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São Paulo, 05 de maio de 2000 O Ofício do Filósofo Estóico Autor: Rachel Gazolla Editora: Loyola (São Paulo) Páginas: 221 www.loyola.com.br Como nos lembra, logo de início, Rachel Gazolla, certas filosofias percorrem caminhos inusitados, algumas são sempre lembradas, outras esquecidas e às vezes voltam a ser lembradas. O estoicismo é uma filosofia que veio para ficar, modificando conceitos e adaptando-se a outros. Usamos termos na linguagem coloquial e nem sempre conhecemos sua origem ou significação e recusamos aceitar o que não entendemos. Por isto, precisamos saber de onde se fala quando lemos textos da filosofia grega. Lembremo-nos que a filosofia cristã, através dos séculos, teve que interpretar a filosofia grega. Temos que contextualizar os filósofos gregos na sua devida época e na dimensão e limitação de sua cultura. Não podemos nos esquecer de que a Grécia é o caminho obrigatório que todos devemos percorrer, para aprender a origem de todas as ciências, as artes e as filosofias. A antiga Grécia tinha a lei (nomos) como uma dádiva da divina Moira, de quem cada mortal recebia um quinhão, desde seu nascimento. A natureza (physis) estava arraigada na alma do povo grego. O dualismo nomos-physis formava uma unidade à época do nascimento da filosofia. A sacralidade da physis e a excelência real (aretê), na força de ser, de agir, de dizer, sua "virtuosidade" são derivados da mentalidade grega antiga. Assim, ser virtuoso, para os gregos, é cumprir as determinações da physis e, em seguida, as dos deuses. A apresentação da questão lei-natureza na Grécia antiga e clássica nos ajuda a compreender a visão estóica a respeito deste dualismo conceitual, até hoje vívido. Após as conquistas alexandrinas e a divisão de seu inacabado império entre os diádocos (herdeiros), a Hélade desenvolveu atividades reflexivas que tiveram continuidade pelos discípulos da Academia (de Academos) e do Liceu (de Lykos) e por duas novas escolas: o epicurismo e o estoicismo. O estoicismo antigo apresenta uma resposta possível ao homem de sua época, dada a universalidade da problemática helenística e a riqueza reflexiva da escola. Em vez da renovação ou do reajuste dos valores estruturais das cidades da Grécia clássica, a Stoa quer legitimar a autarquia - ou autonomia? - como princípio da ação, integrando-a na nova concepção do cosmo. A teoria da cidadania se modifica em função de uma reflexão ímpar sobre o modo de ser do cosmo e do homem. A ordem do todo deve expressar, para um estóico, a união homem-natureza-cidade. Essa é a tônica do Pórtico, e será Zenão, um cipriota de Cicio, quem lançará as bases dessa doutrina. As relações entre os homens não se consubstanciam "só" no sentido ético, e não há uma linha divisória clara entre o ético e o político, por mais que tentemos afastar esses dois campos. Os gregos sabiam bem a respeito disso, especificamente, os estóicos. Há um estrutura dual clara na PoIitéia: de um lado, o cidadão perfeito, na e da cidade perfeita, que segue a ordem perfeita da natureza; de outro, seu contrário, o phaulos, pleno de males, um anti-cidadão. O trabalho do educador estóico será incessante e atento. Seu instrumento de trabalho será a dialética. Ele deve aprender a manejá-la com a intimidade dos que com ela privam, ininterruptamente. O filósofo estóico é o técnico que sabe utilizar as teses doutrinárias na constante ascese a que se propõe. As noções comuns não fundamentam todas as ações; a idéia de Bem, dos deuses e da providência chega aos homens sem o mérito da escolha, uma vez que se impõe nelas mesmas (katá physin), sem necessidade dos esforço do julgar. Todos os homens têm as noções comuns; todos têm a base para o desenvolvimento da escolha meritosa, por princípio. A escolha moral é sempre argumentável, é sempre um esforço. O critério para o bem escolher é o compasso harmonioso entre ser, conhecer e agir, evidência da homologia que permeia toda a convicção doutrinária. A virtude estóica, ou excelência, não está em atingir o fim, mas em exercitar-se para isso. As virtudes estóicas mais gerais são três: a virtude física, a ética, a lógica.(...) Só há uma arte preferida, uma arte suprema, é o exercício da virtude. A temporalidade, como se sabe, não é cronológica nesta reflexão, mas a do instante, uma não-temporalidade afinal, em consonância com o cosmo, permanentemente presentificada. A paixão é um movimento a-lógico da alma humana, contrário à natureza (pará physin); uma tendência excessiva, desmesurada (hormé pleonazousa). As duas temporalidades - a dos deuses e a dos homens - enfrentam-se:
Não é sem razão, portanto, que entre a aparência de um estóico e sua interioridade não deve haver mediação. É preciso reconhecer um estóico quando ele caminha pela rua em silêncio, ou fala diante de um público. E esse o único sinal que indica a presença da atemporalidade dessa natureza humana e seu possível estado de sabedoria, ao menos o estado. E estar em estado de sabedoria é estar no bom uso do instante. O estóico exercita-se na e para a eukairia, o momento oportuno. É esse o meio de enfrentar a exterioridade totalmente assumida pelo herói trágico no final de seu embate, e amortizada pelo "herói" estóico dados os limites aceitos quanto à possibilidade de erro nos julgamentos.
Resenha por Roberto Alves Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Teologia do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil (Rio de Janeiro)
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