Ano 1 - nº 6 
15 de março a 06 de abril/99 
Folhetim
Os "Xaxados Y Perdidos" do violonista Carlinhos Antunes

Reprodução
Capa do CD "Paisagem Bailarina"

por Laura Campanér
borage@uol.com.br

Continua sendo uma rotina o fato da música brasileira gerar trabalhos extremamente belos que ficam totalmente desconhecidos do público. Quer dizer, o motivo disso acontecer é evidente: é mais fácil divulgar o lixo do que construir um nicho.

Fica assim uma "terra de ninguém", onde de vez em quando, encontramos um autor que se destaca mais entre os "xaxados y perdidos", o que geralmente acontece na linguagem da música instrumental, onde não há muito o que contestar quando o compositor é também um extraordinário instrumentista.

O CD "Paisagem Bailarina", o primeiro solo do violonista Carlinhos Antunes, 41, é mais um que engrossa a imensa lista de excelentes trabalhos gravados pelos talentosos músicos que temos em nosso país, aqueles que ainda estão dispostos a continuar insistindo numa ideologia. Sim, porque mesmo que eles digam o contrario, mesmo que no fundo eles não tenham consciência disso, é por pura ideologia que esses CDs saem da mente e das mãos desses músicos-compositores.

Apesar de ter sido lançado em 96, o CD merece ser comentado novamente porque além de ser interessante musicalmente e muito bem gravado, não soa datado. As composições são bem estruturadas e homenageiam outros instrumentistas, como o tema que abre o CD "Danza de Los Ritmos", que tem cada de seus três movimentos dedicados aos irmãos violonistas Badi Assad e os integrantes do "Duo Assad", Sérgio e Odair Assad.

O CD tem explicitas influências da música espanhola, mas também não esquece sua raiz brasileira, quando surpreende com a faixa "Saci-Pererê", dedilhada na viola caipira. Aquilo que o autor descreve como "Um certo saci boêmio, que aparece de noite, mas que ama a melodia matinal dos pássaros".

O tema "Xaxados Y Perdidos", onde aparentemente o autor se imagina tocando em um forró de Bombaim, é dedicado a Hermeto Pascoal. E assim Carlinhos Antunes vai desfilando suas homenagens musicais aos que considera grandes músicos, o que sem dúvida é verdade, como Egberto Gismonti e Toninho Horta. São reverências entre mestres. No mais é conhecer para crer.

"Paisagem Bailarina"
Carlinos Antunes
Paulinas-COMEP


Folhetim
por Fernando Calderón
borage@uol.com.br

"Apontamentos Para Corações Desesperados" - Melodrama imperfeito em ato único

Quando você ler esta carta já não estará mais aqui o autor. Foi chamado a um grande banquete no qual seria convidado de honra e não poderia deixar de comparecer. Todavia a falta de pressa e a relutância em aceitar o convite o fizeram refletir duas vezes se deveria ou não despedir-se adequadamente. Imaginou carros fúnebres, marchas e velas com senhoras chorando e crianças brincando desconfiadas, numa espécie de carnaval às avessas. O réquiem ressoaria por toda a cidade, quem sabe por todo o país, o que era ao mesmo tempo consolo e solidão.

No dia seguinte ao que fora servido o café, ao que as mães velaram e os moços lamentavam, não restaria do pobre diabo - assim seria conhecido e assim ficaria na memória - nada a não ser cinzas e tristes recordações. Porém, entre o ato de pegar a caneta e o ímpeto de escrever, um arrepio lhe cortou os ossos: e se tudo o que estivesse planejado não ocorresse? Quem garantiria tal festa? Para quem sobreviveria sua história? Não obstante essa série de pensamentos que lhe atormentavam a mente, não havia mais nada a ser desfeito. Sua encruzilhada chegava naquele momento onde a única perspectiva é o abismo, o precipício que se configura por todos os lados como uma ilha invertida.
E após algum tempo teimando em permanecer na visão, amarga, ácida, cortante, acabamos por nos acostumar com a paisagem, achá-la até simpática, concordar em pertencê-la e por fim desejá-la ardentemente.

Não foi esse o percurso lógico do infeliz -palavra repetida à exaustão pelas centenas de presentes à cena do glorioso desenlace. Cinematográfico. Ao invés disso, preferiu o silêncio. Estremeceu. Com a palidez de quem espera o que esperava com calma e um pouco de loucura no olhar, chegou mesmo a sorrir, a gargalhar com um êxtase poucas vezes experimentado, um misto de perplexidade e ódio, ódio contido numa confusão e efervescência de idéias contraditórias como num vidro embaçado que não conseguimos limpar. Teimou novamente em acreditar. Era noite e a morte é apenas uma carta de baralho, pensou.

Aos poucos, num processo lento que talvez correspondesse a épocas de um tempo desconhecido, foi desistindo de seu propósito. E resolveu parar para contar o acontecido. O que na verdade nunca ocorrera.
Quando você ler esta carta já não estará mais aqui o autor.

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