Título: E Agora Como Viveremos?
Autores: Charles Colson e Nancy Pearcey
Editora: CPAD, 2.000
Páginas: 647
O livro E agora como viveremos?, escrito por Charles Colson e Nancy Pearcey, revela-se de uma leitura fácil, apesar de seu tamanho aparentemente assustador. Afinal são 647 páginas para serem lidas de uma vez, já que não se trata de um compêndio a ser consultado de forma aleatória ou eventual. Sua unidade e sentido somente poderão ser percebidos através de toda a sua leitura.
Tal leitura poderia exigir um pouco menos de esforço, caso os autores não repetissem tão demasiadamente diversos conceitos e utilizassem tantas e grandes ilustrações, o que por um lado, parece facilitar a leitura, por seu aspecto didático, por outro torna-se muitas vezes cansativa.
A proposta de Charles e Nancy, a partir do próprio título, é tratar de questões contemporâneas, através da abordagem de temas que se encontram presentes atualmente em toda a mídia globalizada, apesar de muitos deles já serem por demais antigos.
Vivemos em uma sociedade materialista e utilitarista, onde os valores mais presentes são de caráter individuais e relativos, na qual a ciência pretensiosamente presume ser capaz de dar a última palavra a respeito de toda a sorte de circunstâncias da existência humana, reduzindo os conceitos absolutos das religiões a práticas esotéricas. Diante disto, somos convidados pelos autores a perceber criticamente em cada uma das afirmações desta sociedade a sua própria cosmovisão, ou seja quais os pressupostos sobre os quais estão firmados estes conceitos, ou ainda o que a sociedade, ou aqueles que forjam os seus pensamentos, deseja que pensemos.
Em contraponto às diversas cosmovisões atuais, os autores argumentam solidamente a partir dos seguintes conceitos bíblicos:
- CRIAÇÃO -- De onde viemos, e quem somos nós?
- QUEDA -- O que aconteceu de errado com o mundo?
- REDENÇÃO -- O que podemos fazer para consertar isso?
Inquestionavelmente, é louvável o esforço dos autores, principalmente no que diz respeito à crítica à teoria da evolução de Charles Darwin, não limitando tal discussão à questão metafísica quanto ao conceito criacionista bíblico, mas principalmente por serem capazes de apontar dentro das perspectivas da própria ciência as contradições da teoria da evolução, conforme proposta atualmente, e seus pressupostos que se supõem científicos, porém revelando-se na verdade religiosos, na medida em que exigem uma crença primordial em seus fundamentos.
O melhor de tudo isso é a abordagem deste tema numa linguagem fácil. Nisto reside uma das virtudes da proposta dos autores, de proporcionar aos seus leitores cristãos a possibilidade de não apenas compreender a importância de questões como esta, como também elaborar as respostas adequadas aos princípios da fé cristã bíblica.
A partir de alguns exemplos, reais ou fictícios, de personagens senão reais, pelo menos plausíveis, Colson e sua colaboradora mostram a possibilidade de cristãos comprometidos com o Evangelho de testemunhar ousadamente a respeito de sua fé, e com isso influenciarem concretamente o meio em que vivem.
Exatamente neste aspecto, apesar de compreender a saudável intenção dos autores ao incentivar os cristãos a viverem uma vida de testemunho verdadeiro, não é possível deixar de perceber que as personagens apresentadas são reveladas como grandes heróis que, vivendo em circunstâncias adversas, esforçam-se e vencem com o seu testemunho.
Obviamente que, de alguma forma, todos aqueles que hoje, como em todos os tempos, conseguem manter-se firmes em seu testemunho de fé podem e devem ser considerados heróis, ainda que somente para as suas igrejas, suas famílias, ou no mínimo para si mesmos.
Entretanto, vale lembrar que o grande desafio em termos de testemunho não é o de propriamente se tornar um super-herói da fé, levando uma vida de significado tão relevante capaz de deixar marcas visíveis para muitos. Devemos reconhecer que isso é tarefa para gigantes e que, apesar de alguns deles existirem, muitos caem. É necessário reconhecer que o grande desafio para a grande maioria, para a quase totalidade dos cristãos, que povoam as nossas igrejas é a de serem pessoas comuns, e dentro do seu contexto de vida comum, serem capazes de dar o seu singelo testemunho, talvez não muito poderoso, mas coerente e verdadeiro.
Neste aspecto, os autores deveriam considerar melhor a importância da interação do indivíduo com o seu grupo, a sua comunidade, principalmente a igreja local, como instrumento de transformação da sociedade. Afinal, não podemos desconsiderar o poder de influência das instituições sobre as pessoas, e simplesmente alimentar a esperança de que, por uma ação heróica de um indivíduo, toda uma sociedade seja transformada.
Charles Colson e Nancy Pearcey possuem um currículo invejável, que os tornou pessoas de grande prestígio, estando presentes na moderna mídia eletrônica de todas as formas. Basta falar apenas de dois ministérios a que se dedicam para perceber a importância de seu trabalho: a revista Christianity Today e o ministério internacional Prision Fellowship, que atua com encarcerados.
Obviamente, precisamos levar em consideração a influência da cultura norte-americana sobre os autores, para perceber que, apesar de toda a crítica que são capazes de elaborar a respeito da sociedade onde vivem, acabam por apresentá-la como o centro do mundo, o supra-sumo da excelência democrática e do desenvolvimento, sob todos os aspectos.
Exemplo desta sua cosmovisão é o capítulo 45, quando narram a respeito da emocionante história de Kim Phuc, a jovem vietnamita que foi celebrizada pela foto na estrada fugindo de um bombardeio de napalm, ao se encontrar já adulta em solo norte-americano com diversos ex-combatentes do Vietnam, inclusive o piloto do avião que despejara o terrível veneno sobre ela. Neste ponto, os autores não se mostram capazes de enxergar o mundo além da perspectiva norte-americana. Todo o foco deste terrível episódio da história mundial é enxergado apenas em suas conseqüências para os EUA; afinal o outro país, o Vietnam, pobre e de Terceiro Mundo, foi apenas coadjuvante nesta história... De toda maneira, não devemos criticá-los muito por esta postura, afinal de contas eles estão on the top of world.
A leitura deste livro é recomendada pela riqueza de sua abordagem de temas da atualidade e por sua defesa da fé bíblica como forma de ainda responder às questões que desafiam a nossa vida contemporânea. A partir da sua leitura, devemos responder à questão: E agora como viveremos? com fé e biblicamente: Sem medo do futuro!
José Santos Almeida
Aluno do Programa de Pós-Graduação em Teologia (Mestrado) do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro.