Prazer de Ler
Livro da Semana


Expediente


Livro do Mês


Livro da Semana


Mercado Editorial


E-Mail

São Paulo, 13 de Setembro de 2000
HISTÓRIA DA EVANGELIZAÇÃO
DO BRASIL: DOS JESUÍTAS AOS
NEOPENTECOSTAIS


Título: História da Evangelização do Brasil:
dos jesuítas aos neopentecostais
Autor: Elben M. Lenz César
Editora: Ultimato (Viçosa MG)
Páginas: 191

Uma história dos evangelistas do Brasil
Qualquer contribuição lançada no espaço da história dos cristianismos (no plural mesmo) no Brasil, particularmente sobre a "igreja evangélica brasileira", é bem-vinda. Qualquer não! A história da evangelização do Brasil não tem uma história qualquer. É a história de homens e mulheres que nem sempre pensavam e agiam do mesmo modo, quase nunca trabalharam lado a lado, não foram unânimes na exegese bíblica, cometeram erros de estratégia missionária, tornaram-se culpados de pecado de intolerância, não levantaram suficientemente sua vozes contra a escravidão indígena e africana outras injustiças sociais, nem sempre exigiram arrependimento e conversão daqueles aos quais ministravam. Todavia, ninguém pode negar que esses missionários e missionárias, europeus e americanos do norte, estrangeiros e nacionais, católicos e protestantes, não-pentecostais e pentecostais, instruídos e iletrados, casados ou solteiros, eram realmente vocacionados, amavam a Deus acima de tudo, deram-lhe suas vidas e trouxeram para cá o evangelho de Jesus promovendo e ampliando o reino Deus" (p. 13-14).

Pelo menos, essa é a opinião do Prof. Elben M. Lenz Cézar, um dos fundadores da Igreja Presbiteriana, do Centro Evangélico de Missões (CEM) e da Revista Ultimato. Pastor, editor da Ultimato há 32 anos e professor de Missiologia, o jornalista e escritor, tem, entre as muitas obras publicadas, as seguintes: "William Carey" (1993) e "Entrevistas com Ashbel Green Simonton" (1994).

Primeiro, o Rev. Elben define seu objetivo:
"A história da evangelização do Brasil não é adaptação de uma dissertação acadêmica. Quer dizer, não é um trabalho científico. Embora tenha o cuidado de ser rigorosamente fiel às muitas fontes consultadas, o livro que o leitor tem em mãos contém uma série de relatos ao mesmo tempo históricos e edificantes" (p. 13).

O Rev. Elben, de maneira simples, não simplista, leve, não oca, e fluida, não condescendente, escreve para todos. Apesar de afirmar o caráter não-acadêmico do livro, o Prof. Elben pressupõe algum conhecimento do leitor ao, por exemplo, mencionar o movimento da santidade, "holiness", e o acontecimento de Topeka (p. 144). O caráter não-científico, mas histórico (?), do livro parece estar em oposição à edificação, de caráter devocional, que ele quer promover, e que está presente no final de quase todos os capítulos sob a forma de uma aplicação moral ou de uma lembrança, comparação ou aplicação, de algum texto bíblico.

Menos edificantes (?), mas igualmente importantes são a bibliografia, o índice onomástico, a cronologia (que poderia ser universal) e as notas explicativas e bibliográficas no final de cada capítulo. Quer dizer, no final de quase todos os capítulos, pois faltam notas bibliográficas nos capítulos III, IV, V e XIV. E em alguns lugares como no capítulo 11, ele poderia ter ido as fontes primárias. Além de discutir as fontes, pois ser rigorosamente fiel as fontes consultadas não é vantagem se não se questiona as mesmas.

Nada disso, nem algumas informações incompletas (por exemplo, na p. 95: "novos missionários batistas"?) e nem alguns erros de impressão (por exemplo, na p. 83 e 120), conseguem impedir a já conhecida e apreciada habilidade do setuagenário de Viçosa em amalgamar informação e intenção e pensamento e vontade e conhecimento e desejo, e traduzir essa amálgama em letras.

Depois, define seu objeto:
"Estamos focalizando mais os instrumentos humanos dos quais Deus se serviu de uma maneira e outra do que as instituições que eles fundaram ou trouxeram para o Brasil ao correr dos 500 anos de história, a partir da ocupação portuguesa" (p.13).

Quem (nos últimos 500 anos) evangelizou o Brasil? Essa é a pergunta que o Prof. Elben tenta responder. A escolha por enfocar personagens e não eventos ou entidades deve-se provavelmente ao fato de, por exemplo, ser mais fácil tratar o Padre Anchieta como missionário do que os jesuítas como missionários e a ação deles como fazer missões e a Igreja Romana do século XVI, XVII e XVIII como promotora de missões ou agência missionária. Assim como é mais fácil tratar o Bispo Edir Macedo como evangelista do que a Igreja Universal do Reino de Deus como uma igreja evangelística.

