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O NÃO francês
Jorge Pinheiro, de Montpellier, França -- A vitória do "não" francês foi um terremoto, mais de 54% dos sufrágios expressos. Aparentemente, foi uma rejeição do projeto de Constituição da União européia, elaborada por uma comissão liderada pelo ex-presidente francês Giscard D’Estaing. Esta participação francesa nas urnas foi sem precedentes: doze milhões de eleitores suplementares foram às urnas em relação às últimas eleições. A participação foi superior a do segundo turno da eleição presidencial de 2002.
O Não da esquerda
O "não" foi maciço nos bairros populares. Inegavelmente, as camadas mais desfavorecidas da população contribuíram de maneira decisiva para a vitória do "não". E apesar da extrema-direita também ter votado pelo "não" -- por outros motivos, entre os quais o ódio xenófobo à presença de trabalhadores estrangeiros, principalmente muçulmanos --, foi o eleitorado de esquerda que constituiu o pedestal deste resultado: 63% dos simpatizantes da esquerda optaram pelo "não".
Diante dessa revolução pelo voto, o presidente da República, Jacques Chirac, prometeu revigorar a economia, através de duas ações, a diminuição do desemprego e a baixa do custo de vida e, também, com a formação de um novo governo. Referindo-se ao Conselho europeu que se reunirá no dia 16 de junho próximo, disse que defenderá "a posição do nosso país", alertando, no entanto, que o voto francês "cria um contexto difícil para a defesa de nossos interesses".
José Barroso, o presidente da Comissão européia, considerou o “não” francês uma espécie de acidente de percurso. E o presidente em exercício da União Européia, o primeiro ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker, exortou os outros países da Comunidade a prosseguirem no processo de ratificação da Constituição européia: "espero que os debates que vão prosseguir nos outros países alimentem o debate francês", qualificando o veredito das urnas de "dificuldade essencial" para o processo europeu.
O Sim das igrejas
A igreja cristã na França não conseguiu antes do Referendo ver o movimento social que se organizava por baixo da aparente calma no País. Os cristãos, representados pelos monsenhor Emmanuel, presidente da Assembléia dos bispos ortodoxos da França, pelo pastor Jean-Arnold de Clermont, presidente da Federação protestante da França, e pelo arcebispo Jean-Pierre Ricard, presidente da Conferência dos bispos da França, fizeram um chamado a favor do “sim”.
E a igreja francesa votou “sim” por considerar que a Constituição era inspirada na vontade soberana dos cidadãos e dos Estados da Europa, que estava calcada no princípio da legitimidade da União européia, e que consolidava a democracia participativa. E os líderes cristãos defenderam a participação das Igrejas no debate público, afirmando que a Constituição possibilitava um comprometimento com as igrejas, num diálogo aberto, transparente e regular, embora não fizesse nenhuma referência explícita à herança cristã européia.
Embora não tenham se preparado para o "não", as lideranças cristãs foram sábias quando afirmaram que há entre os europeus medo do futuro: “muitas pessoas interrogam-se onde este projeto levará e que Europa nos oferece de fato”. Mas, consideraram que as conquistas deviam ser mantidas: a paz, o primeiro objetivo dos fundadores da União européia, o desenvolvimento econômico, e um modelo social que se traduziu em melhoria dos sistemas de saúde e em proteção social acessível à todos.
E concluíram: “A Europa encontra-se hoje frente ao desafio de assegurar o bem-estar de todos seus habitantes, contribuindo ao mesmo tempo para a paz e o desenvolvimento no resto do mundo. Esta solidariedade vivida dentro e voltada para o exterior é a alma da União européia. A França, como um dos países fundadores da União européia e os franceses são responsáveis diante deste desafio”.
As possibilidades do Não
Na verdade, os eleitores franceses não se pronunciaram "a favor ou contra a Europa", mas contra um modelo de sociedade cujo balanço pode ser resumido em três números: 19 milhões de desempregados, 30 milhões de pessoas em precariedade de emprego e 60 milhões de pobres na União européia. Donde a pergunta: que Europa os franceses querem? Uma sociedade construída a partir de um projeto liberal ou uma Europa solidária? Uma democracia que associa os povos ou um sistema que organiza o confisco dos poderes e das decisões? São perguntas fundamentais, alimentadas pela experiência social de milhões de assalariados e excluídos.
De todas as maneiras, as reações internas na França após o conhecimento dos resultados eram previsíveis: de um lado, a alegria dos partidários de"não", e a consternação e mesmo cólera entre os defensores do "sim". Em Paris, centenas de simpatizantes da esquerda enfrentaram a chuva e convergiram para a Bastilha, onde festejaram a vitória do “não”, num local símbolo da Revolução francesa.
Segundo Rosa Moussaoui, jornalista do L’Humanité, a França disse “não ao sofrimento social, à ruptura dos serviços públicos, à precariedade do emprego, ao desemprego, à destruição dos acervos sociais e das solidariedades. Este terremoto levantou uma imensa esperança, na França e na Europa. Pela primeira vez um "não" franco é oposto a um sistema que esmaga pessoas e vidas, que coloca, acima dos valores humanos, o dinheiro, o lucro, a rentabilidade. É um "não" fundador, mas é apenas um início...”
Agora, a esquerda discute -- apesar da divisão do Partido Socialista em dois blocos, o do "não" e o do “sim” – a formação de uma ampla união que possibilite associar os franceses na definição de um novo projeto europeu.
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