Ele já trabalhou em várias emissoras de rádio da capital paulista, como a
Rádio Jovem Pan, Rádio USP, Rádio Gazeta e atualmente a Rádio Trianon AM. É
bastante conhecido por seus comentários alfinetados sobre a música
brasileira do mercado atual, em sua coluna no jornal Movimento.
Sabá, que atuou como contrabaixista do Jongo Trio (conjunto que marcou
época nas rádios do Rio e São Paulo, em meados de 60), cujo trabalho é agora
relançado em CD, conta, entre outras coisas, que para fazer música usou até
bombacha ao se apresentar com o conjunto gaúcho Farroupilha, mesmo sendo de
Belém do Pará.
Borage: Porque você resolveu relançar o trabalho do Jongo Trio?
Sabá:: Inúmeras pessoas que sabiam de minha passagem pelo conjunto e por eu
estar trabalhando no rádio, ligavam me perguntando pelo Lp do Jongo,
querendo saber se algum sebo tinha um exemplar para vender. No começo eu
respondia que não tinha mais, pois o Lp saiu em 1965 com uma vendagem muito
expressiva e depois a etiqueta Farroupilha, que lançou o trabalho, fechou e
o disco sumiu. Mas era tanta gente a me perguntar sobre o Jongo, que me deu
a impressão de que havia ainda uma imagem bastante viva do Trio.
Além disso, um amigo que é dono de uma loja de disco, me estimulou a tocar
o projeto em frente, pois seus clientes também perguntavam muito pelo
disco. Por fim, com a insistência do Rui Castro e de outras pessoas comecei
a batalhar para passar o disco para o formato CD. Foi um pouco difícil pois
a matriz não existia mais. Tive que pegar um exemplar em Lp, remasterizar
para, só então, transforma-lo em CD. Foi feita uma redução da capa original
e a gravadora Mix House editou.
Borage: O que as pessoas que não conheceram o Jongo Trio vão encontrar
neste CD?
Sabá:: O trabalho é todo montado a três vozes com arranjos que na época
foram considerados ousados. A faixa de destaque é "Feitinha por poeta", de Baden
Powell e Lula Freire, que tem uma importância histórica para o trabalho.
Outras músicas que ficaram conhecidas na época são "Seu Chopin, Desculpe",
de Johnny Alf e "O menino das Laranjas", de Théo de Barros. Apenas três
músicas são instrumentais: "Eternidade" (Luís Chaves), "Garota Moderna"
(Evaldo Goulveia/Jair Amorim) e "Balanço nº 1" (Hermeto Pascoal).
Quem não conhece o Jongo, vai saber um pouco do acontecia na ocasião em que
a Música Popular Brasileira fervia. Nós surgimos em meio a essa situação,
onde a Bossa Nova já havia sido consagrada nos Estados Unidos e Sinatra já
havia gravado composições de Tom Jobim, onde os grandes festivais de música
que aconteceram entre 65 e 68, e de onde saíram os compositores que estão
aí até hoje como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque, contavam com o
apoio da juventude.
Borage: De quem foi a idéia de formar o Trio?
Sabá:: a idéia original do conjunto Jongo Trio foi de Antônio Pinheiro,
baterista e Cido Bianchi, pianista, dois músicos que trabalhavam em casas
noturnas de São Paulo, ou como a gente dizia, nas madrugadas.
Borage: E como vocês se reuniram?
Sabá:: O Cido, que trabalhava na boate Star Dust, no centro, e o Toninho,
que
trabalhava com o pianista Pedrinho Mattar, me convidaram para fazer um trio
com a intenção de participar dos festivais de Bossa Nova. A idéia do trio
era incluir vocalização, além dos instrumentos baixo, piano e bateria. Como
e eles sabiam da minha vontade de cantar, não como um cantor solista, mas
e
participar do vocal com pelo menos uma segunda voz, combinamos tudo e
começamos a ensaiar.
Borage: Já estavam se preparando para gravar?
Sabá:: Nós ensaiamos exaustivamente, cerca de 8 horas por dia, durante três
meses, para ter o repertório definido, mas até aí, não havia a exata
intenção de chegar ao disco. Porém quando pedimos ao produtor Moracy do Val
para participar com o nosso trio das noitadas de Bossa Nova no Teatro de
Arena, ele disse: "nós já estamos com o espetáculo completo, mas é possível
que vocês cantem uma música e depois o espetáculo continua".
Nós concordamos e naquela noite entramos e tocamos nosso número. Mas para
nossa surpresa e de outros também, a platéia não nos deixou descer do
palco sem que tocássemos todo o repertório, pois estávamos afiados, devido
aos ensaios. Nesse dia se deu nossa consagração pelo público.
Na semana seguinte fomos convidados a participar com Baden Powell, de um
show na boate Cave, na Rua da Consolação. Fizemos com Baden uma temporada
de
um mês. Foi onde ele nos deu a música "Feitinha pro poeta" (em parceria com
Lula Freire). Daí surgiu o convite para gravarmos um Lp pela etiqueta
Farroupilha, que pertencia a um conjunto vocal gaúcho.
No final da temporada na boate Cave, o Jongo Trio foi convidado para
participar de uma série de show no Teatro Paramont, onde iam se exibir o
cantor Jair Rodrigues e a cantora Elis Regina. Os dois estavam praticamente
em início de carreira. O Jair Rodrigues eu já conhecia, pois ele era
cantor
das madrugadas, mas a Elis Regina havia ganho, naquele ano, um grande
festival na cidade de Guarujá, no litoral paulista, com a música
"Arrastão",
chamando a atenção de todos.
Quando foi anunciado o show Jair Rodrigues acompanhado do Jongo Trio no
Teatro Paramont, o transito em frente ao teatro, que ficava na Av.
Brigadeiro Luís Antônio, ficou paralisado todas as noites de tanta gente
querendo assistir. Assim o Jongo Trio partiu para fazer shows com Elis
Regina em várias cidades, passando a ser o conjunto que a acompanhava.
Depois que o Jongo Trio se desfez, o Cido Bianchi, que era o pianista e
arranjador do Trio, fez um conjunto de baile que se chamava Jongo Quarteto,
ainda tentou lançar mais um disco. Mas o conjunto que marcou mesmo foi o
Jongo Trio, que fez realmente muito sucesso.
Borage: Você acha que ainda vai acontecer uma volta dessa música com
harmonia e melodia mais trabalhada?
Sabá:: Percebo que ainda existe um público para isso. Por exemplo, o Luís
Chaves, contrabaixista do Zimbo Trio, que pouca gente sabe é meu irmão,
mantém uma escola que trabalha com esse tipo de música e quando realiza a
apresentação final dos alunos, surpreende com a lotação da casa de shows
Tom
Brasil, aqui em São Paulo, onde são feitas as apresentações. Existe muita
gente interessada.
Borage: Como você vê a importância histórica do relançamento do Jongo Trio
dentro do mercado atual, sendo que o grande público não tem memória do que
aconteceu?
Sabá:: Realmente, a grande massa popular que foi conquistada para ouvir o
tipo de música atual e que não conhece a música feita nas décadas passadas,
perdeu a noção do que é essa música mais trabalhada. Mas eu tenho esperança
que essa música volte, pois tem muita gente estudando música. Existem
jovens compositores lançando trabalhos elaborados, mas o problema é que
estes trabalhos não estão sendo executados, pois ao redor do rádio e da
televisão existem pessoas que controlam todo o processo e não deixa essa
música aparecer.
Borage: Qual sua expectativa em relação ao CD?
Sabá:: No momento estou batalhando na divulgação do CD aqui no Brasil, mas
também estou fazendo contato com os Estados Unidos e Japão. No exterior as
gravadoras estão muito interessadas na música brasileira dessa época. Lá um
trabalho como esse chega a vender cerca de 200 mil discos, o que para nós
representa um novo mercado.
Bombacha: um tremendo contraste
O marco inicial de sua carreira foi em "Os gaviões do samba", um conjunto
regional de Belém do Pará. Mas foi aqui em São Paulo, em 54, que Sabá teve
a oportunidade de tocar com Johnny Alf, que segundo ele, "abriu os
horizontes para a música moderna de então, usando todas as possibilidades
de
acordes de nona, de décima primeira aumentada etc. Coisas difíceis de se
fazer e de serem compreendidas". Depois trabalhou com outros conjuntos
musicais, viajando para Lisboa e Chile, a procura de alguma coisa que não
sabia muito bem o que era, até encontrar o pessoal do Jongo Trio.
Suas andanças por diversos trabalhos diferentes resultaram em situações
inusitadas: "Quando eu estive tocando e cantando com o conjunto gaúcho
Farroupilha, precisei até vestir bombacha, num tremendo contraste pois eu
sou de Belém do Pará. Mas no Brasil isso é uma coisa fantástica. A gente
canta e toca de tudo e em qualquer lugar", conclui.