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São Paulo, 26
de Outubro de 2001
A DESCOBERTA
DE NOSSOS MEDOS

CAVALCANTI,
Soraya Raposo.
Mergulho
no ser: medo e autoconhecimento a partir da vida do
profeta Jonas.
Viçosa: Ultimato, 2000. 96 p.; BARRETO, Sônia Regina da Cunha.
Mergulho no ser - estudos no livro de Jonas.
Viçosa: Ultimato, 2000. 64 p.
"Ler a história de Jonas é fazer uma
incursão no mais profundo dos oceanos nosso próprio ser.
Você terá a bela oportunidade de descobrir que a história
de Jonas não fala somente à nossa razão, ao mundo
das explicações lógicas e cartesianas, mas principalmente
ao nosso coração, aos nossos sentidos, por meio de imagens
e símbolos. Jonas é, pois, um livro que nos faz pensar e
sonhar. Pensar e, talvez, até mesmo chorar pelo que somos, e então,
sonhar com o que poderemos vir a ser" (S. R. Cavalcanti, p. 16).
A autora do livro Mergulho no ser; medo e autoconhecimento a partir
da vida do profeta Jonas é Soraya Raposo Cavalcanti, coordenadora
do Gênesis Instituto Bíblico, em São Gonçalo,
no estado do Rio de Janeiro. Junto com Sônia Barreto, ela escreveu
também os guias de estudos Habacuque partindo para o abraço
e O adolescente e suas questões.
Uma das definições mais ricas de homem é de Antoine
Saint-Exupéry, quando afirma que "o ser humano é um
nó de relação", parecendo querer nos dizer que
as pessoas são tecidas de fios, de nós e de pontas essencialmente
relacionais e que se, por algum motivo, são cortados os vínculos
afetivos, elas empobrecem. Não criar vínculos de respeito
e amor com Deus, consigo mesmo e com os outros é uma dimensão
bem dramática da natureza dos indivíduos.
A obra de Soraya R. Cavalcanti é uma oportunidade ímpar
de auto-exame, de autoconhecimento, de se procurar saber o que cada um
possui de único e particular, de se buscar entender o que cada
um precisa fazer que ninguém mais pode fazer em nosso lugar. Para
a autora, a leitura de Jonas desperta nosso imaginário, porque
a história desse profeta bíblico nos leva a pensar sobre
nossas vocação e missão e isto não é
nada fácil, vez que, muitas vezes, assumimos como nossa vontade
o que, na verdade, é o anseio da igreja, de nossos pais e/ou das
pessoas que nos rodeiam.
Vivemos um tempo de contratos temporais, um tempo de instabilidade profunda,
um tempo de tristeza coletiva, onde todas as coisas duram muito pouco.
É necessário que os olhos voltem-se para o exemplo de Jesus,
exemplo da amizade desinteressada, da aproximação, de significativos
relacionamentos, dos olhos nos olhos e de uma percepção
mais real da nossa vocação, de nós mesmos e do mundo.
Segundo Soraya Cavalcanti, o livro do profeta Jonas leva-nos a descobrir
os medos que assombram a nossa alma o medo de amar, o medo de nos conhecermos,
o medo de nos decepcionarmos, o medo de nos entregarmos, o medo de sermos
feridos, o medo de sermos íntimos, o medo de termos de perdoar
o que parece imperdoável.
Embora Jonas reconheça as imediatas conseqüências de
sua fuga e perceba que precisa deixar o navio em que está, a fim
de que as outras pessoas não afundem juntamente com ele, não
tem coragem, nem forças suficientes, para se lançar ao mar,
sozinho. Então, ele confessa a sua culpa e pede aos outros que
o lancem ao mar. Às vezes, quando não encontramos forças
para nos lançarmos em direção a nós mesmos,
acontece justamente isso conosco: somente depois de causarmos muitos estragos,
é que pedimos ajuda a alguém.
A obra em questão possui um "Meu agradecimento...", um
"Sumário", além de um "Prefácio"
e uma "Introdução", e está dividida em
nove capítulos, depois dos quais possui um "Apêndice
("Fragmentos de histórias"). Fora o "Prefácio",
que foi escrito por Osmar Ludovico da Silva, em outubro de 2000, na cidade
de Viçosa, Minas Gerais, todas as demais partes do livro são
de autoria de S. Cavalcanti.
No capítulo um, a autora aborda "O livro de Jonas: uma história
narrada na primeira pessoa", onde ela faz um resumo da "história
de um homem que desejou pisar no tempo, azular no mundo... Um homem que
desejou fugir da sua principal missão na vida ser e da presença
daquele que é e faz ser." (p. 19). No segundo capítulo,
ela discorre sobre "Um homem que amava mais as coisas do que as pessoas"
e diz que o profeta Jonas era um sujeito que se deixava atrair por atalhos
e esconderijos, uma pessoa que "trocava" bilhetes e que pagou
caro por suas direções freqüentemente contrárias.
O terceiro capítulo analisa o "Medo de conhecer a si mesmo"
e afirma que a verdade que faz sangrar é a única possibilidade
de rompermos o ostracismo existencial e, então, seguirmos em direção
à nossa própria nínive, a qual simboliza, nesse momento,
o nosso próprio ser. E o capítulo quatro apresenta "Uma
fábula, algumas reflexões", onde é constatado
que se "amamos também sofremos e morremos, mas morremos com
a alma leve. Esta é a vitória paradoxal da vida: a morte
não pode tirar a parte
de nós que já doamos o amor." (p. 42).
Quanto aos capítulos cinco, seis e sete expõem, respectivamente,
três medos: o "Medo de cumprir a missão", o "Medo
de amar e perdoar o que parece imperdoável" e o "Medo
de intimidade", tendo sido este último escrito por Sônia
Barreto, autora do guia de estudos Mergulho no ser estudos no livro de
Jonas.
Já o oitavo capítulo fala a respeito do "Mergulho no
ser" propriamente dito: começa com uma frase do Pr. Mauro
Israel Moreira "O pior buraco em que uma pessoa pode se afundar é
dentro de si mesma." (p. 63) e acaba lembrando que devemos ter a
esperança de que nosso mergulho no ser traga de volta à
superfície um ser novo, um indivíduo que sabe quem é,
aonde quer chegar, o que quer e por onde quer seguir.
No nono e último capítulo "Romper para tornar-se um
ser autêntico"-, Soraya Cavalcanti mostra que a história
de Jonas finda de uma forma reticente, sem qualquer preocupação
de deixar uma nota conclusiva: ao contrário, Jonas deixa-nos uma
nota inconclusiva acerca de si mesmo, com certeza na esperança
de não reverenciarmos o seu ser mais do que o ser d'Aquele que
foi e é pleno de misericórdia, Aquele que redimiu Nínive
e que pode, ainda hoje, redimir-nos de nossa nínive interior.
"Viver profundamente exige mergulho. Isso não é algo
que façamos com superficialidade, sem que as águas geladas
da verdade nos envolvam por todos os lados e, principalmente, que encharquem
todo o nosso ser. A leitura do livro de Jonas nos leva a reconhecer que
ficamos mais próximos de Deus quando nos percebemos mais humanos,
isto é, mais frágeis, mais vulneráveis e menos "espiritualizados",
menos arrogantes." (S. R. C. Barreto, p. 11).
A autora do livro Mergulho no ser estudos no livro de Jonas, um
guia de estudos, é Sônia Regina da Cunha Barreto, que, juntamente
com Soraya Cavalcanti, escreveu os guias de estudos Habacuque partindo
para o abraço e O adolescente e suas questões.
O profeta Jonas viveu muitas e contraditórias situações
- acolheu, calou-se, dormiu, encarou, ensurdeceu-se, fugiu, obedeceu,
orou, ouviu, pregou, reclamou, rejeitou. Deus, no entanto, lá no
fundo do oceano, importou-se com Jonas e tratou dos seus anseios e dos
seus medos. A obra de Sônia R. C. Barreto é uma útil
ferramenta para a atualizada e fácil compreensão do instigante
livro bíblico de Jonas, podendo ser usado em grupos como um grupo
de crescimento, uma classe de estudos bíblicos, uma classe de Escola
Bíblica Dominical ou individualmente.
A peculiaridade da história de Jonas, que nos encanta, nos envolve
e nos intriga, e a sua aplicabilidade às realidades das mulheres
e dos homens pós-modernos permitem uma enriquecedora e sempre atual
leitura desse livro vétero-testamentário, como, aliás,
acontece com toda a Palavra de Deus revelada.
A autora deste guia de estudos diz que os exercícios espirituais
nele contidos são frutos de constatações, conversas
e reflexões, bem dolorosas, às vezes, por evidenciarem muitos
"mergulhos" ainda por serem feitos em sua existência.
