Os "Xaxados Y Perdidos" do violonista Carlinhos Antunes
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| Capa do CD "Paisagem Bailarina"
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por Laura Campanér
borage@uol.com.br
Continua sendo uma rotina o fato da música brasileira gerar trabalhos
extremamente belos que ficam totalmente desconhecidos do público. Quer
dizer, o motivo disso acontecer é evidente: é mais fácil divulgar o lixo do
que construir um nicho.
Fica assim uma "terra de ninguém", onde de vez em quando, encontramos um
autor que se destaca mais entre os "xaxados y perdidos", o que geralmente
acontece na linguagem da música instrumental, onde não há muito o que
contestar quando o compositor é também um extraordinário instrumentista.
O CD "Paisagem Bailarina", o primeiro solo do violonista Carlinhos Antunes,
41, é mais um que engrossa a imensa lista de excelentes trabalhos gravados
pelos talentosos músicos que temos em nosso país, aqueles que ainda estão
dispostos a continuar insistindo numa ideologia. Sim, porque mesmo que eles
digam o contrario, mesmo que no fundo eles não tenham consciência disso, é
por pura ideologia que esses CDs saem da mente e das mãos desses
músicos-compositores.
Apesar de ter sido lançado em 96, o CD merece ser comentado novamente porque
além de ser interessante musicalmente e muito bem gravado, não soa datado.
As composições são bem estruturadas e homenageiam outros instrumentistas,
como o tema que abre o CD "Danza de Los Ritmos", que tem cada de seus três
movimentos dedicados aos irmãos violonistas Badi Assad e os integrantes do
"Duo Assad", Sérgio e Odair Assad.
O CD tem explicitas influências da música espanhola, mas também não esquece
sua raiz brasileira, quando surpreende com a faixa "Saci-Pererê", dedilhada
na viola caipira. Aquilo que o autor descreve como "Um certo saci boêmio,
que aparece de noite, mas que ama a melodia matinal dos pássaros".
O tema "Xaxados Y Perdidos", onde aparentemente o autor se imagina tocando
em um forró de Bombaim, é dedicado a Hermeto Pascoal. E assim Carlinhos
Antunes vai desfilando suas homenagens musicais aos que considera grandes
músicos, o que sem dúvida é verdade, como Egberto Gismonti e Toninho Horta.
São reverências entre mestres. No mais é conhecer para crer.
"Paisagem Bailarina"
Carlinos Antunes
Paulinas-COMEP
Folhetim
por Fernando Calderón
borage@uol.com.br
"Apontamentos Para Corações Desesperados" - Melodrama imperfeito em ato único
Quando você ler esta carta já não estará mais aqui o autor. Foi chamado a um
grande banquete no qual seria convidado de honra e não poderia deixar de
comparecer. Todavia a falta de pressa e a relutância em aceitar o convite o
fizeram refletir duas vezes se deveria ou não despedir-se adequadamente.
Imaginou carros fúnebres, marchas e velas com senhoras chorando e crianças
brincando desconfiadas, numa espécie de carnaval às avessas.
O réquiem ressoaria por toda a cidade, quem sabe por todo o país, o que era
ao mesmo tempo consolo e solidão.
No dia seguinte ao que fora servido o café, ao que as mães velaram e os
moços lamentavam, não restaria do pobre diabo - assim seria conhecido e
assim ficaria na memória - nada a não ser cinzas e tristes recordações.
Porém, entre o ato de pegar a caneta e o ímpeto de escrever, um arrepio lhe
cortou os ossos: e se tudo o que estivesse planejado não ocorresse? Quem
garantiria tal festa? Para quem sobreviveria sua história? Não obstante essa
série de pensamentos que lhe atormentavam a mente, não havia mais nada a ser
desfeito. Sua encruzilhada chegava naquele momento onde a única perspectiva
é o abismo, o precipício que se configura por todos os lados como uma ilha
invertida.
E após algum tempo teimando em permanecer na visão, amarga, ácida, cortante,
acabamos por nos acostumar com a paisagem, achá-la até simpática, concordar
em pertencê-la e por fim desejá-la ardentemente.
Não foi esse o percurso lógico do infeliz -palavra repetida à exaustão pelas
centenas de presentes à cena do glorioso desenlace. Cinematográfico. Ao
invés disso, preferiu o silêncio. Estremeceu. Com a palidez de quem espera o
que esperava com calma e um pouco de loucura no olhar, chegou mesmo a
sorrir, a gargalhar com um êxtase poucas vezes experimentado, um misto de
perplexidade e ódio, ódio contido numa confusão e efervescência de idéias
contraditórias como num vidro embaçado que não conseguimos limpar. Teimou
novamente em acreditar. Era noite e a morte é apenas uma carta de baralho,
pensou.
Aos poucos, num processo lento que talvez correspondesse a épocas de um
tempo desconhecido, foi desistindo de seu propósito. E resolveu parar para
contar o acontecido. O que na verdade nunca ocorrera.
Quando você ler esta carta já não estará mais aqui o autor.
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