Aliás, o Prof. Elben, que demonstra ter uma visão conciliadora da presença católica no Brasil, só faz juízo de valor sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, umas das três grandes igrejas evangélicas genuinamente brasileiras (p.149). Passando inclusive da 3.ª para a 1.ª pessoa do singular, o que confere um tom particular às críticas (p. 151).

A primeira pergunta suscita outras: Como o Rev. Elben selecionou os personagens? Por que o Rev. Elben não acompanha o sucesso ou o fracasso, pelo menos estatisticamente, das igrejas inseridas, transplantadas, organizadas ou fundadas pelos personagens enfocados, como ele faz com a Congregação Cristã do Brasil (p. 113-116)?

E, por último, como está organizado:
"Grosso modo, é possível dividir a história da evangelização do Brasil em três períodos distintos e naturais: nos séculos XVI, XVII e XVIII, os missionários católicos cristianizaram o país; no século XIX, os missionários protestantes evangelizaram o país; e, no século XX, os missionários pentecostais pentecostalizaram o país (como auxílio dos carismáticos católicos). No início ocorreu a pré-evangelização, no século seguinte, a evangelização propriamente dita e no último século, a pós-evangelização. Em todo o mundo, o século XVI foi o grande século missionário católico, o século XIX, o grande século missionário protestante e o século XX, o grande século pentecostal" (p. 14-15).

Nascemos como colônia de exploração! Quem veio, só veio por falta de opção ("náufragos, traficantes e degredados") e não por opção. E, hoje em dia, na opinião de alguns, quem fica, só fica por falta de opção ("pobre, preto e prostituta") e não por opção. Até a fé dos brasileiros foi explorada (p. 56): primeiro pelos portugueses, depois pelos ingleses e por último (ou ultimamente?) pelos americanos. Tudo facilitado por acordos comerciais e dependência econômica. Ao mesmo tempo em que era do interesse das nações hegemônicas "usarem" esses missionários ou "aproveita-los" para inserirem juntamente com a fé a cultura delas.

O Prof. Elben poderia ter tratado (p. 55-59) dessas influências (por acomodação), assim como das influências (por contraste e resistência) indígena e africana na formação dos cristianismos e de suas agências brasileiras ou no Brasil. Assim como poderia ter tratado da presença negra e indígena nas igrejas, e como e quando índios e negros foram alcançados.

Especificamente, no caso dos negros, apesar do Prof. Elben dar ênfase positiva ao tema (p. 13,35,40-43,55-59), é difícil fugir a demonização da cultura africana (ou afro-brasileira?) em oposição a divinização da cultura européia, especialmente a grego-romana. Se a história é a de Zeus ou Júpiter, é cultura, mas se for a de Olorum, é pecado. Se Salomão tem 1000 mulheres (I Re 11.3), é cultural, mas se Xangô tem 400, é ostentação ou proeza sexual (p. 35).

Mesmo sem indicar quantas agências missionárias (denominacionais, interdenominacionais, eclesiásticas, para-eclesiásticas e independentes) e quantos missionários os cristãos brasileiros enviam e mantêm, ele afirma que "há mais missionários brasileiros do que jogadores de futebol atuando fora do Brasil" (p. 165). E ainda assim, apesar do Brasil de campo missionário ter se transformado em agência missionária, "é preciso existir o quer se chama hoje de reevangelização" (p. 161).

O último capítulo do livro (p. 163-164) traz sete definições do termo evangelização. Mas o Prof. Elben não elege nenhum deles. Fica-se sem saber como se deve entender no livro os seguintes termos e expressões: cristianização, evangelização e pós-evangelização; missão, fazer missões, campo de missões e missionário; protestantes, evangélicos, pentecostais e neopentecostais. Do mesmo modo, não se faz diferença entre catequese, proselitismo, evangelização e missão. E estranha-se a ausência das seguintes expressões: pentecostais históricos, proto-pentecostais, pós-pentecostais e cristianismos.

"A evangelização não é uma tarefa que começa e pára. [...] A evangelização é algo contínuo no mesmo lugar e em outros lugares. Além da evangelização, é preciso existir o quer se chama hoje de reevangelização. [...] A comunhão verdadeira está quebrada e necessita de novo interesse, nova decisão, novo início e reconciliação. É claro que Jesus está do lado de fora de muitos cristãos nominais, muitos lares e, o pior, de muitas igrejas que se chamam de cristãs. [...] Precisamos ter a coragem de confessar que não sabemos direito o que é evangelizar" (p. 161,162).

Inquietante.


Resenha por Dercinei Figueiredo Pinto
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Teologia
do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil