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São Paulo, 15 de Outubro de 2001
LENDO AS ESCRITURAS COM OS PAIS DA IGREJA

Autor: Christopher A Hall
Editora Ultimato Ltda. (Viçosa,2000).
Páginas: 208
Tradução: Rubens Castilho


Estudar com a mente no coração
"Graça que não é um pagamento devido ao mérito, mas tem sido concedida como dádiva, e paz, por meio da qual fomos reconciliados com Deus, tendo como propiciador o Senhor Jesus, que perdoou-nos os pecados e apagou a sentença da morte contra nós, sendo castigado na cruz. Ele fez dos principados e poderes um espetáculo, triunfando sobre eles no madeiro." Jerônimo, pai da Igreja (347-419/420).

Christopher Hall -- que hoje é professor associado de estudos bíblicos e teológicos no Eastern College, St. Davids, na Pensilvânia (EUA) e co-editor do Antigo Comentário Cristão das Escrituras, publicado pela InterVarsity Press -- havia mantido pouco contato com os pais da Igreja, até iniciar seus estudos de doutorado, na Drew University (EUA). Durante o curso, foi atraído para disciplinas que estudavam os escritos patrísticos, por duas razões principais: por um lado, pareciam-lhe especiais e, por outro, sentia-se ignorante por desconhecer teólogos e exegetas que eram muito admirados por outros cristãos.

Hall sente-se responsável por atrair o leitor para o assunto que deseja abordar, porque sabe que poderia encontrar algumas dificuldades em obter atenção, caso simplesmente iniciasse suas considerações sem demonstrar a importância do tema para os dias atuais. Lança com esse objetivo uma pergunta séria: por que ler os pais? Curiosamente, para respondê-la ele formula duas outras: podem os pais ser confiáveis? Sola Scriptura?

Imediatamente percebeu, ao tentar achar suas respostas, que o pensamento teológico e a maneira de interpretar a Bíblia que os reformadores João Calvino, Martinho Lutero e João Wesley exibiam, guardava muita semelhança com o que aprenderam com os pais da Igreja. E, enquanto se aprofundava na vida e obra de João Crisóstomo, objeto de sua pesquisa para o doutoramento, Hall via, nos pais, uma atitude que lhe chamou a atenção e o fez mudar seu modo de trabalhar: ao contrário do que acontece no mundo moderno, os pais não tinham pressa. Para eles, os problemas e as realidades que as Escrituras não só levantam como também esclarecem, a saber: pecado, mal, morte, vida, encarnação, redenção, criação e re-criação, são importantes demais para serem tratadas sem critério. Aprenderam a ser pacientes, a ouvir, a silenciar e a estudar com a mente no coração. É a partir deste entendimento, que o autor nos convida a dar um passeio pelo pensamento de alguns dos pais da Igreja.

Quem são os pais? Pergunta com que inicia o terceiro capítulo e que não o impede de mencionar a presença, também relevante, das " mães" nos primórdios da Igreja. Ao tentar responder à pergunta-título, Hall destaca quatro critérios básicos para que a Igreja distinguisse um dos seus fiéis com o qualificativo de "pai": antigüidade, santidade de vida, doutrina ortodoxa e aprovação eclesiástica. Para cada um dos itens, são apresentados exemplos interessantes e esclarecedores que prendem a atenção do leitor e o faz desejar conhecer as características pessoais com que eles contribuíram para a interpretação da Bíblia.

O autor opta por deixá-los falar e interpretar a Bíblia. Seleciona alguns dos textos que produziram, analisa-lhes o método e as conclusões a que chegaram, sem descuidar de nos apresentar dados biográficos de grande relevância e interesse. Antes de fazê-lo, apresenta ao leitor o que ele chama ser "A Mente Moderna e a Interpretação da Bíblia", ocasião quando discorre sobre a importância de lançarmos o olhar para "outras lentes" de interpretação das Escrituras, se quisermos caminhar na compreensão da sua mensagem e da relevância inconteste para a Humanidade.

Para ajudar o leitor a compreender as razões e os métodos que os pais usaram, Hall foi muito feliz em dividi-los em dois grupos de quatro, sendo "Quatro Doutores do Oriente": Atanásio, Gregório de Nazianzo, Basílio o Grande e João Crisóstomo e "Quatro Doutores do Ocidente": Ambrósio, Jerônimo, Agostinho e Gregório o Grande. Cada um dos oito tinha experiência pastoral, e dessa prática brotou o trabalho de interpretação da Bíblia, realizado para trazer respostas às necessidades espirituais dos cristãos. Eram teólogos, mas a partir da caminhada com o povo é que a exegese da Bíblia ganhava força e brilho.

Foi intensa a luta dos "pais": contra:
· interesses políticos dos que dominavam o cristianismo recém-nascido;
· os mestres gnósticos;
· hereges arianos que insistiam que Cristo não era Deus e sim um Homem exaltado;
· os exageros do método alegórico;
· a doença, que os vitimava muito cedo;
· o pecado, que desejava dominá-los.

Ler os seus escritos nos estimula a permanecer na fé e a buscar na Bíblia os tesouros que, por certo, ainda estão escondidos e à nossa espera.


Resenha por Ana Maria Suman Gomes Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Teologia Do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil