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Respirando Missões
Ronaldo Lidório: aventuras e desbravamento pela causa de Deus.

Ronaldo Almeida Lidório, mineiro, 34 anos, casado com Rossana Garret Lidório, dois filhos: Viviane com 6 e Ronaldo Júnior com 4 anos, fez bacharelado em teologia, no Seminário Presbiteriano do Norte, mestrado em missiologia e doutorado em antropologia cultural, na Universidade de Londres. Filho do pastor Gedeon José Lidório, já falecido e de dona Eusa Lidório, atuante pregadora nas igrejas do País.

Aos 14 anos, Ronaldo foi impactado com uma pregação do seu pai, que por sinal, já havia passado a visão missionária, trabalhando numa tribo chamada Maxacali, no interior de Minas Gerais; no final do culto Ronaldo ficou de pé, fazendo todos crerem no seu chamado missionário. Desde então seu coração bate por povos não alcançados.
Depois de 8 anos em missões, num país chamado Gana na África, Ronaldo conta à Revista Candeia algumas experiências, fala de missões e dos planos futuros.

CANDEIA Além do seu pai, alguém mais influenciou a sua vida para ser um missionário?
Ronaldo Deus confirmava diariamente meu chamado e já no Seminário o Pr. Francisco Leonardo foi um forte estímulo. A obra missionária tem muitas necessidades, treinamento de lideres, tradução da palavra, assistência social. Quando saí do Seminário, casei e fui para a Missão Amem, em Belo Horizonte, havia muitas opções. Nós oramos e Deus deu paz no coração com relação a Gana. Havia 60 tribos não alcançadas, eu já tinha estado em Guine Bissau, Peru e vi que nesses lugares o número de missionários era bom, então optei por Gana.


CANDEIA Missões pode ser uma escolha do homem ou é um chamado exclusivo de Deus?
Ronaldo Eu creio que o chamado é vocacional, ministerial, ser chamado para fazer alguma coisa no mundo, agora onde fazer Deus direciona, essa direção inclusiva pode mudar várias vezes como aconteceu com Paulo.

CANDEIA Então o casal de missionários chega em Gana, e aí?
Ronaldo Passamos primeiro um ano pesquisando as tribos, para encontrarmos os Koncombas, havia muitas, Deus deu direção para essa porque era uma tribo grande, dentro de uma região fechada e na nossa apresentação fomos bem aceitos, foi quando pensei: Deve ter por aí a mão de Deus abrindo as portas.

CANDEIA Houve alguma tensão na chegada, hostilidade por parte dos nativos?
Ronaldo Sempre há esse receio, o primeiro contato tem momento de tensão, é assim na África, Ásia e também aqui no Amazonas. No caso da África, com os Koncombas e com os Chacalis, depois, foi uma aproximação lenta, armamos a barraquinha e esperamos a reação deles, não sabemos o que eles estão pensando. Apareceram a princípio 3 ou 4 jovens armados com lanças, entraram na barraca, mexeram nas coisas e foram embora. No outro dia voltaram com mais alguns adultos e levaram as nossas coisas para a aldeia, entendemos que aquilo era um convite para irmos com eles, entramos e ficamos.

CANDEIA Houve algum impedimento por parte do governo de Gana?
Ronaldo
Existe um braço da ONU no norte de Gana, uma espécie de Funai, que controla a região tribal. A terra pertence a duas tribos: Gonja e Dagomba e outras cem tribos, moram dentro dessas terras e devem prestar favores e reverências aos reis das duas tribos dominadoras. A ONU regula a entrada e saída de missionários, porque existem muitos conflitos tribais, a área é de risco, como Rossana é enfermeira e eu antropólogo foi fácil, fomos visitados pela Unesco e apreciaram nosso trabalho.

CANDEIA Quais as dificuldades que você enfrentou, para evangelizar povos não alcançados?
Ronaldo
A língua é a primeira barreira, depois a cultura, no caso de Gana, os homens não se relacionam com as mulheres em termos de conversação oral. Elas não podem olhar, ficar perto, tocar ou ficar mais altas que o chefe, são ofensas graves na tribo. Nos primeiros dois meses ficamos o mais quietos possíveis, só prestando atenção aos costumes. Mas eu diria que a médio e longo prazos, a maior dificuldade é o isolamento. A região das tribos fica distante mil quilômetros ou mais da cidade. Durante seis meses chove na região e ninguém pode sair nem por uma emergência, não existe nenhum meio de comunicação e o posto dos correios ou telefone ficam nessa cidade. O sentimento é insegurança, saudade, às vezes dá depressão. O que Deus fez para superar tudo isso, foi nos presentear com bons amigos Koncombas e sempre nos juntávamos para conversar, contar estórias, piadas e compartilhar nossas vidas.

