|
na TV. O tempo é curto para exercer as múltiplas atividades e a telinha não ocupa um lugar de destaque em minhas opções de lazer. Contudo, gosto de ler bastante, inclusive sobre TV. Desde que você se tornou um novo darling da mídia, imediatamente provocou uma série de reações no meio do povo santo. Inicialmente, você foi atacado como alguém que se apropriou indevidamente de algumas músicas dos evangélicos. A gravadora que o contratou explicou que não conseguiu encontrar os autores. A versão é até plausível. Infelizmente, não consumimos CDs em grande escala, ao menos os que contêm músicas cristãs. Alguns alardeiam que somos mais de 30 milhões e, ainda assim, poucos CDs evangélicos rompem a casa de 30 mil cópias. Pouquinho, não é? Achados os compositores, creio que a assessoria de imprensa da gravadora não foi muito eficiente na divulgação dos pagamentos devidos. Pensando bem, talvez tenha sido melhor assim. O que os autores receberam de royalties é mais do que muitos compositores evangélicos já receberam após dezenas de canções gravadas. Se todo mundo ficasse sabendo das cifras, você receberia dúzias de novas letras para gravar (não seria de todo mau, porque, permita-me a franqueza, alguns amigos que ouviram o seu CD disseram que ele é de uma pobreza franciscana, para ficarmos nos adjetivos católicos). Depois, andei escutando algumas teorias sobre você representar o aríete de um contra-ataque católico contra o crescimento evangélico. Para isso, ela passaria a incorporar (no bom sentido) determinadas práticas de culto, especialmente pentecostais. Em relação às músicas, creio que isso seja besteira. O cristianismo, e não apenas a vertente evangélica, sempre foi conhecido como “a religião que canta”. Se a tese for verdadeira, Marcelo, aconselho-o a uma melhor assessoria, ao menos do ponto de vista musical. A onda cantante que invadiu atualmente as igrejas católicas recende a mofo, mais especificamente dos idos de 70. O som é tão moderno quanto os rauls. Gil e Seixas, no caso. Aliás, falando em arte, onde é que você foi se inspirar para elaborar aquelas coreografias tão criativas? O mais legal é a sincronia do gestual com a letra: quando se canta “erguei as mãos” você cismou que elas devem bater nos joelhos. Talvez funcione como aula de coordenação motora. Quando a mídia passou a chamar o passinho “um pra lá e um pra cá” de “aeróbica”, certamente foi uma festa para o pessoal da terceira idade, que agora consegue exercitar-se sem alterar os batimentos cardíacos. Os professores de academia não entendem nada, não é mesmo, cara? Na seqüência você foi acusado de ser muito “aparecido”, num adjetivo que remete à idolatria, assunto que não vou nem abordar hoje com você. Vou deixar de lado, só hoje, por falta de espaço, a veneração a Maria, a transubstanciação e mais uma pá de assuntos que fariam a festa de um apologeta versado nas Escrituras. A falta de intimidade com a Palavra sempre gerou uma série de confusões no seio romano. Ler avidamente a Bíblia e orar bastante já é algo alvissareiro. Pena que a versão usada da Palavra tenha os deuterocanônicos e que ainda se gaste prosa pedindo a mediação da nossa querida (porém, por nós nada idolatrada-salve-salve) Maria e outros “santos”. Há alguns meses, dois dos arautos da (in)cultura dominical brigavam pelo seu passe (também no bom sentido). Você simultaneamente erguia as mãos e, junto com elas, os índices de audiência. Aliás, sempre achei interessante o caso do apresentador que conheceu o sucesso com a música do passarinho (acho que descobri onde você arrumou seu coreógrafo!). O programa do moço emagrecido representa bem o sincretismo religioso que existe neste país abençoado por Deus (e bonito por natureza, apesar de certos políticos). Numa semana, ele mostra aquela senhora que sobrevive ganhando dinheiro com previsões mais furadas que o orçamento da classe média. Na outra, dá-lhe o cirurgião que não conseguiu extrair sequer o tumor de raiva de sua ex-mulher. Estranho, não é? É verdade que alguns artistas evangélicos também obtêm espaço. Infelizmente para ser colocados em exposição nas jaulas do zoológico miserável (pelo conteúdo e pelas intenções) do rapaz cujo apelido apropriadamente evoca algo diminuto. Em vários sentidos. Marcelo, você tem sido bastante acusado por incentivar a idolatria. Um coleguinha católico