento é o reconhecimento de que uma estrutura viva não pode ser composta fora de suas partes, mas só pode crescer a partir de uma origem.

Assim, o crescimento da oposição à sociedade capitalista, nas duas primeiras décadas do século 20, deveria levar, como de fato levou, às novas interpretações da história. E essas leituras, que entre outras coisas, apresentaram a fé como desenvolvimento e a história como presença do eterno no tempo, romperam o círculo até então fechado da compreensão da existência.

Leituras até então inéditas, como a de que a tarefa imediata da arte não é esconder a essência, mas expressar seu significado, levaram à reflexão do caráter espiritual presente nas artes, nas ciências, e na filosofia. E, como conseqüência da derrubada do século 19, surgiu uma dura e violenta crítica ao capitalismo. Mas a crítica ao capitalismo não era uniforme, apresentou-se enquanto crítica socialista e crítica nacional-socialista. E, se em sua estrutura interna, a sociedade capitalista é a antítese do princípio nacionalista, como explicar a existência de uma crítica nacional-socialista?

No capitalismo, a organização das pessoas no interesse da eficiência econômica destrói a estrutura orgânica das vocações e aprofunda a divisão em classes. Assim, a organização econômica do mundo capitalista destrói a individualidade nacional e impõe o padrão capitalista em todas as nações. Mas, nos anos 30, as éticas do movimento anticapitalista eram éticas provisórias, em construção, por isso, naqueles momentos de desequilíbrio e caos social ressurgiu como fênix a moralidade capitalista.

Ora, se o ideal de humanidade em vez de ser negado fosse determinado por aquilo que é incondicional, as éticas de finitude, capitalistas, seriam quebradas. Mas, como isso não aconteceu, não ressurgiram apenas as moralidades capitalistas, mas também a moralidade nacional-socialista, mística e espiritualizada. Isto porque naquele momento a sociedade carecia de significação religiosa.

Mas tanto as moralidades capitalistas, como estas outras expressões da finitude auto-suficiente, entre as quais o nacional-socialismo, não têm sentido de fim, por isso a catástrofe de toda finitude, como nos lembre o teólogo alemão Paul Tillich, é que é suficiente em si mesma.

Mas, a expressão maior da religião, por expressar o sentido daquilo que é incondicional, é sua preocupação em apresentar um tempo de fim. Tal constatação levou Tillich a formular um conceito hoje fundamental para a teologia, a concepção de fim enquanto “preocupação última” (ultimate concern), que tem poder de ameaçar ou salvar nosso ser.

Tal preocupação de finalidade atravessa a religiosidade e está presente nas ações humanas. Assim, falar de fim expressa a relação essencial entre tempo e eternidade. Por isso, quando um partido anticapitalista, como o Partido dos Trabalhadores, busca um distanciamento do espírito auto-suficiente de finitude e, por extensão, do próprio espírito da sociedade capitalista esbarra nas dificuldades que os grupos políticos enfrentam, seu estado de submissão a esse espírito auto-suficiente de finitude, próprio de nossa situação presente.

Fazer a crítica desse espírito de finitude, auto-suficiente, presente nas ações humanas, políticas, significa entender que todo julgamento deve levar à compreensão de que não se pode divinizar nenhuma construção política. Mas, ao se fazer o julgamento da política petista, também se faz o julgamento das possibilidades humanas. Ora, tal julgamento tem um aspecto positivo: nele reside um momento de graça onde a possibilidade humana pode se torna plena da graça divina.

Mas este julgamento é diferente das ações e propostas apresentadas por aqueles petismos auto-suficientes, alienados de finalidade, pois o kairós sempre aponta para a possibilidade de um mundo novo. E essa esperança é maior que a ilusão humana, porque esta esperança tem o incondicional por fundamento: quando o aqui-e-agora da graça gera o kairós, o momento do novo. Por isso, fica a pergunta para o companheiro Lula: tempo de fim ou de finalidade?

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