CANDEIA Quanto à comida, vocês tiveram que comer algo estranho, como cabeça de macaco, por exemplo?
Ronaldo
Lá eles criam galinhas, cabritos, bois, só que os animais de médio e grande porte são reservados para sacrifícios, para feitiçarias e de acordo com o costume deles é proibido comer tais animais. Agora os koncombas crentes comem sem problema, enquanto os outros ficam com água na boca. Mas quando chegamos, tivemos que comer ratos, morcegos alguns tipos de macacos pequenos, cobras, uma única vez, graças a Deus, experimentamos uma sopa de cabeça de morcego. O interessante é que em meio a uma pressão lingüística, cultural e espiritual a comida se torna fácil, logo eles dão liberdade de fazermos nossa comida.

CANDEIA No contexto espiritual, os nativos têm muitos deuses, você via muita manifestação demoníaca?
Ronaldo
Os koncombas são animistas, eles crêem que esse mundo natural que vemos, é habitado e controlado por espíritos que povoam o mundo espiritual. Eles são também fetichistas, crêem, por exemplo, que os espíritos são representados por fetiches, ou seja, pedaços de madeira, rocha, coisas feitas por eles ou não, que hospedam os espíritos temporariamente e têm o domínio sobre uma família, palhoça, clã ou mesmo região. A vida dos nativos é muito opressa espiritualmente, da hora que acordam até o deitar eles são atacados pelos espíritos, que segundo eles, são todos maléficos. Eles sacrificam muitos animais e até crianças para se livrarem dos males.

CANDEIA Você chegou a ver algum sacrifício humano?
Ronaldo
Não, eles fazem tudo muito escondido, nem o pessoal da tribo pode ver, geralmente o feiticeiro vai sozinho para a mata, com a criança a ser sacrificada.

CANDEIA Alguns missionários que atuaram na África dizem que a manifestação demoníaca lá é tão forte, que é possível ver bruxa voar. Você teve alguma experiência assim?
Ronaldo Não, nunca vimos nada assim, o sobrenatural demoníaco que vimos foram possessões individuais e até coletivas envolvendo uma tribo inteira, cerca de trezentas pessoas. Mas o interessante é que com a chegada da Igreja do Senhor Jesus, a ação do inimigo era inibida em cada região.

CANDEIA Até que ponto as crendices dos nativos foram obstáculos para a implantação do evangelho, levando em conta o peso espiritual?
Ronaldo Os primeiros convertidos vieram um a um com muitas barreiras e perseguições. Gastamos mais ou menos um ano para ver algum resultado. As famílias rejeitavam os parentes que se convertiam. Lembro de duas irmãs, que foram colocadas em uma jaula por 2 semanas comendo apenas uma refeição por dia, o pai era o feiticeiro da tribo, no final do prazo de jaula, ele perguntou se elas estavam arrependidas de ir à igreja. E elas responderam que podiam passar um ano ali, mas não negariam Jesus. Tempos depois, os pais delas se converteram e ouve um derramamento grande, eram tantas conversões, que nós não podíamos sair da aldeia, para administrar os novos nascidos. Quando saí da África deixei 17 igrejas entre Koncombas e Chacalis, outra tribo que alcançamos, mais de 3 mil membros adultos e 1.500 crianças, além de 4 pastores, 8 líderes. Lá não existe denominação, a igreja é de Jesus.

CANDEIA Você teve problemas sérios de saúde, alguma vez pensou em desistir?
Ronaldo
Eu tive tuberculose óssea, resultado de 25 malárias. Cheguei a voltar ao Brasil para ser tratado, os médicos diziam que eu corria o risco de ficar paralítico e todos os casos de tuberculose óssea deixaram seqüelas fortes nos outros pacientes. A igreja orou comigo e nem a bengala que eu tive que usar por um período, estou precisando mais. No final de tantas malárias, eu coloquei para Deus se não era o caso de desistir daquela missão e pedi um sinal, que foi ser acometido de mais uma malária; até parei os remédios profiláticos e pela graça de Deus não tive mais nenhuma contaminação e pude terminar o tempo da missão.

