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Rufam os tambores da guerra
Com justiça e com honestidade ele governará o seu povo...

Quando se discute na mídia estadunidense o ataque ao Iraque e a derrubada de Saddam Hussein, se fala pouco de petróleo e muito de ditadura e democracia. Assim, para milhões de americanos, a preocupação do presidente George Bush ao combater Hussein é salvar o mundo das armas potenciais de destruição de massa que ele pode ter. Mas há outra questão que está ligada a esta: os efeitos que se seguiriam à abertura das reservas de petróleo do país.

Ou seja, guerra e petróleo estão de mãos dadas quando se fala do Iraque de Saddam Hussein. Mas essa questão leva à discussão da globalização e da relação entre identidade nacional e mercado global. A questão da identidade é uma antiga questão teológica, construída pela teologia moderna, que defende os direitos de autonomia e pessoalidade da imago Dei.

Por isso, Gianni Vattimo, um expressivo teólogo posmoderno italiano, pensa as contradições existentes entre as nações do mundo globalizado. O presidente Bush, afirma Vattimo, sustenta que a globalização ajuda o pobre do mundo, mas os pobres do mundo não estão convencidos disso.
Assim, as nações menos desenvolvidas não estão lá muito entusiasmadas com as posições defendidas por Bush. E o que significa tudo isso? Que o comércio mundial deveria trazer benefícios e vantagens para todo o mundo, e isto, segundo o teólogo italiano, já aconteceu ao capitalismo ocidental, quando expandiu fronteiras, alcançou produção maior, elevou salários. Mas não acontece agora.

Quando olhamos a questão do petróleo vemos que as reservas do Iraque são a segunda maior do mundo, depois da Arábia Saudita. No momento, por causa das sanções da ONU, o Iraque está produzindo apenas uma fração de seu potencial. Se começar a extrair petróleo a uma taxa condizente com suas reservas atuais, segundo estrategistas em geopolítica, acabaria com o domínio de Arábia Saudita nos mercados mundiais de petróleo.

Por outro lado, os Estados Unidos são o maior consumidor de petróleo do mundo, queimando um quarto do total consumido. Suas importações subiram nos últimos anos, representando hoje mais da metade do seu consumo total.

Mas, cuidado, em tirar conclusões apressadas. Não se esqueça que a Arábia Saudita é o principal provedor dessas importações. E por isso os governos americanos têm todo o cuidado em cultivar uma política de bom relacionamento com o xeque Saud e sua família, apesar de governarem ditatorialmente a Arábia Saudita. Atualmente, o governo americano tolera o comando de Arábia Saudita na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), que mantém o preço do petróleo muito mais alto do que, se acredita, deveria estar se as leis de mercado prevalecessem. Agora, o governo Bush sente que para ter segurança no futuro os Estados Unidos devem abrir o mercado, ao invés de depender apenas do gigante saudita.

Identidade e globalização

E para diminuir a força saudita, Bush apóia a meta do presidente Vladimir Putin de ampliar a indústria petroleira de Rússia e aumentar as exportações. Mas isso não basta. Por isso, o confronto com o Iraque parece inevitável. E os rumores de guerra dominaram a reunião dos ministros da OPEP que começou no dia 19 de setembro em Osaka, no Japão.

O rufar dos tambores da guerra é uma boa notícia no curto prazo para a OPEP e os sauditas, mas péssima notícia no longo prazo. Falar de guerra no Oriente Médio sempre aquece o preço de óleo, transmitindo aos produtores um bafejar de boa sorte. Se os Estados Unidos tiverem sucesso e derrubarem Saddam Hussein, o mundo poderá ser inundado pelo petróleo iraquiano. Parece simples e bom, mas é tema dos mais delicados.

Com os rumores da guerra, de que aviões americanos e britânicos podem bombardear o Iraque, os preços ameaçam subir a patamares acima dos que chegaram no ano passado, quando o intermediário da Texas Ocidental, ponto de referência para o petróleo cru americano, atingiu 30 dólares o barril.

Assim, conforme a possibilidade da guerra aumenta, a possibilidade do aumento do preço do petróleo também cresce. Segundo Phillip Ellis do Grupo Consultor Boston, que tem analisado a história dos choques nos preços do petróleo, há dois fatores que devem ser levados em conta: a curva de paz, que mantém o preço em torno de 22 a 24 dólares; e a curva da guerra, que pode elevar o preço do petróleo a 50 dólares o barril. E por que a Europa não faz algo, não se levanta como oposição à possibilidade da guerra?

Para Vattimo, estamos diante de um desenvolvimento fundado na competição entre sistemas de valores diferentes. Não só é uma questão de competição econômica. No que se refere à globalização, por exemplo, as indústrias européias funcionam em regime semelhante ao americano. A globalização é uma tentação para a economia européia, que deseja ser mais competitiva e livre, embora saibamos que isso não significa necessariamente mais desenvolvimento e melhora de condições sociais.

Partindo da questão econômica, Vattimo chega à questão cultural, relacionando os dois temas com a teológica. Para ele, a nível internacional existe a necessidade de regras antimonopólio.
"As pessoas preferem assistir filmes americanos e também é verdade que esta produção é atraente.

Mas deveríamos resistir! Deveríamos considerar a competição entre culturas não só como uma pergunta espiritual, mas também como abertura de horizontes, como porta de entrada para um mundo diferente, como aconteceu no passado. Dizemos que os romanos conquistaram os gregos, mas na realidade os gregos conquistaram os romanos. Devemos pensar neste exemplo porque, em nosso mundo, a velocidade da comunicação insinua um tipo de monopólio natural que não existiu no tempo dos gregos e romanos. Por exemplo, o grego não tinha condições de ser o idioma do primeiro império romano, e isto permitiu que o idioma local fosse desenvolvido. Hoje, se todos falassem o inglês não sei o que aconteceria. Pode-se pensar que esta possa ser uma preocupação excessiva. Não sou defensor da idéia de identidade. Penso em identidade na família e na igreja. A multiplicidade das culturas é garantia de sobrevivência: a medicina chinesa, por exemplo, não existiria se todos praticassem a medicina ocidental".

Assim, Vattimo vê a globalização da cultura como um tipo de movimento liberal, com possibilidade de ir além dos limites regionais. "Mas, não quero perder a capacidade para falar piemontês.
Quando eu me encontro com Umberto Eco, em Nova Iorque, nos dedicamos a fazer piadas em dialeto.
Não é simples achar uma posição de equilíbrio entre uma posição local, não excessivamente nacionalista e uma posição filonorteamericana".

O teólogo explica que a Europa e os países europeus dependem dos Estados Unidos, já que o sistema de defesa europeu está nas mãos de pessoas que freqüentaram as universidades americanas. E faz um pergunta desagradável: Como é possível a escolha democrática se a mídia está nas mãos do capital? Para Vattimo, a situação não é simples e é por isto que a esquerda acaba por aliar-se com o movimento antiglobalização, porque esta parece ser a saída viável, embora seja uma força confusa.

O que chama a atenção na exposição de Vattimo é sua tentativa de equilibrar diversidade cultural e mundialização. Defende uma teologia da identidade no nível da família e da igreja, mas propõe um sincretismo de culturas que não negue a globalização.

Será possível globalizar o Iraque a partir de uma ofensiva militar? O xeque Zaki Yamani, ministro do petróleo da Arábia Saudita nos anos setenta, afirma que se os Estados Unidos invadirem o Iraque, Hussein pode atacar a Arábia Saudita e o Kuwait e, como conseqüência, o preço do barril de petróleo pode chegar a 100 dólares. Yamani não está delirando, afinal semanas atrás, o vice-presidente do Iraque, Taha Yassin Ramadan, faz um chamado aos árabes para, em caso de guerra, golpearem os objetivos americanos no Oriente Médio.

Preços altos são um pesadelo para consumidores. E para nós brasileiros, também, porque inviabiliza qualquer política de desenvolvimento. E é aí onde as complicações começam. A guerra do petróleo é um freio para o desenvolvimento: tanto no terceiro mundo, quanto na Europa, ou no Japão.

Alguns economistas já estão preocupados com o que um novo choque do petróleo poderá produzir no mundo globalizado. Como a própria OPEP reconhece, períodos prolongados de preços altos podem matar a galinha dos ovos de ouro.

Pesadelo versus esperança?

Se um regime de oposição a Saddam ocupar o Iraque, levar à democratização do país e fomentar a modernização da exploração e produção do petróleo iraquiano, a estratégia da Arábia Saudita de manter os preços de OPEP entre 22 e 28 dólares o barril estará sob ameaça. Se a inundação do petróleo iraquiano se firmar enquanto continuidade, os sauditas perderão força na OPEP.

Assim, derrubando Hussein, o governo Bush mataria dois pássaros com uma pedrada só: eliminaria um opositor e golpearia o cartel que durante anos manipulou preços e exerce pressão sobre os consumidores americanos.
Mas uma mudança de regime do tipo que Bush tem em mente para o Iraque reescreverá as regras atuais do jogo do petróleo. O novo regime não se fará estável, segundo os especialistas em geopolítica, em menos de cinco anos, isso se houver trabalho duro, participação da experiência e do dinheiro ocidental, já que o objetivo seria transformar a indústria petroleira iraquiana em força expressiva no mercado mundial. Se funcionar, tal política possibilitará um aumento volumoso, rápido de produção fazendo cair preços, deslocando os outros produtores do Golfo e tornando a OPEP impotente.

Mas a globalização não é um processo homogêneo. O rufar dos tambores pode ser o anúncio da tragédia. Como, então, equilibrar identidade nacional e mundialização, como favorecer uma política mundial antimonopólica e manter a globalização? São perguntas, que a teologia política faz. Vattimo não é nada otimista frente às perspectivas.

Considera que "forçar os Estados Unidos a serem mais democráticos no processo de globalização significa levar a cabo uma política antinorteamericana. E os europeus não são suficientemente fortes para obter sucesso numa empreitada desse tipo. Assim, antiglobalização e antinorteamericanismo acabam por ser idéias correlatas".

É necessário, porém, fazer a crítica do pensamento posmoderno do teólogo italiano. E para isso, recorro a Pierre Bourdieu, já falecido, e um dos maiores pensadores franceses do final do século 20. Segundo Bourdieu, as conquistas da liberdade estão ameaçadas em toda parte, e não somente por coronéis, ditadores e máfias, mas por forças mais insidiosas e viciosas, as do mercado, agora transfiguradas, reencarnadas em figuras capazes de seduzir uns e outros, como a figura do economista armado de formalismo matemático, que descreve a evolução da economia 'mundializada' como um destino".

Bourdieu critica também o "radicalismo de campus, batizado como posmoderno, e perfeito para seduzir pela celebração falsamente revolucionária da mestiçagem de culturas". Para o sociólogo francês, se existe um domínio em que é realidade a mundialização, que todos os intelectuais integrados enchem a boca ao mencionar, é o da produção cultural de massa e o 'pensamento social' para jornais e revistas, com temas ou expressões de circulação planetária como 'posmodernismo ou globalização'.

Assim, diante do rufar dos tambores, das justificativas geopolíticas e econômicas da guerra, é preciso construir a globalização da paz, que se coloca contra todas as formas de terrorismo -- de grupos, estados e do poder econômico --, e que levanta as bandeiras de Gandhi e Luther King.

... Lobos e ovelhas viverão em paz, leopardos e cabritinhos descansarão juntos. Bezerros e leões comerão uns com os outros, e crianças pequenas os guiarão. Isaías 11.5-6.

Fontes
Gianni Vattimo, Charles Taylor, Richard Rorty, Diálogo sobre a globalização, revista argentina on line Punto de Vista: BazerAmericano.com [agosto/setembro 2002]. Don't mention the O-word, The Economist, 12/9/2002.

Sugestões de leitura
Gianni Vattimo, Acreditar em acreditar, São Paulo, Relógio d'Água, 1998. Pierre Bourdieu, Contrafogo, táticas para enfrentar a invasão neoliberal, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1998.





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