"Apontamentos Para Corações Desesperados" - Melodrama imperfeito em ato único
por Fernando Calderón
borage@uol.com.br
Quando você ler esta carta já não estará mais aqui o autor. Foi chamado a um grande banquete no qual seria convidado de honra e não poderia deixar de comparecer. Todavia a falta de pressa e a relutância em aceitar o convite o fizeram refletir duas vezes se deveria ou não despedir-se adequadamente. Imaginou carros fúnebres, marchas e velas com senhoras chorando e crianças brincando desconfiadas, numa espécie de carnaval às avessas. O réquiem ressoaria por toda a cidade, quem sabe por todo o país, o que era ao mesmo tempo consolo e solidão.
No dia seguinte ao que fora servido o café, ao que as mães velaram e os moços lamentavam, não restaria do pobre diabo - assim seria conhecido e assim ficaria na memória - nada a não ser cinzas e tristes recordações. Porém, entre o ato de pegar a caneta e o ímpeto de escrever, um arrepio lhe cortou os ossos: e se tudo o que estivesse planejado não ocorresse? Quem garantiria tal festa? Para quem sobreviveria sua história? Não obstante essa série de pensamentos que lhe atormentavam a mente, não havia mais nada a ser desfeito. Sua encruzilhada chegava naquele momento onde a única perspectiva é o abismo, o precipício que se configura por todos os lados como uma ilha invertida.
E após algum tempo teimando em permanecer na visão, amarga, ácida, cortante, acabamos por nos acostumar com a paisagem, achá-la até simpática, concordar em pertencê-la e por fim desejá-la ardentemente.
Não foi esse o percurso lógico do infeliz -palavra repetida à exaustão pelas centenas de presentes à cena do glorioso desenlace. Cinematográfico. Ao invés disso, preferiu o silêncio. Estremeceu. Com a palidez de quem espera o que esperava com calma e um pouco de loucura no olhar, chegou mesmo a sorrir, a gargalhar com um êxtase poucas vezes experimentado, um misto de perplexidade e ódio, ódio contido numa confusão e efervescência de idéias contraditórias como num vidro embaçado que não conseguimos limpar. Teimou novamente em acreditar. Era noite e a morte é apenas uma carta de baralho, pensou.
Aos poucos, num processo lento que talvez correspondesse a épocas de um tempo desconhecido, foi desistindo de seu propósito. E resolveu parar para contar o acontecido. O que na verdade nunca ocorrera.
Quando você ler esta carta já não estará mais aqui o autor.
O que o autor parou para contar?
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Líricas: René de França
"Descendo a Escada ao lado direito perto da porta não tem ninguém" *
Descendo a escada ao lado direito perto da porta
Não tem ninguém, não, ninguém
É sobre isso que eu quero falar
É sobre o espaço vazio que ninguém nota
É sobre os planos que deram certo
É a dor que eu não sinto, é o não estar puto
O alívio que devemos agradecer
A cada minuto
E se não tem ninguém perto da porta
Um a menos pra me atrapalhar, para me cobrar
Para me bater
Levante as mãos, e sei que as tem
agradeça a este amor tranqüilo
que não tem novidades
Ao estepe cheio na hora certa
Ao tombo que não levei
Descendo a escada ao lado direito perto da porta
Não tem ninguém, não, ninguém.
* Nessa letra falo sobre agradecer. Agradecer por aquilo que não aconteceu
ou não está acontecendo. Por alguém não estar com dor de dente ou por não
existir ninguém para te encher o saco.
Falo com uma certa ironia, porque se a gente não tem problemas, a vida vai
ficando monótona. É como "aquele amor tranqüilo que não tem novidades" e
que de tão tranqüilo, acaba virando pesadelo.
Esta letra não é um poema e por isso eu tive dificuldades em musicá-la. Um
dia num bar, entre uma cerveja e outra, eu li a letra para meu parceiro de
canções , Zé Terra. Ele fez uma música simples que resolveu bem a letra,
como se houvesse rimas e essa foi nossa primeira parceria.
Esta canção foi gravada no CD "Novos Caras da MP", pelo cantor e
compositor Zé Terra.
"Sapatos" * *
Par de sapatos comendo o couro
e mostrando o dedo
correndo parte desta vida pegue um
par de sapatos comendo o couro
é andar no alto sobre o salto
e ri da condição de
poder pisar no chão ie
o peito do pé de pedra é preto
Pedro é preto por inteiro
E soma ao seu caráter
O orgulho de ser engraxate
E ele não sabe soletrar
E ri da condição de
Pegar um livro e não ler
E toma a flanela de batuque
Pedro analfabeto é um astro
E brilha muito mais do que
O brilho de qualquer sapato.
**Fiz esta letra baseado na vivência de um menino engraxate, que apesar de
uma situação na sociedade de intensa luta contra a fome, o preconceito e
todas outras energias negativas que o submundo oferece, ele não deixa de ter
alegria, tirando proveito de sua situação de pé no chão e analfabeto. Quando
se tem fome perde-se também o poder de sonhar.
Na letra da música ele mantém seus sonhos, toma a flanela de batuque e vira
um astro que brilha mais do que o brilho de qualquer sapato.
Saiba mais sobre o autor:
René de França é guitarrista, violonista, cantor e compositor. Atualmente
desenvolve trabalhos musicais com o cantor e instrumentista Zé Terra. Atua
como guitarrista ao lado do cantor Kleber Albuquerque.