Eles foram preparados, no entanto, de maneira a incentivar leitoras e
leitores a se implicarem no estudo, em alguns momentos; eles são
um convite mesmo para se mergulhar fundo, nessa busca de ser conhecido
e de se conhecer, sempre ancorados(as) na maravilhosa e surpreendente
graça divina e conscientes de que o autoconhecimento é um
projeto para toda a vida.
A obra em questão foi preparada, por Sônia Barreto, com ênfase
na abordagem da alma e nas contradições e nos conflitos
comuns à vida de Jonas e à nossa, e nele se propõe
uma reflexão, com coragem, sensibilidade e transparência,
sobre alguns temas registrados em trechos, mas que podem ser achados,
na íntegra, no livro de Soraya Cavalcanti, embora se trate de obras
independentes.
Este guia de estudos contém um "Sumário", uma
"Apresentação", um "Como usar este guia de
estudos" e uma "Introdução", estando dividido
em treze capítulos, após os quais há uma "Bibliografia".
Sobre ele, diz o Pr. Mauro I. Moreira, na quarta capa: "Faz muito
sentido estudar a vida de Jonas. Com facilidade somos levados a nos identificar
com seus dilemas, fragilidades, medos, ira e amargura. Somos confrontados
com a soberania, o amor, a misericórdia e a graça de Deus.
Em Cristo, é nos dada a segunda chance. Resgate da vocação
e propósito de Deus para nossa vida e missão. Não
perca esta chance da graça.".
O primeiro estudo, como os outros doze, possui cinco partes: Mergulho
no texto bíblico, "Mergulho no ser", Para pensar, Responda
do fundo da alma e Oração. Nele, a autora lembra que o nome
Jonas significa pombo, em hebraico, e que a pessoa deste profeta encerra
algumas valiosíssimas lições para as nossas vidas
intra, inter e transpessoal, porquanto temos de ir em busca de nós
mesmos, sermos "caçador de mim", como afirma a canção
do músico brasileiro Milton Nascimento.
No estudo dois, é abordado "O sono da fuga" e afirmado
que, freqüentemente, construímos muros de indiferença
que nos tornam quase impenetráveis; quase, pois Deus não
desiste de nós. No terceiro estudo, é analisada "A
tempestade provocada", no estudo quatro, "A calmaria da decisão
necessária" e, no quinto estudo, "O sinal de Deus".
O sexto estudo discorre acerca de "O mergulho no ser" propriamente
dito, no qual a autora mostra que o profeta Jonas, após experimentar
o "fundo do poço", escolheu romper para a sua vocação
real: ser. Já o estudo sete expõe "O Deus da segunda
chance", lembrando-nos de que, quando se olha para a história
da civilização, pode-se constatar a disposição
do Deus compassivo e misericordioso em oferecer sempre aos seres humanos
uma segunda chance.
Os oitavo, nono e décimo estudos falam, respectivamente, a respeito
de "O reencontro com a missão", "O mergulho no arrependimento"
e "O perdão de Deus". Já os estudos onze (antepenúltimo)
e doze (penúltimo) ocupam-se em caracterizar Jonas "Afogado
em ira" e "Afogado em amargura". E, por fim, o décimo
terceiro e último estudo fala sobre com "O amor transbordante
de Deus"
"Mergulho no ser; medo e autoconhecimento a partir da vida do profeta
Jonas" e "Mergulho no ser estudos no livro de Jonas" são
obras bem apresentadas, tanto em relação à capa e
às folhas de rosto, quanto à impressão. As encadernações
não trazem qualquer espécie de problemas, podendo os livros
serem folheados à vontade, sem que isto lhes cause sérios
danos. A linguagem de ambos é correta e específica, em uma
forma precisa e clara. Os estilos das autoras são objetivos e concisos
e os conteúdos dos livros são seqüencialmente lógicos
e sistematizados, tendo as suas partes bem dispostas e organizadas equilibradamente
e possuindo coerência e progressividade de idéias.
A leitura das obras de Soraya Cavalcanti e Sônia Barreto é
recomendável para todos aqueles que precisam e querem dar um "mergulho"
em seu ser. Vale a pena serem lidas!
Resenha por Vera
Lúcia Monteiro da Silva Mattos
Mestranda em Teologia pelo Seminário Teológico
Batista do Sul do Brasil
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