me lembrou que esse pecado não é exclusivo da igreja católica, pois têm encontrado guarida em algumas hostes (não confundir com hóstias) evangélicas. Pedi mais explicações ao atrevido fulano, e ele me disse que nunca ouviu explicações convincentes para a veneração ao papel moeda, tão em voga em alguns setores. Silenciei, confrangido. Continuando na linha “rasga-coração”, confesso que aprendi a algumas lições após o seu surgimento. Como compositor e marqueteiro juramentado, sempre vi com reservas os invólucros mercadológicos que passaram a ser utilizados em nossa música cristã. Há um bom tempo, cismaram que a música evangélica havia se convertido (sem trocadilhos) em música (um... dois... três...) gospel (a pausa é necessária para evitarmos o cacófato, tão infame quanto a deturpação semântica). Sempre soube que o termo se referia a um estilão característico e, de repente, a coisa virou febre. A tática produziu algum efeito, mas nada a ponto de catapultar a música cristã aos píncaros. Como parte da moda, a palavra “gospel” passou a ser utilizada para denominar um certo way of life. Algumas pessoas desinformadas acham “chique”. Inobstante a falta de habilidade com a língua portuguesa, saem atirando algumas perolazinhas em inglês. A última invenção é que louvor agora é “praise”. Felizmente no caso da palavra “culto”, optaram por “reunião”. Iria ser meio estranho convidar um amigo para participar do “service” dominical da igreja. Ou church, it’s up to you. Tudo bem, é questão de gosto. Mas aí aparece você, Marcelo. Que dor você provocou em mim. Não exatamente nos ouvidos, mas ao constatar que você não usou nenhum artifício no título de seu CD, sob o falacioso pretexto de “aumentar a aceitação do público em geral, diminuindo os níveis de rejeição”. Em lugar de um “canções para quem quer estar de bem com a vida”, você tascou, com todas as letras, “Canções para louvar ao Senhor”. E, pra corroborar minhas asserções, botou toda a subcasta que infesta as rádios (bandas calipígias, pagodeiros, neobregas e quejandos) no chinelo (se é que posso usar o termo; vou perguntar à Glorinha qual o tipo de calçado que combina melhor com uma batina). Que crueldade, rapaz. Mas teve mais uma lição, meu caro aeróbico. Um articulista disse, ao comentar sobre você, que a galera que freqüenta o Santuário do Terço Bizantino (nome espalhafatoso, hein!) é gente que poderia estar apinhando os templos evangélicos. Concordo com o moço. Existe uma enorme sede espiritual no meio do povo. Nossa gente é sofrida e não é fácil acreditar que o nosso destino seja esse contínuo mover (quase sempre pra baixo) que os políticos nos impingem. Só que você tem uma vantagem. Você consegue agregar uma quantidade incrível de pessoas, porque elas são simplesmente “católicas”. Não se dividem em “paróquia São José” e “paróquia Santa Gertrudes” com a rivalidade típica existente, por exemplo, entre palmeirenses e corintianos. Já no caso dos evangélicos... Mas, como diria o saudoso e imortal Odorico Paraguassu, vamos aos finalmentes. A onda parece que está no fim e a mídia continua sua incessante caça de novos catalisadores de audiência. Agora é a hora da verdade. Quem procurou uma moda vai cair fora rapidinho e logo, logo, o trigo será separado. E o joio vai arder, como diz a Palavra. Acredito que Deus não consegue se restringir a um espaço físico ou uma determinada denominação. Contudo, sei que ele é imiscível com algo que contraria o manual que ele deixou pra gente. Em todo o caso, cara, queria lhe dizer que você foi tremendamente usado para abençoar a minha vida. Esquadrinhar o case que você protagonizou foi legal pra aprender algumas lições, que agora compartilho com outros irmãos. Muito obrigado mesmo. Vou torcer para que vocês leiam muuuuuuuuuito a Bíblia. É a única possibilidade de o Senhor poder realizar TODOS (vou ser educado e não numerar — são muitos — alguns essenciais) os ajustes que forem necessários. Conte com minhas orações. Valeu aí, Marcelo. Um abraço do católico-apostólico-evangélico Sérgio Pavarini. P.S.: Que história é essa de virar candidato nas próximas eleições? Vê lá, rapaz!
![]() Sérgio Pavarini é jornalista e editor da Vidamix
pavarini@uol.com.br |
||||
![]() Editora Vida Ltda. |
Autorizamos a livre reprodução das matérias. Por gentileza citar a fonte e enviar um exemplar para arquivo. |