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São Paulo, 28 de Março de 2002
O último missionário
Autor:
Carlos
R. Caldas Filho,
Editora: Mundo Cristão (São Paulo)
Páginas: 178
p. Ano: 2001

Existem poucos ensaios em português que avaliem a contribuição
das missões estrangeiras no Brasil. O último missionário
é uma obra que vem tentar preencher esta lacuna. Escrito por Carlos
Caldas, ministro da Igreja Presbiteriana do Brasil, doutor em ciências
da religião pela Universidade Metodista de São Paulo, atualmente
é professor no Centro Presbiteriano de Pós-Graduação
Andrew Jumper, em São Paulo, onde leciona disciplinas nas áreas
de Teologia e Ciências Humanas e Teologia Histórica. Também
é professor visitante do Centro Evangélico de Missão
(CEM), em Viçosa (MG) e da Faculdade Teológica Sul-Americana
de Londrina (PR).
Nos últimos
30 anos, houve um dramático decréscimo no número
de missionários estrangeiros (notadamente norte-americanos) servindo
no Brasil. As principais agências missionárias que trabalhavam
no Brasil estão retirando a maior parte de seus efetivos servindo
nestas plagas. Partindo desta constatação, O último
missionário busca responder a seguinte pergunta: o Brasil ainda
precisa de missionários estrangeiros? Como a igreja evangélica
brasileira e sua liderança devem reagir diante desta questão?
Este é um tema candente, que já tem gerado intensa polêmica,
algumas vezes carente de sobriedade e, até mesmo, respeito.
O autor divide sua
obra em seis capítulos. O primeiro capítulo oferece uma
sucinta, mas completa, abordagem histórica da vinda dos missionários
estrangeiros ao Brasil e da implantação das primeiras igrejas
evangélicas. O autor discorre sobre as primeiras experiências
missionárias, de franceses e holandeses reformados, que vieram
para o Brasil nos séculos XVI e XVII e as primeiras missões
entre os imigrantes ingleses (anglicanos) e alemães (luteranos)
em começos do século XIX. Depois é enfocada a implantação
das grandes denominações evangélicas no Brasil (assembléias
de Deus, batistas, congregacionais, metodistas e presbiterianas).
O segundo capítulo
discute a teologia que os motivou a implantar um trabalho missionário
neste país. Este capítulo é divido em duas partes.
Na primeira, o autor oferece um breve retrospecto da teologia da primeira
onda de missionários americanos: calvinista/reformada (por causa
da influência puritana) e pietista (por causa da influência
metodista), moldada pelo primeiro grande despertamento do século
XVIII. Já a segunda onda seria mais influenciada pela teologia
fundamentalista, de matriz pré-milenista dispensacional. De forma
perspicaz, na contramão das muitas imprecisões escritas
atualmente sobre o fundamentalismo cristão, o autor distingue o
fundamentalismo original, teologicamente orientado contra o liberalismo
teológico, do fundamentalismo sectário, avesso ao academicismo
e às ciências, que se originou nos idos da década
de 30 nos Estados Unidos - este sim, vindo na bagagem da segunda geração
de missionários. Ele também aborda brevemente a teologia
pentecostal, que também chegou do exterior.
Uma área que
pode servir para uma futura pesquisa seria a entrada e influência
no Brasil dos vários sistemas teológicos europeus, notadamente
de Karl Barth, Dietrich Bonhoeffer, Rudolf Bultmann e Paul Tillich, trazida
por uma terceira geração de missionários estrangeiros,
a partir do fim da década de 1950.
O terceiro capítulo
descreve o perfil que a igreja evangélica herdou de seus iniciadores.
Ela seria conservadora e fundamentalista, com um conceito de missão
reducionista, um direcionamento político direitista, socialmente
alienada (em grande parte por sua escatologia dispensacional) e com uma
identidade cultural refratária. No entendimento de Carlos Caldas,
este perfil, que comporta exceções, em linhas gerais é
oriundo da teologia trazida pela segunda onda de missionários estrangeiros,
que trabalharam no século XX ou que ainda estão no Brasil.
Em sua opinião, por esta razão, criou-se dentro do conjunto
maior da sociedade brasileira uma subcultura evangélica. Suas críticas
são bem fundamentadas e realizadas com respeito, mas firmeza.
Já o capítulo
quatro aborda a atuação da força missionária
evangélica estrangeira no Brasil e o processo de nacionalização
nas principais denominações evangélicas no Brasil,
principalmente na Convenção Batista Brasileira e na Igreja
Presbiteriana do Brasil. Este é um dos melhores e mais valiosos
capítulos desta obra. Suas reflexões se encerram com um
enfoque sobre a produção teológica brasileira, tão
carente de uma teologia evangélica e bíblica, mas autóctone.
