Cerimônias
por Rui Alão
ruialao@uol.com.br
"E, orando, não useis de vãs repetições, como os gentios, que pensam que por
muito falarem serão ouvidos. (...) Portanto, vós orareis assim: Pai nosso,
que estás nos céus..."
Mateus 6:7
Creio já ter dito que não vejo graça nenhuma em cerimônias. Não entendo esse
costume de articular gestos e palavras pré estabelecidos. Vejo neles um
desperdício: é como se já existissem antes de serem executados.
Talvez a cerimônia seja um resquício que temos do tempo cíclico, esse tempo
que se renova a cada grande respiração do universo. Ou talvez pelo
contrário, seja a suspensão do tempo, a repetição de algo, a reafirmação de
um gesto, para mostrar que ainda somos os mesmos. Não, não é correto falar
em suspensão do tempo, pois ainda existe a sucessão dos eventos mas, de
alguma forma, o tempo fica constrangido a alguns poucos de seus inúmeros
eventos. Nesse estranho momento (se é possível falar num momento) a linha do
tempo converte-se em redemoinho e perde-se sobre si mesma. É como se o tempo
se distraísse em devaneios próprios e deixasse os homens (os objetos, a
natureza, tudo) condenados à repetição.
Ou talvez a cerimônia seja um jeito (é o que sempre me dizem) de nos
sentirmos unos com o nosso passado, com tudo o que existiu antes de nós, mas
me pergunto se existirá utopia maior que a dessa união, já que tudo o que
fazemos é esquecer. Podem dizer então que a cerimônia pretende ser um
repositório (como o livro o é para a palavra) de gestos circunspectos com a
secreta tarefa de contrariar a tendência inevitável ao esquecimento. Nesse
sentido, a cerimônia seria uma espécie de enciclopédia dos gestos e das
intenções que se escondem por detrás deles. Se pensarmos nela assim, posso
ver aí alguma utilidade, mas desconfio seriamente de sua eficácia. A mera
repetição não assegura a permanência de sentido naquilo que se quer guardar,
mas só a permanência de sua forma. Se é freqüente ver alguém envergonhado ao
ensaiar gestos e palavras para alguma ocasião, é só porque não vê mais
conexão com o sentido do que ensaia.
A intenção que há por trás da cerimônia, considerando-a aí hermeticamente e
não como uma simples repetição involuntária, pode muito bem ser a de fazer
reviver o que foi feito desde o princípio. Seria, portanto, a herdeira
cartesiana e rígida das tradições e dos rituais dos povos antigos. Mas
quando leio Eliade desconfio também desta hipótese. Não consigo realizar que
os mitos universais e suas encenações (ou melhor, suas atualizações) vieram
desembocar nesses eventos aos quais assistimos hoje. A crença universal num
dilúvio, o rito de sacralização da terra, a idéia de que o mundo foi criado
de alguns poucos elementos, isso tudo não pode mais (essa é a minha
esperança) ser recuperado pelas cerimônias do mundo de hoje.
Imagino os milhares de gestos e expressões que se perderam assim que se
completaram, e não vejo as cerimônias os recuperando; antes pelo contrário:
elas condenam tudo à falta de originalidade. Talvez por isso o mais
interessante de um casamento seja o que contraria a monotonia nele
antevista. Revejo na memória os muitos casamentos, missas e formaturas a que
compareci e só me lembro do que, neles, não foi casamento, missa ou
formatura: o padre que esquece a ordem correta das palavras, as crianças que
pisam na cauda do vestido de noiva, os parentes inconvenientes, os bêbados,
os fotógrafos... Um dos componentes da beleza é, certamente, o surgimento de
algo legitimamente inesperado e espontâneo no meio de algo cuidadosamente
projetado e que já não tem muito de real.
Penso num sonho, contado por uma amiga.
Ela sonhou que assistia, do fundo de uma multidão, a uma espécie de
condecoração: uma mocinha de uns doze anos seria homenageada com uma
guirlanda de pequenas flores do campo; tudo acontecia num lugar enorme e
suntuoso, num clima de austero silêncio. Era uma cerimônia interminável -
como, aliás, todas nos parecem.
