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São Paulo, 20 de Setembro de 2001
O BELO, AS FERAS E O NOVO TEMPO

Livro da SemanaTítulo: O Belo, as Feras e o Novo Tempo
Autora: Ivoni Richter Reimer
Petrópolis/São Leopoldo:
Vozes/CEBI - 2000.
112 páginas


Ivoni Richter Reimer é Dra. em Filosofia pela Universidade de Kassel na Alemanha e especialista em Novo Testamento. É pastora Luterana, assessora do CEBI - Centro de Estudos Bíblicos, membro da Pastoral Popular Luterana e também da Comissão de Direitos Humanos da Federação Luterana Mundial e, como ela mesma frisa, esposa de Haroldo Reimer, mãe de Daniel e de Tiago.

Meu interesse por esta obra foi instigado pelo curioso título.
Afinal, quem é o Belo, quem são as Feras e que Novo Tempo é este?

"O Belo é o motivo da existência, e a vida é o seu objetivo, sua razão de ser. O Belo fecunda, cria e recria a vida, e se alegra com sua beleza [...] O Belo é a Vida encarnada em Jesus de Nazaré, manifesta na estrebaria e na cruz, na festa e na celebração da fé. 'Eu sou a Vida ... vos dou a minha Vida.' [...] Quando percebemos a profundidade dessa atuação de Deus enquanto o Belo que é Vida, não mais podemos calar diante das atrocidades praticadas contra a vida, nas ruas, nos lares, na cama, nos bares, na lama ... no lamaçal dos gabinetes políticos e governamentais, no lamaçal das violências, dos poderes atrozes e ferozes. Quem recebe o toque do divino Belo que é Vida não há de ficar indiferente. [...] E para que a Beleza da justiça vença, o Belo encarnado precisa continuar lutando contra as bestas-feras. Feras que beliscam, que mordem a Vida, que querem derrotar o Belo aqui, onde ele mora: na sua criação - casa nossa! [...] São tantas as feras! O profeta Ezequiel nos apresenta algumas [...] O projeto de Deus é de libertação, de vida, justiça e paz. É um projeto que requer solidariedade, humildade, serviço, partilha, despojamento, esperança, amor e fé no Deus libertador, criador e mantenedor da vida digna de todos os seres viventes. As bestas feras oprimem através do poder do dinheiro, da ganância, do poder usado em benefício próprio, através da escravidão, da prostituição, da violência, do narcotráfico, da corrupção, do exercício político irresponsável, da insegurança [...] Os textos proféticos e apocalípticos nos ensinam a resistir contra a atuação das bestas-feras e a transgredir as regras de sua dominação. Contra o poder do mal, das feras é necessário anunciar o poder de Deus, do Belo, que se revela na luta pela construção, fecundação e reconstrução da vida bela, prazerosa e boa. É necessário restaurar a dignidade de todos os seres viventes para habitar este mundo na paz que brota da justiça. Esse é o Novo Tempo que se torna novo a cada dia, desde tempos milenares. O Belo é o sujeito da construção desse tempo." (excertos, pp.10 - 14.)

O livro é uma coletânea de artigos e outras publicações da Dra. Ivoni com datas variadas e finalidades também diversas, mas todas têm algo em comum: a teologia da libertação na perspectiva feminista, instrumentalizada por uma hermenêutica de caráter histórico-crítico.

"São vários textos, fragmentos de tempo, que foram surgindo durante diversas experiências de minha vida [...] Nada de linha reta. Às vezes são dois passos pra frente e um pra trás, ou dois pra lá e um pra cá [...] Há textos mais densos e concentrados, outros mais leves [...] Alguns são mais hermenêuticos, outros mais exegéticos. Todos eles, no entanto, brotam da vida ou da sua falta, da presença ou da saudade do Belo, e da Beleza transmitida em cada movimento de inalar e renovar o sopro da Vida." (p.14)

Aqueles que sentem arrepios com a simples menção da terminologia "feminista" serão surpreendidos com a meiguice e a amplitude de reflexão utilizadas pela autora. A Dra. Ivoni consegue demonstrar que, ser feminista é lutar pelo direito do pobre, do órfão, da viúva, dos idosos, dos escravos, das mulheres, dos homens e das crianças; ao invés de, como muitos imaginam, arvorar pendões em nome dos direitos das mulheres. Ser feminista é estar envolvida(o) na luta por dignidade para todos os seres humanos. E o que é isto senão um profundo exercício da essência do Evangelho que encontramos na palavra de Deus?

"O Belo, as Feras e o Novo Tempo" tem uma linguagem fácil de assimilação, mas nem de longe é superficial. Ao contrário, seu conteúdo é denso, profundamente bíblico e acima de tudo: latino-americano, contextualizado com nossa realidade de vida, revelando o Deus que não faz acepção de pessoas.

A coloração amarelada das páginas proporciona certo conforto visual no momento da leitura. A capa é resistente, o papel é de boa qualidade e o interior é artisticamente ilustrado com fotografias, desenhos e poemas. Dentro desta agradável aparência está um texto profundamente reflexivo e crítico; por vezes, provocativo e, em alguns casos, até irônico; traços geralmente marcantes em obras assinadas por mulheres. Demonstrando-nos a profunda sensibilidade e perspicácia de comunicação que a teologia feminista exige, faz cair por terra uma idéia que se tem por aí de que ser feminista é ser arrogante.

O empreendimento do leitor e da leitora será bastante agradável.
A linguagem é fluida, de franco diálogo; transmite a sensação de estarmos numa sala de visitas a procurar soluções para os problemas da vida, enquanto, amigavelmente, se toma um chá. Mas, que ninguém se engane: é "impossível" ler seu conteúdo sem refletir em suas propostas. A autora demonstra seus firmes posicionamentos, frutos notórios da experiência de lidar com seres humanos. A atualidade das questões é patente e deixa pistas para atuações diretas dos cristãos em prol de um Novo Tempo.

O leitor e a leitora que se despojarem dos preconceitos e partirem para a leitura serão gratificados com novas idéias e reflexões, que sugerem uma nova prática de cristianismo, tão urgente em nossos dias.
O livro terá um peso bastante positivo para aqueles que defendem a ordenação de mulheres ao Ministério da Palavra.

À exceção dos dois primeiros capítulos, os demais não precisam ser lidos seqüencialmente. A partir do terceiro a obra fica mais auto-biográfica. Os capítulos são independentes entre si e suas reflexões fornecem materiais para outras obras sobre os assuntos abordados. Um defeito na editoração encontra-se na passagem da página 31 para a 32. Não se sabe o quanto foi perdido, mas houve uma lamentável perda de informações neste intervalo.

Não posso dizer que eu era uma feminista antes de ler esta obra. Também não posso afirmar que tornei-me uma feminista após a leitura. Não verifiquei neste livro uma tentativa proselitista. Vi um convite à reflexão, ao diálogo e à prática de um cristianismo mais atuante na sociedade. Por isso, ler este livro foi um agradável exercício sobre ler gente, ler necessidades humanas, ler um pouquinho a própria história da autora.

Senti-me profundamente grata pela experiência, pelos novos horizontes e pelas novas propostas para se lidar com o ser humano de forma mais sensível e justa, oferecidos por esta hermenêutica. Se isto é ser feminista, eu cheguei lá, mas como creio, ser feminista é mais que isto, então devo dizer: a leitura me fez muito bem, não por ser mulher, mas por ser gente!


Resenha por


Resenha por Lília Dias Marianno Lima da Cruz
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Teologia do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.