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São Paulo, 30
de Novembro de 2001
SALVOS POR
UM SALMÃO
MORAES,
Carlos. Como Ser Feliz Sem Dar Certo: E Outras Histórias de Salvação
Pela Bobagem. Rio de Janeiro. Record. 2001.
Essas e outras deliciosas
histórias é o que podemos degustar ao ler o livro do ex-sacerdote
católico e ex-preso político Carlos Moraes, no livro "COMO
SER FELIZ SEM DAR CERTO", Record. 2001.
Como o próprio
autor a identifica, a obra, é uma tentativa de contra-ajuda, ou
seja, uma crítica à febre das publicações
de auto-ajuda, que quase nunca ajudam ninguém. Os desavisados leitores
certamente apreciarão o modo irônico como ele apresenta temas
de extrema seriedade.
Provocações
à parte, o texto é uma deliciosa coletânea de crônicas,
escritas com humor, sensibilidade e conhecimento do ser humano, mostrando
o cotidiano de modo divertido, pitoresco e gracioso, pinçando aqui
e ali, situações e tipos bem característicos de nossa
cultura.
Como ex-sacerdote,
Carlos Moraes coloca no que escreve a sensibilidade da formação
humanística, interpretando fatos do dia-a-dia à luz dos
ensinos sagrados, sem contudo descambar para o pieguismo ou o puritanismo.
Em uma dessas crônicas (Evangelhos, Página 15) fala da aventura
de dois amigos, que percorriam de bicicleta uma rodovia pelos Andes Chilenos,
e depois de um longo dia, exaustos, famintos, sem dinheiro, molhados pelas
chuvas e pela neve, se atiram à sorte num canto de areia, entre
duas pedras em uma praia deserta. Quase desfalecidos vêem passar
um pescador com um salmão enorme às costas. Uma fogueira
foi acesa e logo o peixe era assado nas brasas, surge um amigo do pescador
com uma garrafa de vinho, as roupas secaram, o papo se alongou até
a madrugada...houve ali a ressurreição do ânimo e
a aplicação do Evangelho, quando o pão e peixe foram
multiplicados e a água transformada em vinho.
Irreverente, mas com
classe, o autor abre o livro com a insuspeita história do Monsenhor
Francisco Rosalvo, Pároco em uma cidade, que teve sua vocação
salva por nada menos que um "Pum inconseqüente", Isso mesmo
senhores: um "pum". Por ter saído em local e hora não
apropriados, o reverente sacerdote, deixou sua paróquia burguesa
e embrenhou-se pelas matas do Brasil Central afim de Evangelizar nossos
índios. Conta-se que ali descobriu sua verdadeira vocação
e viveu até o último de seus dias, com "odores de santidade".
O livro, porém,
é mais que crônicas. Como Repórter, Moraes é
observador, tem faro para perceber e extrair da vida comum o combustível
para o seu trabalho, trabalho que transforma em puro entretenimento para
os leitores. Como Jornalista, consegue ser breve e conciso. Os textos
são enxutos, claros, didáticos, suaves. O livro não
cansa porque fala de coisas tão distintas e ao mesmo tempo tão
oportunas, como no "Adágio em Ex". Nessa crônica
em particular, faz uma apologia (que empresta nome ao livro) àqueles
que são "ex" muitas coisas: ex-magro, ex-marinheiro,
ex-vendedor, ex-tabagista, ex-comunista, ex-atleta...ex-presidiário
etc. Nem por isso, acham que não deram certo. Há pessoas,
cujas paixões necessariamente não coincidem com o mercado,
explica, e nem por isso deixam de ser felizes. Ponto final.
A obra não
tem nada de boa se você é uma pessoa séria, tão
séria que não tem tempo de observar a natureza, o cotidiano,
o humor dos amigos e as incoerências da vida. Para esse não
vale a penas ler. É perda de tempo.
A obra não
tem nada de má, se você é daqueles que valoriza os
amigos, gosta do entardecer, encanta-se com a música, e principalmente
gosta de ler, ler de tudo, inclusive crônicas, crônicas digestivas,
variadas e engraçadas como a de Carlos César Novaes ou Luís
Fernando Veríssimo.
Carlos Moraes já
é veterano na arte de escrever. Escreve bem. Em 1981 ganhou o prêmio
Jabuti com o livro intitulado " A vingança do Timão".
Publicou pela Editora Vozes em 1970 "O Lobisanjo" e várias
outras obras dedicadas ao público infanto-juvenil. Foi repórter
da antiga Revista Realidade e editor da Revista Psicologia Atual. No momento
trabalha na Revista Ícaro do Brasil.
Como Ser Feliz Sem
Dar Certo: e outras histórias da salvação pela bobagem,
é uma publicação da Editora Record, em primorosa
encadernação, 160 páginas, que mesmo sem ter nenhuma
apresentação, prefácio, introdução
e outras formalidades, encanta pelo que é o texto e o autor.
Resenha por Levy
de Abreu Vargas,
Mestrando em Teologia no Programa de Pós-Graduação
do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.
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