O futuro dos missionários
estrangeiros é tratado no capítulo cinco. Em seu entendimento,
ainda há espaço para missionários estrangeiros atuarem
no Brasil. Principalmente nas áreas de educação teológica
(onde ele paga tributo às contribuições de Russell
Shedd, Frans Leonard Schalkwijk e Joyce Clayton), treinamento missionário,
estatística, ministérios de ação e serviço
social e tradução da Bíblia. Como um critério
para o envio de missionários para o Brasil, o autor levanta as
seguintes perguntas:
Antes (...) de tomar
a decisão definitiva de enviar obreiros para o Brasil, as juntas
estrangeiras, denominacionais ou não, devem considerar várias
questões, muitas das quais são bastante sérias:
1. Por que mandar
missionários para o Brasil?
2. As tarefas que os missionários pretendem desenvolver no país
já são realizadas por brasileiros, ou dependem exclusivamente
de força missionária estrangeira?
3. A atividade missionária a ser desenvolvida é mais útil
no Brasil ou haveria outros lugares onde ela seria mais relevante e necessária?
4. Para essa atividade no Brasil, vale a pena o investimento financeiro
necessário ou ele poderia ser melhor empregado de outra forma?
(p. 88)
Ele pondera, dizendo:
Quando se concebe
a missão da igreja em termos mundiais (como deve ser), quando há
maturidade emocional, há espaço para estrangeiros e nacionais
trabalharem. Lado a lado. Sem quaisquer rancores, acusações
mútuas ou mágoas. Para a glória de Deus, que amou
o mundo a ponto de dar seu Filho unigênito, a fim de conceder vida
eterna a quem nele crê. O futuro da igreja evangélica brasileira
parece apontar cada vez mais para esta saudável direção
(p. 89).
No sexto capítulo
é abordada a atuação dos missionários brasileiros
no exterior, dentro de uma visão global do movimento missionário.
O autor também aponta para alguns dos desafios da missão
em tempo de globalização: o sustento financeiro à
obra missionária, a utilização de recursos da mídia
e o aproveitamento dos grandes blocos econômicos para o exercício
da missão. Neste capítulo, o autor também debate
a distribuição e preparo da força missionária
brasileira.
Seu equilíbrio
e moderação podem ser evidenciados em sua conclusão:
O que o novo tempo
trará para os missionários estrangeiros em atuação
no Brasil? Terá chegado o tempo de o último missionário
em campo no Brasil voltar imediatamente para sua nação de
origem? O que este novo tempo trará para aqueles que, ainda em
suas terras, sonham em um dia missionar na grande nação
latino-americana? (...) Nenhum de nós sabe que novidades, possibilidades,
riscos ou desafios nos aguardam nesta aurora de um novo tempo que temos
o privilégio de viver. O que realmente importa é que, todos,
brasileiros e estrangeiros, saibamos servir à nossa geração
(cf. At 13.36). Com fé no Deus Eterno, caminhando como quem vê
o invisível. Com esperança que logo virá o novo céu
e a nova terra, onde habita a justiça. E acima de tudo, com amor.
A Deus, acima e antes de tudo. Ao próximo, seja este brasileiro
ou estrangeiro. Amor que se traduz em compromisso com a missão,
levada a cabo com zelo, dedicação e galhardia (p. 106).
Além de várias
tabelas e gráficos, o livro se encerra com três apêndices,
abordando as opiniões de missionários estrangeiros no Brasil
sobre o futuro de suas missões no país (de forma estranha,
Russell Shedd é mencionado, mas sua entrevista não aparece;
os outros entrevistados são Frans Leonard Schalkwijk, André
Buxton, Harry e Betty Bacon, Barbara Burns, Claire Siddaway e Bertil Ekström),
opiniões de líderes evangélicos brasileiros sobre
o futuro dos missionários estrangeiros no Brasil (os entrevistados
são Robinson Cavalcanti [episcopal], Marcos Inhauser [menonita],
Franklin Ferreira [batista] e Alderi Matos [presbiteriano]) e um panorama
sobre a atuação das agências e juntas missionárias
brasileiras no Brasil e no exterior.
Duas perspectivas
principais têm dominado o debate sobre a presença de missionários
estrangeiros no Brasil: por um lado, uma relação de extrema
dependência com o trabalho missionário estrangeiro que muitas
vezes estimulou esta relação paternalista. Por outro lado,
esta relação é dominada por histerismo, que tenta
ver, contra as evidências, teorias da conspiração
e hegemonia engendradas pelas missões estrangeiras. Este livro
é fortemente recomendado a todos que não se satisfazem com
estas abordagens preconceituosas e maniqueístas.
Resenha por Franklin Ferreira Doutorando em Teologia no Programa
de Pós-Graduação do STBSB
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