Clique aqui para voltar à página inicialClique aqui para voltar à página inicial

Clique aqui para ler outros arquivos neste tema



 



 

Um Deus Tolerante
O bispo Robinson Cavalcanti esclarece alguns pontos da doutrina da Igreja Episcopal Anglicana

Robinson Cavalcanti nasceu num lar em que o pai era espírita, assim como o resto de seus parentes, e a mãe era católica, com uma família dividida entre católicos, espíritas e presbiterianos. Aos 16 anos, Robinson se converteu quando estudava no colégio presbiteriano 15 de novembro, onde foi evangelizado por amigos cristãos, mas só dois anos depois, pelo desdobramento natural da sua conversão, ele resolveu romper os vínculos que tinha com o espiritismo e com a igreja romana. Passou 12 anos na igreja Luterana do Brasil, e depois passou para a Igreja Episcopal, por identificação. Envolveu-se com a Aliança Bíblica Universitária, onde percebeu o chamado ministerial. Formado em Direito e Ciências Sociais, foi o primeiro nordestino e evangélico a ter mestrado em Ciências Políticas. Foi eleito bispo em 29 de junho de 1997 e instituído como titular da região no dia 19 de outubro do mesmo ano.

CANDEIA A Igreja Anglicana é evangélica?
Robinson É. Ela fez parte da primeira reforma protestante, junto da Igreja Luterana. Depois, veio a segunda reforma, com os calvinistas e, finalmente, a terceira, com os presbiterianos, metodistas e batistas. Nesta primeira separação, os líderes decidiram que nada que não fosse contra a Bíblia seria retirado da doutrina e, por isso, mantivemos as roupas, liturgia e algumas tradições e artigos de decoração, como velas e vitrais. Agora, a Igreja Episcopal Anglicana do Brasil é a fusão de três experiências anglicanas diferentes e autônomas. A primeira é a criação das capelanias consulares inglesas, no começo do século passado. Um tratado com Portugal em 1810 autorizou os ingleses a terem cemitérios, clubes e igrejas, desde de que não tivessem sinais exteriores de templo, nem cultos na língua nativa. Então, os ingleses fizeram igrejas em Belém do Pará, Recife, Salvador, Rio de Janeiro e noutras diversas cidades, ministrando os cultos apenas em inglês. Essas igrejas, na sua grande maioria, foram incorporadas à igreja anglicana, mas até hoje existem congregações independentes, como no Rio de Janeiro e em São Paulo. A segunda experiência foi a migração japonesa para São Paulo, quando muitos japoneses eram anglicanos no Japão, fazendo com que a maioria dos anglicanos no estado fosse descendente ou nativa. E, finalmente, a experiência principal, que foi a vinda de missionários norte-americanos em 1890. Eles vieram da Virgínia, nos Estados Unidos, onde a linha era evangélica, com o apoio de amigos presbiterianos.


CANDEIA A que o senhor atribui o sucesso da igreja Episcopal no Nordeste?
Robinson Os missionários americanos foram motivados a vir ao Brasil pelas histórias que a filha do missionário que implantou a Igreja Presbiteriana no País compartilhava. Assim, eles foram para São Paulo estudar português com os presbiterianos, e receberam a proposta de se incorporar no Rio Grande do Sul, onde a Igreja Anglicana ficaria quase exclusivamente por cerca de 50 anos. Lá, eles criaram uma rede de igrejas e obras sociais, até que os gaúchos migraram, formando outros pólos no Rio de Janeiro, Brasília e, em 1976, no Norte e Nordeste. Então, a nossa igreja foi 100% de linha evangélica tradicional nos seus primeiros 50 anos. Depois, ela teve a influência da linha anglo-católica, que é ritualista e sacramentalista e, por fim, a influência da linha liberal. Por conta disso, a igreja no Sul e Sudeste tornou-se mais tradicional no sentido de viver para dentro de si mesma, perdendo o pique missionário, enquanto que, no Nordeste, ela foi fundada por evangélicos e carismáticos, com uma ênfase missionária muito maior. Por isso, nosso índice de crescimento de igrejas é o maior do Brasil.

CANDEIA A Igreja Anglicana terá o primeiro bispo transexual, na Inglaterra. Qual a sua opinião?
Robinson Na verdade, é um pastor. A igreja Anglicana não tem nenhum bispo transexual, mas há alguns pastores homossexuais. No caso deste, que recebeu autorização para mudar de sexo, houve um estudo e um acompanhamento de psicólogos e médicos da área, que deram um laudo científico, comprovando que a mente dele era de uma mulher. Acho que primeiro nós devemos mudar a mente para depois mudar o corpo, mas há raras exceções, como esta, em que foi preciso mudar o físico. Nunca acompanhei um caso como esse de perto para tirar minhas conclusões. Não me coloco contra ou a favor, porém compreendo a decisão tomada.

