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Lições de Madre Teresa

Uma notícia se espalha como fogo em palha: teremos um 7 de Setembro diferente Sem desprezar as celebrações, mas voltados para uma questão fundamental: a discussão sobre um plebiscito nacional sobre a ALCA - Área de Livre Comércio das Américas. A proposta está sendo levantada por várias entidades da sociedade civil. Professores e estudantes, por exemplo, estão se mobilizando, levantando subsídios, informações, estudando a viabilidade de um plebiscito não oficial que cubra o país de ponta a ponta.

Segundo Sérgio Almeida, diretor da Federação dos Sindicatos dos Engenheiros do Rio, por exemplo, em entrevista ao Jornal do Brasil de domingo (1/9) e integrante da coordenação nacional do plebiscito, ''a Alca é importante demais para que seja discutida a portas fechadas''.

Mas o que tem a ver Madre Teresa de Calcutá com isso. Bem, no dia 4 de fevereiro de 1994, foi realizado o Café da Manhã Nacional de Oração, no Hotel Shoreham, em Washington, DC. Esse Café da Manhã Nacional de Oração sempre foi um acontecimento tranqüilo: uma reunião do establishment político norte-americano. Mas naquela manhã, uma missionária católica iria subverter o costumeiro e tranqüilo Café da Manhã Nacional de Oração.

Ela disse: Os pobres são pessoas muito grandes. Estas pessoas pobres talvez não tenham nada para comer, talvez elas não tenham uma casa para viver, mas elas ainda podem ser grandes pessoas quando são espiritualmente ricas. Aqueles que são materialmente pobres podem ser pessoas maravilhosas. Uma noite saímos e recolhemos quatro pessoas da rua. E um deles estava em uma condição terrível. Eu disse às irmãs: "Vocês tomem conta dos outros três, eu cuidarei do que parece pior". Assim fiz por ele tudo aquilo que meu amor pode fazer. Eu o pus na cama, e havia um belo sorriso no seu rosto. Ele pegou minha mão, e só disse uma palavra: "Obrigado". Então morreu.

E, assim, ela começou sua fala sobre a sabedoria do pobre, aquele que não tem voz, mas tem o que dizer. E nós temos um plebiscito quando todos os que não tem voz falam. E podemos ouvir a sabedoria daqueles que são espiritualmente ricos.

Ela disse: Eu não pude evitar examinar minha consciência diante dele. Eu perguntei: "O que eu diria se estivesse em seu lugar?" E minha resposta foi muito simples. Eu teria tentado chamar um pouco de atenção para mim. Teria dito: "Eu tenho fome, estou morrendo, estou com frio, estou com dor", ou algo assim. Mas ele me deu muito mais -- ele me deu o seu amor agradecido. E morreu com um sorriso no rosto.

Washington é uma cidade dominada pelo debate político, e esse Café da Manhã é um evento apartidário. Os palestrantes sempre evitaram assuntos controversos e os ouvintes sempre fingiram que eram imparciais. Naquela manhã tudo começou da maneira habitual. Os organizadores deram boas-vindas às centenas de participantes que incluíam diplomatas de mais de 100 países diferentes. Foram anunciados os membros da mesa principal, com sua distinta lista de convidados encabeçada pelo Presidente Clinton e pelo vice-presidente Gore. Mas, com suas pertinentes observações, Madre Teresa abalou a audiência, fazendo um desafio direto aos detentores do poder em Washington.

Ela disse: Havia um homem que nós apanhamos da sarjeta, meio comido pelos vermes. E depois que nós o trouxemos para casa, ele só disse, "Eu tenho vivido como um animal na rua, mas eu vou morrer como um anjo, amado e cuidado." Então, depois que removemos todos os vermes do corpo dele, tudo o que disse -- com um grande sorriso -- foi: "Irmã, eu vou para casa para Deus." E morreu. Era tão maravilhoso ver a grandeza daquele homem, que podia falar assim sem culpar ninguém, sem comparar nada. Como um anjo -- esta é a grandeza das pessoas que são espiritualmente ricas, até mesmo quando elas são materialmente pobres.

A partir desta Semana da Pátria, vamos ver como o desafio de Madre Teresa tem muito a ver com nossa reflexão sobre a necessidade de um plebiscito sobre a Alca. Segundo a reportagem do Jornal do Brasil citada, a organização da consulta envolveu nas últimas semanas cerca de 30 mil voluntários, nos 27 Estados do país. A expectativa dos organizadores é que ao longo desta semana participem ao todo 200 mil pessoas. Já foram produzidos 4 milhões de jornais, 350 mil cartilhas, 10 mil fitas de vídeo, 15 mil livros, 50 mil cartazes e 1.500 CDs. Poderá votar no plebiscito qualquer pessoa com mais de 16 anos que apresente um documento de identidade.

A cédula para o plebiscito consta de três perguntas: duas sobre a Alca e uma sobre a Base de Alcântara, no Maranhão, que o governo brasileiro está cedendo para os EUA.

Ela disse: Não somos assistentes sociais. Podemos estar fazendo trabalho social aos olhos de algumas pessoas, mas contemplamos o mundo. Temos que trazer a presença de Deus para dentro da família, porque a família que ora unida, fica unida. Há tanto ódio, tanta miséria, e nós com nossa oração, com nosso sacrifício, começamos pela casa. O amor começa em casa, e não importa o quanto fazemos, mas quanto amor colocamos naquilo que fazemos.

O primeiro mérito de um plebiscito consiste em convocar para o debate aqueles que mais sofrem com a injustiça, a desigualdade e a exclusão, o povo sem voz de nosso país. O plebiscito se apresenta como um contraponto ao marketing eleitoral, quando candidatos dizem apenas o que agrada aos eleitores.

Ela disse: Se contemplarmos o mundo, com seus problemas, estes problemas não podem nos desencorajar. Devemos sempre nos lembrar do que Deus diz nas Escrituras: Até mesmo se a mãe pudesse esquecer da criança em seu útero -- algo que é impossível, mas se até ela pudesse esquecer -- eu nunca o esquecerei. E aqui estou falando com vocês. Quero que vocês achem os pobres aqui, em sua própria casa primeiro. Comecem o amor aqui. Levem a boa notícia ao seu povo primeiro. E descubram seus vizinhos de porta. Vocês sabem quem são eles?

O resultado de um plebiscito não oficial pode se constituir numa referência importante. O presidente que for eleito e que quer contar com o apoio do povo, não ficará indiferente e, logicamente, não vai menosprezar uma iniciativa como esta.

Ela disse: Eu tive a experiência mais extraordinária de amor com uma vizinha de uma família hindu. Um cavalheiro veio à nossa casa e disse, "Madre Teresa, há uma família que não tem comido por muito tempo. Faça algo." Então peguei um pouco de arroz e fui lá imediatamente. E vi as crianças, os seus olhos brilhando com fome. (Eu não sei se vocês alguma vez viram fome, mas eu tenho visto muito freqüentemente). E a mãe da família pegou o arroz que eu lhe dei, e saiu. Quando ela voltou, eu lhe perguntei, "Onde você foi? O que você fez?" E ela me deu uma resposta muito simples: "Eles também têm fome." O que me abalou era que ela sabia. E quem eram eles? Uma família muçulmana. E ela sabia. Eu não trouxe mais nenhum arroz naquela noite, porque eu quis que eles -- hindus e muçulmanos -- desfrutassem a alegria de compartilhar.

O plebiscito fortalece a cidadania, desperta para a percepção de problemas que afetam o país. Traz para o debate questões que não deveriam ficar restritas ao âmbito de comissões técnicas, desprovidas de mandato popular, e sujeitas às pressões de interesses corporativos. O que interessa ao país precisa ser debatido pelos cidadãos. Assim o governo terá melhores condições para negociar em nome da nação.

Ela disse: Mas havia essas crianças irradiando alegria, compartilhando a alegria e paz com a sua mãe porque ela teve amor para dar até que doesse. E vocês vêem que é aí que o amor começa: em casa, na família. Deus nunca se esquecerá de nós, e há algo que você e eu sempre podemos fazer. Nós podemos manter a alegria de amar Jesus em nossos corações, e compartilhar esta alegria com todos com que entrarmos em contato. Que façamos questão de que nenhuma criança seja indesejada, não amada, não cuidada, ou morta e jogada fora. E que demos até que doa -- com um sorriso.

O plebiscito costura coesão nacional. Mas o plebiscito sobre a Alca não se opõe ao Mercosul, nem a uma integração maior dos países da América. Ao contrário, abre a discussão sobre identidades nacionais, valores culturais e participação dos benefícios da economia, resultantes de avanços tecnológicos, aportes do capital financeiro e contribuição dos trabalhadores.

Ela disse: Porque falo tanto de dar com um sorriso, uma vez um professor dos Estados Unidos me perguntou, "Você é casada?" E eu disse, "Sim, e eu às vezes acho muito difícil sorrir a meu cônjuge -- Jesus -- porque ele pode ser muito exigente". Às vezes, isto realmente é verdadeiro. E é aí que o amor entra, quando é sacrificado, e ainda assim podemos dar com alegria.

O plebiscito aponta também para uma questão de fundo: a soberania dos países latino-americanos. É tempo de pensar a democracia e de ouvir a voz de milhões de brasileiros. É tempo de plebiscito.

Ela disse: Se nos lembrarmos de que Deus nos ama, e de que podemos amar aos outros como ele nos ama, então a América pode se tornar um sinal de paz para o mundo. Um sinal de cuidado para com o mais fraco dos fracos - a criança por nascer - tem que partir para o mundo. Se vocês se tornarem uma luz ardente de justiça e paz no mundo, então realmente serão fiéis ao que os fundadores deste país defendiam. Deus os abençoe!

[Fontes: Plebiscito e Democracia, Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales, São Paulo.É membro da plenária nacional da campanha sobre a ALCA. In ADITAL, 29 de agosto de 2002. E Mother Teresa's 1994 Address to the National Prayer Breakfast].





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