CANDEIA Sua família também adoeceu muito?
Ronaldo Rossana teve duas malárias, Viviane uma e Ronaldo Júnior uma. Num desses momentos também vimos a mão de Deus. RJ teve malária cerebral e Rossana teve o discernimento de levá-lo à cidade, os médicos disseram que aquele tipo de malária matava rápido e tivemos sorte em vir a tempo para o centro hospitalar. Meu filho tinha aproximadamente dois anos e sofria demais com as dores de cabeça. Ficamos orando todo o tempo, os médicos não garantiam nada e já nos conformavam dizendo que era muito difícil o estado da criança. De um dia para o outro Ronaldo Jr. acordou e disse: “Papai! Jesus me curou”.

CANDEIA É verdade que vocês foram envenenados?
Ronaldo
Toda a família, inclusive minha sogra que estava nos visitando, foi para o hospital depois de tomar a água do pote de casa. Fizemos exames e ficou comprovado que havia um tipo de veneno. Os nativos disseram que eram os espíritos expulsando os missionários, só que quando voltamos a igreja ganhou mais credibilidade.

CANDEIA Você teria uma mensagem para os jovens cristãos dispostos a servir no campo missionário?
Ronaldo
Eu aprendi que Deus usa tudo aquilo que aprendemos. Portanto, se você se preparar bem, vai economizar muitos anos de trabalho, quanto mais você estudar e aprender, melhor, principalmente as 3 áreas que fazem parte do treinamento para todo missionário transcultural, que são: Antropologia Cultural, Lingüística e Missiologia Bíblica.

CANDEIA Digamos que eu seja um indígena que nunca ouvi falar de Jesus, fale como você iria me conduzir ao evangelho.
Ronaldo
“Nós sabemos que aqui na nossa tribo Chacali há uma estória antiga que nossos pais contam sobre um homem que no início da criação, subiu em uma árvore e o céu era baixinho, aí ele, com uma faca, cortou um pedaço do céu para experimentar e ele descobriu que o céu era carne. O homem fez isso uma semana, 2 semanas e um certo dia ele subiu e cortou um pedaço muito grande, que ele não podia comer, e a carne estragou. Deus, que olhava para o homem, ficou muito triste e levou o céu embora, o próprio Deus se foi e ficou apenas observando de longe, não mais vivendo entre nós Chacalis. Mas, eu quero dizer que isso foi o que os nossos pais nos contaram, só que Deus não se distanciou de nós, outros homens em outros lugares do mundo nos deram uma palavra revelada, escrita que diz como nos aproximarmos de Deus, aí entra Jesus.

CANDEIA A vinda de Jesus está próxima, pelo que você observa com relação ao evangelho chegar a todos os povos?
Ronaldo
Existem 2.227 povos não alcançados, os trabalhadores são poucos para a seara tão grande, mas se o homem tem uma tecnologia que joga através dos satélites imagens no mundo inteiro em segundos; Deus que criou o homem tem infinitamente mais poder. O que eu creio é que de acordo com Ap. 5 perante o trono de Deus vão estar, lavados pelo sangue do cordeiro homens de toda tribo, língua e nação.

CANDEIA Sua próxima missão impossível é Amazônia?
Ronaldo
Somos chamados pela missão Amém para liderar 3 famílias missionárias que estão se preparando para ir para a Amazônia e topamos o desafio, quando esse grupo estiver amadurecido voltaremos para a África só para supervisionar e talvez treinar mais líderes. Devemos viajar no início de 2002 quando estiver concluído o mapeamento da área que iremos trabalhar.


 

Qualquer dúvida, problema, sugestão ou outro motivo
para se comunicar conosco, mande um e-mail para

tiagocandeia@hotmail.com

 

 

 

 


Missionário Ronaldo Lidorio com sua filha.

 

“A vida dos nativos (em Koncombas) é muito opressa espiritualmente, da hora que acordam até o deitar eles são atacados pelos espíritos, que segundo eles, são todos maléficos. Eles sacrificam muitos animais e até crianças para se livrarem dos males.”

 


Mulher da tribo Konkomba, durante seus afazeres diários, carregando sua criança nas costas.

 


Rossana e Ronaldo Lidório trabalhando no desenvol-vimento de uma grafia para a língua Chakali em Gana.

 

 


Ronaldo e Labuer trabalhando na cartilha Konkomba para alfabetização da tribo.

 

 


Ronaldo acompanhado de um integrante da tribo Xosa vestido tipicamente.