CANDEIA A Igreja Episcopal é realmente semelhante à Igreja Católica?
Robinson Como disse antes, a Igreja Anglicana e Luterana, que fizeram parte da primeira reforma, defenderam que tudo que não fosse contrário às Escrituras deveria permanecer na igreja, como sinal da assistência do Espírito Santo durante os 15 séculos anteriores. Também quiseram preservar o valor da arte para a percepção do Sagrado. Deus, não somente como suma bondade, mas também como suma beleza, e a percepção da fé além do vocábulo, da palavra falada. Mas nessa primeira reforma, há uma clara separação entre idolatria e arte sacra, que é bastante simbólica e se presta à beleza e ao reforço visual e estético da expressão da fé. Daí, nós temos preocupação com a arquitetura. O templo tem um formato especial, com a sua decoração através de vitrais, ícones, azulejos, cortinas, etc. As velas, a cruz e o sino são símbolos para dar uma plasticidade à igreja, um ambiente religioso, embora isto seja uma expressão meramente artística, porque o centro vida da igreja é a pregação, a celebração do sacramento e a adoração.

CANDEIA A doutrina episcopal é mesmo liberal? Principalmente para os jovens, que poderiam beber, fumar, "ficar", e freqüentar boates?
Robinson
O princípio da santidade da reforma original, defendida por Lutero, é que você não vai exigir que as pessoas se enquadrem em determinados padrões de comportamento para serem membros da igreja. Eles fazem parte da igreja pelo arrependimento e pela fé, como crianças que começam com leite e, durante a sua vida, na convivência com o povo de Deus, ouvindo e estudando a Palavra, participando dos sacramentos, elas vão entrando num processo de santificação, mudando seu caráter, seu temperamento, deixando seus vícios, dentro da igreja e não antes de entrar.

CANDEIA A Episcopal foi pioneira nos Encontros de Jovens, Casais e Cursilhos, tendo um grande sucesso. Esse é o melhor método de evangelismo?
Robinson
Implantamos os Encontros nos anos 70, mas tivemos que criar outros ministérios. Houve uma saturação desses, já que outras igrejas começaram a fazer, e nós fizemos os Cursilhos masculino e feminino, e depois trouxemos o curso Alpha, que é um grande fenômeno de evangelização no mundo. Começou com uma Igreja Anglicana carismática na Inglaterra em 1991, que hoje tem sete mil igrejas no mundo, usando o método. Atualmente, fazemos mini-Encontros, mini-Cursilhos e Encontro de Amigos, que é uma invenção brasileira. Esses Encontros foram um chamamento ao movimento de massa existente na classe média. Mas, hoje, temos uma diversidade muito grande para atender a todas as classes. Como o Cursilho não sai muito barato, por causa dos recursos humanos e materiais, não é muito apropriado para comunidades mais carentes. Já o curso Alpha, que seria um Cursilho, em vez de concentrado num fim de semana, em um dia por semana durante várias semanas, o custo é mínimo. Estamos vivendo na diocese uma fase de criatividade, ajustando métodos antigos para os nossos dias e criando novos meios de evangelismo, como Sabadão de Casais, que é em apenas um dia. Não tenho dúvida de que usar movimentos como estratégia é um dos melhores métodos. Quando a Igreja Episcopal começou esse movimento, só havia praticamente uma forma de evangelismo, que era o apelo para levantar a mão no culto evangelístico ou visita com folhetos. Ainda éramos embrionários na parte da mídia. Aqui, tivemos um dos primeiros programas de rádio evangélicos, com Paulo Garcia, depois a implantação do telefone com mensagem, no qual a Igreja mais uma vez foi pioneira. E a obra social também tem muitos frutos entre os pobres. Então, não é esse ou aquele ministério que vai obter melhores resultados, mas o conjunto e o princípio de criatividade e inovação.

CANDEIA Até que ponto deve ir o ecumenismo? É verdade que a sua igreja está se associando à Igreja Católica?
Robinson
A Igreja Anglicana é fundadora do movimento ecumênico, através da Aliança Evangélica Mundial, que visava entre outras coisas, unir os evangélicos. A Igreja Católica sempre foi violentamente contra a ação ecumênica até o papa Pio XII. Os ortodoxos vieram sem muito entusiasmo, mas participam. O Conselho Mundial de Igrejas foi criado há 50 anos, e nós fomos um dos fundadores. Esse Conselho é uma associação de igrejas que confessam Jesus Cristo como Senhor e Deus, segundo as Escrituras, na unidade do Pai, Filho e Espírito Santo. Então, com as igrejas que falam isso, nós podemos ter o ecumenismo, mesmo que tenhamos grandes diferenças. Pessoalmente, a Igreja Anglicana não usa o conceito de macro ecumenismo, que é usado pela Teologia da Libertação, incluindo espíritas, umbandistas, etc., o chamado diálogo inter-religioso. O limite do ecumenismo seria com as igrejas que confessam a doutrina contida no Credo dos Apóstolos: o nascimento original de Cristo, a morte expiatória na cruz, a ressurreição, a segunda vinda, a Bíblia como palavra de Deus. Assim, entre protestantes, ortodoxos e católicos-romanos, nós temos graus diferentes de aproximação, baseados num diálogo que gere a atmosfera de paz, que é um valor no reino de Deus, inclusive a paz entre as nações. Então, se, conversando com pessoas que pensam diferente de mim, eu posso criar uma atmosfera de paz, eu estou obedecendo a Deus. Também posso fazer com elas ações que visem ao bem comum. Logo, numa ação em favor das crianças de rua, contra violência doméstica ou vícios, eu posso me juntar até com um grupo de serviços e não necessariamente com uma igreja. Agora, isso não vai implicar em nenhum momento que nós negociemos as nossas convicções. Participamos este ano, junto com a Igreja Metodista, Presbiteriana Unida e Reformada e Luterana, com a Igreja Católica Romana na Campanha da Fraternidade, que é uma campanha de ética e cidadania e não religiosa. Portanto, tenho a liberdade de me associar a um assembleiano na Marcha para Jesus e me associar a um padre no Grito dos Excluídos.

