Nesta edição entrevistamos Marco Aurélio Olímpio, um fotógrafo apaixonado
por música e especializado em clicar shows e capas de CDs. Já fotografou
grandes estrelas da MPB como Maria Bethânia, Chico Buarque, João Bosco e
Bete Carvalho entre outros. Muitos cantores e músicos em começo de carreira
já passaram pelo clic de Marco Aurélio. Um fotógrafo a serviço da sua arte,
que acredita que fotografar é ter "pegada" e vê além da cena que ainda não
aconteceu.
O que é fotografar pra você?
Acho que o fotógrafo tem que estar envolvido com o que faz. Ele tem que se
identificar com o que faz. Tudo passa pelo crivo da identificação. Quando eu
vou fotografar um artista eu já escutei o CD, já tive referência da capa do
disco e tantas outras coisas, que vou para o show com uma idéia formada do
que eu quero captar daquele artista.
Nas minhas fotos eu nunca busco explorar algo que deprecie o artista. Ao
mexer com a imagem, o fotógrafo mexe com a vaidade da pessoa. Então não me
interessa um momento ruim do artista. Eu procuro enaltecer o artista, pra
mostrar o quanto o trabalho dele me faz feliz e a uma porção de gente.
Como você elabora suas fotos?
Eu namoro a cena. Não fico com a máquina no peito esperando uma cena
acontecer para depois clicar. Eu assisto o show no visor e pego cenas
relâmpagos, no momento em que acontecem. O visor é continuidade do meu
olhar, como se fosse uma lente de contato.
Quando faço fotos de músicos, que em geral são pouco retratados, vejo que a
relação deles com o instrumento é tão forte, tão concentrada, que geram
fotos belíssimas. Eu fico ali esperando. As vezes acontece de passar uma
cena, mas se a luz não está boa no momento eu não fotografo. Não gosto de
clicar a toa. Só clico quando tenho certeza de que vai dar boa foto. Eu
busco muito o acerto e um maior aproveitamento de meu trabalho.
Você gosta é de fotografar em PB?
Adoro. Acho a foto PB nostálgica. É um clássico. Tem toda uma relação de
tonalidades. A foto em cor é bonita, pois em geral já existe no show uma
concepção de iluminação. Mas a grande maestria é pegar essa concepção em cor
e traduzir para preto e branco, transformando o que é temperatura de cor,
em tons de cinza, preto e branco. É saber antes de fotografar, qual será o
resultado em preto e branco de uma luz vermelha ou azul, pois é totalmente
diferente da foto em cor.
Gosto de acompanhar todo o processo quando fotografo em PB, desde o clic até
a revelação, ampliação e arquivamento das fotos. Pra mim é uma coisa
religiosa. Tudo ali é sagrado. A pasta de arquivo dos negativos é a bíblia.
(risos)
Como você consegue fotografar o instante do artista?
Minha busca é fotografar momentos que o artista está em sintonia com seu
próprio trabalho. Existe um momento em que o artista não está fazendo um
show para seu público mas para si próprio. É esse o melhor momento para ser
fotografado. Seja na relação intima do músico com seu instrumento, seja a do
artista com o parceiro ou um convidado. É uma coisa que foge da realidade.
Acho que nesse momento o artista não está vendo nada. Ele está ali pelo
grande prazer de fazer o que faz. Acho que é nesse momento que o artista
sai da condição de mortal e vai para um nível mais elevado, representado
pelo palco que está numa altura superior. O artista ultrapassa a
estratosfera. A camada de ozônio pra ele é chão. (risos)
É esse o momento que eu busco fotografar.
Mas isso tudo é muito rápido. Seria como clicar mentalmente antes de clicar?
É. Isso e é tão engraçado que chego a conclusão que existem fotos que eu
tiro e outras que me são dadas. As vezes no meio de um trabalho eu começo a
sentir que alguma coisa especial vai acontecer. Acho que tenho um anjo da
guarda muito camarada. O cara gosta tanto de mim que bate nas minhas costas
e diz, vai ali que vai pintar um momento daqueles. As vezes estou
fotografando um show que tem dez fotógrafos de um lado e eu sozinho do
outro, e não é que a cena cai do meu lado? (risos)
São coisas que não se explicam.
Mas sei que nunca vou fotografar tudo em um show, documentando todas as
cenas. Se quisesse isso, faria um vídeo. Eu fragmento o espetáculo e tento
traduzi-lo da melhor forma possível, sabendo que quando termina um show,
aproveitei o máximo e levei ele pra casa.
Você tem algum trabalho que considera o mais querido de sua carreira até agora?
Acho todos especiais. É uma questão de estágio. Todos os momentos são
importantes. Mas é claro que tem show que me emociono mais, como no show que
fotografei o Silvio Caldas junto com Doris Monteiro, Miltinho e Noite
Ilustrada. Um mês depois o Silvio Caldas faleceu. Enquanto fotografava eu
sentia que estava clicando algo para a história da música, algo que ficaria
como imagem. Sentia que estava sendo privilegiado por estar ali. São
momentos únicos. Não se repetem mais. Nada acontece por acaso.
Eu faço assim porque acredito que estou contribuindo de alguma forma para a
música como um todo e para a própria carreira individual do artista,
registrando seus momentos.
Qual sua postura ao fotografar um show?
Me preocupa muito esse tipo de fotógrafo "pavão". O cara fica aparecendo
demais na cena que é do artista. Fica circulando na frente do palco e isso
incomoda o público e o artista. Isso me incomoda muito também. Pra mim é uma
questão de ética. O fotógrafo não faz parte do show. Eu respeito muito o
espetáculo.
As vezes estou fotografando um show, e a cena é tão silenciosa que eu não
clico para não quebrar a concentração o público e do artista. Prefiro perder
a cena do que estragar o espetáculo, ainda que perca uma ótima foto. Eu
estabeleci determinadas regras de trabalho que acredito serem corretas e que
até hoje não me trouxeram nenhum tipo de constrangimento.
Pra mim a fotografia não é um instrumento de ascensão pessoal. Ao contrário,
a fotografia é que me utiliza como instrumento. Eu estou a serviço da
fotografia e quero respeito ao profissional da fotografia, pois respeito o
que faço.
Fotos:
Elba Ramalho
Chico César
João Bosco
Ney Matogrosso
Beth Carvalho
Maria Bethânia