Ela lembra ouvir a tal menina declamar versos extensos, numa língua próxima
da sua, mas da qual só entendia os cognatos, ou o que pensava, na ocasião,
serem os cognatos.
A essa altura do relato parei um instante para me perguntar se alguém pode
pensar em cognatos num sonho, mas voltei ao relato concluindo que nada é
impossível num sonho de alguém que lida com línguas.
Enquanto a menina balbuciava textos supostamente belíssimos no centro do
saguão grandioso, a minha amiga, sonhando e sentindo-se desconfortável por
não entender aquela língua que todo o resto da audiência compreendia, olha
desolada para o chão e acha um papel pisoteado e sujo. Nele encontra o tal
texto da menina escrito em forma circular, sem começo e sem fim. Ouve então
com mais atenção e percebe com angústia que o mesmo texto recomeça a cada
cinco ou seis minutos, o que a faz pensar na hipótese de que este evento
sempre estivesse lá, sendo repetido desde o começo dos tempos. Sente pânico
na possibilidade de ficar presa para sempre naquela situação.
Mas nesse mesmo instante a menina termina o texto e anuncia que vai ler um
outro, curto porém sagrado, escrito na língua dos seus antepassados. Quando
começa, minha amiga percebe que a tal língua sagrada era a dela (ou seja, a
nossa) e que o texto era algo parecido com uma receita de bolinho de queijo
ou uma bula de remédio. Começa a rir, primeiro baixinho, depois gargalhando,
certamente por considerar pouco sagrado um texto desse numa cerimônia tão
grandiosa, ao que a multidão vira-se para ela, aquela multidão que agora
percebia estrangeira e insultada com o seu riso. Pensa em fugir mas as
pessoas a espremem até perder o ar. Ela é levada, contra a sua vontade, à
presença do sacerdote, que a olha com um ar severo mas paternal.
Ele tira a guirlanda de flores do campo da menina (a qual sai chorando em
outra língua) e a coloca na minha amiga, que por sua vez recita várias
vezes, e com várias entonações diferentes, a bula de remédio, ao que a
multidão responde com aplausos e com risos. Quando percebe que está, ela
também, repetindo indefinidamente o conteúdo da bula como a menina fazia
antes, acorda assustada e me liga em seguida para contar o sonho.
Tenho, da minha parte, certeza que mais da metade do sonho foi montado por
ela enquanto me contava, num exercício de pós produção, o que, aliás, não
lhe tira a originalidade.
Sonho em preparar cuidadosamente, caso encontre pessoas que pensam como eu,
uma cerimônia em que todos se comportem como crianças imprevisíveis e
brinquem uns com os outros.
Se a essência última da cerimônia é a repetição, pode-se dizer o mesmo da
música, dos jogos e da própria vida. Temas e variantes de temas,
apresentados e reapresentados, defasados, espelhados, levemente alterados,
mas sempre compostos de temas que reaparecem, que se repetem exaustivamente.
Talvez todo o horror que me ronda quando penso na hipótese do eterno retorno
venha dessa imagem: a de entender a vida como uma cerimônia, como algo que
já foi encenado infinitas vezes e que continuará sendo. Não sei se existe
imagem mais angustiante que a dessa eterna repetição, que vê no final dos
tempos um recomeço, essa imagem que enverga a linha reta do tempo em um
círculo, que faz com que a foz do rio de Heráclito seja também sua nascente.
Talvez tenhamos a pretensão da originalidade, assim como temos a da identidade.
Esta amiga que me contou seu sonho hoje me diz que, sempre que vê flores do
campo, pensa estar sonhando e tem a irresistível vontade de comprá-las,
botá-las na cabeça e declamar solenemente uma bula de remédio.
Se a vida, vista de longe, é esta cerimônia composta de cerimônias menores,
de minha parte, sonho também eu com uma cerimônia, mas improvisada e
displicente.