CANDEIA Qual o argumento da Igreja Anglicana para casar divorciados?
Robinson
A Episcopal faz o máximo pela harmonia conjugal. Acontece que, como protestantes, nós não cremos no casamento como um sacramento absoluto. Esse é o ensino da Igreja Católica. Na época da lei, já havia o divórcio instituído por Deus a Moisés. Era um divórcio com cláusulas, permitido apenas em algumas situações. Não estamos mais na época da lei, mas na época da graça. Primeiro, não cremos que o casamento é um sacramento como a eucaristia e o batismo, mas um rito sacramental que a igreja criou para solenizar uma ordenança de Deus. Em segundo lugar, nós não cremos em infalibilidade matrimonial. Não permitir o divórcio é decretar infalibilidade do casal, mas nós não cremos que o cristão, ou até mesmo o pastor, esteja livre da condição de errar.

CANDEIA Tradicionais X Renovados, por Robinson Cavalcanti.
Robinson
Eu me tornei evangélico no início dos anos 60, exatamente na época em que pegou fogo o movimento de renovação entre os congregacionais, batistas, presbiterianos e metodistas. Tornei-me simpatizante do movimento e até freqüentei alguns encontros, porém lamentei o fato dos renovados, que deram uma sacudida no marasmo da igreja, em vez de renovarem, envelhecerem muita coisa, por conta da sua ênfase nos usos e costumes e um certo anti-intelectualismo. Por outro lado, sempre cri na contemporaneidade dos dons espirituais. Nunca me convenci do que aprendi na Igreja Presbiteriana e Luterana, que quando João morreu, levou no caixão os dons espirituais. O Espírito sopra como quer. Ele é soberano e atual. Assim que me tornei evangélico, fiquei escandalizado ao ver tanta gente brigando por causa do Espírito Santo. E, logo cedo, me convenci de que os dois lados estavam errados. O tradicional queria proibir o mover poderoso, com cura e milagres, aposentando o Espírito de alguns ministérios e o lado renovado tentava legalizar a ação dEle, determinando que o crente tem que falar em línguas ou cair na unção para mostrar que o Espírito de Deus está com ele. Ou seja, experiências que foram boas e válidas para algumas pessoas em algumas igrejas não têm que se transformar numa lei. Outro problema dos renovados é a barreira contra a ciência e uma ênfase muito grande no moralismo. Hoje, 40 anos depois, as igrejas amadureceram e passaram a valorizar a teologia e o estudo. Igrejas pentecostais históricas, como a Assembléia de Deus, passaram a apoiar o seminário com entusiasmo. Dez anos depois, o movimento carismático veio para a Igreja Católica, Ortodoxa, Luterana e Anglicana. Mas, como já veio com a experiência de uma década, não provocou o racha, que dividiu os batistas, metodistas e presbiterianos. Apesar de umas raras divisões, a mesma denominação pôde conviver com as duas tendências. Eu sou vice-presidente mundial dos evangélicos tradicionais, mas eu freqüento congressos do movimento carismático. Temos, na Igreja Anglicana, evangélicos tradicionais, carismáticos, teólogos da libertação e anglo-católicos e não há conflito em razão disso. As várias correntes da igreja vêm em cima de uma ênfase que foi esquecida. Por exemplo, a Teologia da Libertação, que veio em ênfase do social esquecido, mas, por sua vez, esqueceu muito o lado espiritual. Creio que a igreja deve se firmar numa base sólida, mas deve flexibilizar no secundário. Logo, se uma igreja usa incenso, vela, bate palmas, fala em línguas e a outra não, são diferenças que não alteram a doutrina dos apóstolos.*

 

Qualquer dúvida, problema, sugestão ou outro motivo
para se comunicar conosco, mande um e-mail para

tiagocandeia@hotmail.com

 

 

 



Bispo Robinson Cavalcanti

 

"Você não vai exigir que as pessoas se enquadrem em determinados padrões de comportamentos para serem membros de igreja. Elas vão entrando num processo de santificação, mudando seu caráter e deixando seus vícios dentro da igreja e não antes de entrar."