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São Paulo, 07 de Dezembro de 2001

NASCIDA EM BANDUNG

SANTOS, Theotônio dos. A Teoria da Dependência. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira. 2000.

Autor de vinte livros publicados, participação com artigos, citações e referências em dezenas de outras obras, centenas de artigos jornalísticos publicados em quatorze línguas em mais de quarenta países, dão a Theotônio dos Santos, o respaldo para tratar de assunto extremamente complexo como a teoria da dependência entre os Estados na nova economia globalizada. A obra é um amplo arrazoado, justificando o modo de ver e viver o momento que passa a economia mundial, e suas tendências no desenvolvimento social, em todo o mundo.

Surgida originalmente em Bandung, Indonésia, na Conferência Afro-Asiática de 1955, a Teoria da Dependência, não tinha este nome, mas despertou os chefes de estados presentes (Índia, Egito, China e Iugoslávia) para nova realidade política, econômica, cultural e civilizacional, que se desdobrou em outros movimentos dando continuidade ao "espirito de Bandung". Entre esses movimentos, podemos citar a UNCTAD ( Conferência das Nações Unidas para o comércio e o desenvolvimento) e o movimento dos Países não alinhados, que não apenas continuaram os ideais de Bandung, como também contribuíram significativamente para o aperfeiçoamento do processo de influência desta nova ordem Econômica, Política e "Espiritual."

Na América Latina o movimento influenciou Organizações Regionais das Nações Unidas como a CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina) e entidades como a FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação), propondo uma política Mundial contra o subdesenvolvimento.

Teórico, Theotônio escreve uma análise deste movimento que ganha corpo nos anos 60, alastra-se rapidamente pelos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento e sofre nos anos 70-80 os mais duros ataques, especialmente dos "marxistas mais ortodoxos", mas o ideal sobrevive, evolui em direção a uma teoria do sistema Mundial reinterpretando a formação e o desenvolvimento do capitalismo moderno. Consolidando seu modo de analisar a questão, ele monta inclusive um diagrama sobre as teorias do desenvolvimento, com orientações bem fundamentadas. Trata ainda as questões envolvidas analisando as diferentes economias, e a ofensiva do chamado terceiro mundo.

Pragmático, o autor afirma que há um limite econômico absoluto para o pleno desenvolvimento das forças produtivas do capitalismo dependente. Segundo ele, os limites são políticos e não necessariamente econômicos, de modo que quando as condições políticas, ou geo-políticas mundiais ou regionais se alteram, a política nacional e local superam com certeza sua condição de dependência. Desejoso de resultados, ele escreve, citando exemplos recentes, que justificam sua pregação.

Polêmico, confronta Fernando Henrique Cardoso, negando-lhe a paternidade da teoria da dependência, que segundo ele, é uma filha de muitos pais, fruto de um aperfeiçoamento constante, afirmando inclusive que estudos de sua própria lavra, eram citados por FHC em palestras sobre o tema proferidas nos idos de 1968. Se há um pai brasileiro para a teoria, este com certeza não é Fernando Henrique Cardoso. Mesmo reconhecendo que nosso atual presidente é um dos teóricos (não ó único) desta escola, Theotônio questiona e coloca em dúvida seu estilo de governo, segundo ele, tem se caracterizado pela incapacidade de promover as reformas de bases, quesito fundamental para impor a paz social, o equilíbrio econômico e a solução pacífica de nossas contradições.

A obra, como não poderia deixar de ser, é essencialmente acadêmica, com uma linguagem quase técnica, impossibilitando muitas vezes ao leitor comum um entendimento fácil do texto, apesar das inúmeras notas elucidativas colocadas didaticamente ao fim de cada capitulo. A Bibliografia é ampla e variada assegurando aos estudiosos do assunto uma vasta fonte de consulta.

Mais uma vez a Editora Civilização brasileira mostra pra que veio, presenteando um restrito e exigente público, interessado nos problemas sociais, uma obra consistente, oportuna, apesar de não ser popular, nem despertar grandes paixões no público em geral. Ela tem espaço garantido na intelectualidade, no magistério, nas conversas cultas de grupos bem restritos, mas que via de regra são os formadores de opiniões e dirigentes de grandes segmentos sociais.

 


Resenha por
Levy de Abreu Vargas, Mestrando em Teologia no Programa de Pós-Graduação do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.