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São Paulo, 09 de Janeiro de 2002

O NOVO TESTAMENTO
E A DOUTRINA CRISTÃ


Livro do MêsCARSON, Donald A.


Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática? Unidade e diversidade no Novo Testamento.
Trad. Carlos Osvaldo Pinto.
São Paulo: Vida Nova, 2001. 95 p.


Em seu último livro - mais um opúsculo breve -, o Dr. Donald A. Carson, grande pregador, exegeta, intérprete cristão, prolífico escritor, doutor em teologia pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, e professor da área bíblica do Trinity Evangelical Divinity School, nos Estados Unidos da América, trata, magistralmente, da relação entre Teologia Bíblica e Teologia Sistemática.
"Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática: unidade e diversidade no Novo Testamento?" não pretende discorrer a respeito do aparecimento das tendências acerca da teologia bíblica e/ou da teologia sistemática, e sim, introduzir o problema, a princípio, focalizar, descrever e criticar um número de obras representativas, discutir as críticas daqueles autores que se opõem ao diálogo entre as duas teologias e oferecer algumas úteis reflexões. Neste sentido, o livro também não oferece consideração a "autores que influenciaram significativamente o debate, tais como William Wrede, Adolf Schlatter e Rudolf Bultmann" (p. 19), nem, tampouco, aborda o desenvolvimento da crítica canônica.
O que, de fato, preocupa Donald A. Carson é a possibilidade e a plausibilidade "da teologia sistemática que interage com uma teologia bíblica" (p. 8). O autor, então, depois de definir a questão e o trabalho, elabora, ao mesmo tempo, críticas e afirmações. De fato, ele se propõe, criticamente, "a fazer uma breve resenha das reações mais importantes à obra de Bauer ['Ortodoxia e Heresia no Cristianismo Mais Primitivo'] e a interagir, em algum detalhe, com a obra J.D.G. Dunn ['Unidade e Diversidade no Novo Testamento: Uma Investigação do Caráter do Cristianismo Mais Primitivo']" (p. 33). E, do ponto de vista afirmativo, propõe-se "a estabelecer algumas reflexões em defesa da preservação da unidade do NT, levando em conta a sua diversidade" (p. 33).
No entanto, Donald Carson, mesmo elaborando críticas, não se propõe "a demonstrar a unidade do Novo Testamento, a não ser incidentalmente" (p. 47). Na verdade, no capítulo 4, ele propõe-se a fazer uma coisa bem mais modesta, presumindo que se deve levar a sério a diversidade dos documentos neotestamentários: oferecer uma série de reflexões positivas relativas à possibilidade de se estabelecer uma Teologia Sistemática baseada em tais documentos.
Para tal, em primeiro lugar, declara Carson, é relevante reconhecer que, virtualmente, qualquer ser humano que não seja "ateu adota algum tipo de teologia sistemática"(p. 48). Segundo, o conjunto de informações a ser posto diante dos teólogos sistemáticos é toda a Bíblia; ora, "a validade dessa escolha depende da adoção de quatro posições" (p. 52): 1ª) toda a Bíblia é fidedigna; 2ª) as leis básicas da lógica são descobertas ligadas à natureza da comunicação e da realidade; 3ª) é preciso que os documentos que compõem a Escritura Sagrada versem acerca do mesmo tópico geral; 4ª) a Teologia Sistemática deve ser controlada pelas informações da Bíblia.
Em terceiro lugar, o progresso da revelação divina necessita ser tratado com toda seriedade, porém "o apelo à revelação progressiva para excluir componentes inconvenientes ao longo do trajeto dessa mesma revelação é um recurso ilegítimo" (p. 59). Quarto, a diversidade, no Novo Testamento, reflete, muitas vezes, diferentes cuidados pastorais, "sem quaisquer implicações de uma estrutura doutrinária diferente" (p. 67).
Também é importante, segundo o autor, saber, em quinto lugar, que a diversidade achada nos documentos neotestamentários reflete, freqüentemente, "os diferentes interesses pessoais e estilos idiossincráticos de cada um dos autores" (p. 73). Em sexto, lembra Carson, deve-se insistir que não existe "qualquer desgraça intrínseca na harmonização teológica, que é da essência da teologia sistemática" (p. 76).
Finalmente, em sétimo lugar, "Teologia Bíblica ou Teologia Sistemática: unidade e diversidade no Novo Testamento?" afirma que teólogos sistemáticos deveriam ter cuidado em observar como diferentes argumentos e verdades funcionam na Bíblia e ter cautela "com respeito a abandonarem essas funções em favor de outras" (p. 81).
O autor diz não estar convencido, nem por Bauer nem por Dunn, de que a Igreja apostólica fosse caracterizada por uma tolerância tépida e uma falta de preocupação tamanha com a verdade que tenha suportado um liberalismo teológico básico (p. 94).
Donald Carson não toca em muitas questões a respeito da unidade e da diversidade neotestamentárias, não respondendo, por exemplo, à importante pergunta quanto à relação entre o Antigo e o Novo Testamentos (p. 95).
Como se vê, a obra de Donald A. Carson, que já publicou, nesta mesma editora (Vida Nova), uma "Introdução ao Novo Testamento", juntamente com Douglas J. Moo e Leon Morris, quer mostrar, como a editora fez colocar na quarta capa, que a Teologia Bíblica é definida "a partir de sua distinção em relação à Teologia Sistemática e à História das Religiões": a fundamental proposta da Teologia Bíblica é construir uma teologia a partir da Bíblia Sagrada, de forma indutiva, sem depender das categorias definidas pela Teologia Sistemática ou pela Dogmática. Sem dúvida, esse objetivo foi alcançado, pelo que os leitores têm mais uma ferramenta para entenderem o intrincado relacionamento entre as Teologias Bíblica e Sistemática e entre a unidade e diversidade neotestamentárias.
No plano formal, autor e editor precisarão entrar em um acordo melhor em torno da forma de documentar as fontes. O livro não tem notas de rodapé, talvez para lhe tirar o tom acadêmico quando, sendo (na verdade) um ensaio, é precisamente o que ele é - e deixar um Carson bem mais à vontade. Conquanto isso seja aceitável, a opção de referenciar as fontes ao final de cada um dos cinco capítulos de que é constituída a obra, pela ordem em que aparecem, é inadequada, por ser um convite a que não sejam lidas.
Outrossim, é preciso registrar que a obra ganhou muito com a bem cuidada editoração a que foi submetida. É agradável depararse com o fato de que tanto as regras de pontuação e de concordâncias verbal e nominal quanto as normas de uma separação silábica atenta e de uma construção fraseal burilada são, em geral, criteriosamente obedecidas.
Além disso, a editora oferece, na quarta capa, informações sobre o autor, como uma forma de dar um pano-defundo para a leitura do seu livro. E existe, também, um "Conteúdo" (sumário), na p. 5, que é muito útil.


Resenha por Vera Lúcia Monteiro da Silva Mattos,
Mestre em Teologia pelo Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil.