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São Paulo, 14 de Dezembro de 2001

COMPLEXO MESSIÂNICO

COELHO, Eduardo Campos. Em busca de Identidade: O Exército e a Política na Sociedade Brasileira? Edmundo Campos Coelho. Rio de Janeiro. Record. 2000

Uma análise sociológica do papel do Exército na política e na sociedade Brasileira, traz a público, aspectos internos da chamada "filosofia dos quartéis" que é pouco entendida, para não dizer desconhecida pelo cidadão comum.

A Sociedade, quase sempre vendo de fora para dentro dos quartéis, não entende muito desta cultura, nem compreende seu papel em uma sociedade democrática, já que ele mesmo, o Exército, foi instrumento para manutenção de um sistema de opressão. A verdade é que o povo em geral, vê na população fardada de nossos quartéis um papel ambíguo, ora a serviço de um sistema, ora de outro, que melhor lhe convenha. Já o Exército, pela sua tradição e até pela história recente, vê a si mesmo como resposta social, guardião das instituições e salvador da pátria. Apesar das mudanças sociais e políticas, ainda hoje ele tem de si mesmo este conceito Messiânico, que levará muitas gerações para ser desfeito.

Buscando trazer luz sobre estas diferentes visões, foi que Edmundo Campos Coelho, mineiro de Governador Valadares, Professor e Pesquisador desde 1969, consultor do CNPq, autor de várias outras obras (Sociologia da Burocracia, Zahar, 1969; A Sinecura Acadêmica: A Ética Universitária em Questão, Vértice, 1988; A Oficina do Diabo, Espaço e Tempo, 1988 e As profissões Imperiais: Medicina, Engenharia e Advocacia no Rio de Janeiro - 1822-1930, Record, 1999.), conferencista de larga experiência, e testemunha ocular da nossa história nas últimas décadas, ele coloca neste trabalho sua análise crítica, e compara papel da instituição no Brasil com outras realidades nacionais. Como se poderá ver na obra, ele descobre que há uma curiosa similaridade. Em outras palavras: as relações entre militares e o poder Civil sempre foram difíceis, em todos os lugares e tempo, apesar de pouco falarmos ou ouvirmos sobre o assunto.

Historicamente, o elemento militar no Brasil tem origem nas tropas imperiais portuguesas, que a serviço da coroa, vieram para reprimir a fraude e o contrabando dos minerais preciosos. A guarda pretoriana era extremamente hostil à população da colônia, situação que foi sendo modificada, à medida que as tropas foram sendo substituídas pelos nativos da terra.

Seduzidos pelo espirito maquiavélico do discurso político, os militares, afirma o autor, sempre estiveram a serviço da "velhacaria política" com aquilo que Tobias Monteiro e Oliveira Viana chamaram de "O Dom da eterna ingenuidade" (p. 33). Em pelo menos três situações este julgamento se justifica: em 1955 as tropas sob o comando do Marechal Lott expressaram a maciça vontade popular ao garantir a posse de Juscelino Kubitschek; em 1961, este mesmo exército (seria melhor ler Forças Armadas aqui), demonstrou ser uma corporação a serviço das classes dominantes, assegurando a investidura do então vice-presidente João Goulart, e em 1964, este mesmo exército seria o protagonista na implantação de um regime com tendência fascista-colonial, que permaneceria no poder por mais de 20 anos.

Além destes fatos recentes, é importante não esquecer que a instituição sempre teve presença significativa para a sociedade brasileira, garantindo as instituições, pois sindicatos, empresariado e até mesmo a força operária não vestem fardas, mas precisam dos soldados para resolverem eventuais impasses no complicado enredo social.

Ciente desta importância, a instituição sobrevive, com relações ora suaves, ora tensas com os poderes constituídos, e vez por outra confundindo o seu papel e até mesmo assumindo pela força o próprio poder.

Aclamada pelos estudiosos do tema, o livro é a ampliação de um estudo que o autor fez em 1972 após uma exaustiva pesquisa sobre o assunto. O trabalho circulou primeiro em forma de apostila mimeografada e distribuída entre seus pares do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro -IUPERJ, retomando o texto três anos depois, deu a ele a forma atual, de um trabalho consistente, bem documentado com extensa bibliografia índice de assuntos e índice de nomes, recursos que ajudam o leitor a encontrar no texto aquilo que mais interessa.

A Editora Record está de parabéns ao colocar no mercado uma obra tão significativa, tratando de assunto tão relevante, apesar de tão ignorado pelos nossos cientistas sociais.

 


Resenha por
Levy de Abreu Vargas, Mestrando em Teologia no Programa de Pós-Graduação do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.