Festa e confraternização musical no som da banda Zomba
por Ricardo Barreto
Rbarreto@uol.com.br
Formada em fevereiro de 1997, a Zomba é uma banda inovadora dentro do
cenário musical brasileiro, trazendo um som influenciado por grandes
mestres da música negra e agraciado pelos vocais de Paula Lima, uma
cantora que carrega na voz incomparável a beleza do jazz e a energia do
soul. Fechando a química perfeita da Zomba - uma palavra africana que
soa como zombar e significa festa, confraternização - estão dois músicos
excepcionais: Cássio, no baixo mais que funk, e Curumim, responsável,
além da bateria, pelas composições e arranjos que transformam o som
desse grupo num trabalho de altíssima qualidade, como provam em seu
disco homônimo.
Apesar da história recente, a banda já conquistou admiradores de peso
e o vocal de Paula Lima já fez duetos com ícones como Jorge Benjor (com
quem participou do disco "23"), Fernanda Abreu (que já cantava com Paula
desde o Unidade Bop - o primeiro projeto de acid jazz brasileiro),
Sandra de Sá, Daúde, Marcelo D2, o legendário Skowa, Otto e, é claro,
Thaíde e DJ Hum, com quem gravou um dos maiores hits do hip hop
nacional, "Sr. Tempo Bom".
A entrevista a seguir foi realizada durante mais uma temporada da
banda, que já passou esse ano pelos palcos paulistanos do Crowne Plaza,
do Centro Cultural São Paulo e do KaBoom. Desta vez, no Blen Blen, a
Zomba falou com exclusividade e muito bom humor para a Borage sobre sua
trajetória, suas influências, música, sociedade e muito mais. Confira!
Começando pelo básico, como foi a formação da banda?
Cássio: Eu toco com o Curumim já há quase dez anos. Agente
fazia um som instrumental, um pouco de tudo: funk, blues, música negra
norte-americana em geral. Aí fomos melhorando, gravamos um CD demo, e
começamos a mostrar para as pessoas, até que ele caiu nas mãos do Bruno
Bona e do Celso Vilaça (produtores). Eles falaram: agente conhece a
Paula Lima, que tem tudo a ver com esse som. Então conhecemos a Paula e
...
Paula Lima: ... e eu fiquei encantada com as composições
deles, que já tocavam super bem. Na época eu fazia um trabalho solo, mas
que não estava saindo como eu queria. Quando eu ouvi os dois, eu falei:
eu quero cantar com vocês!
A formação da banda agora é o Cássio
(baixo), o Curumim (bateria e vocal) e eu, além das pessoas maravilhosas
que acompanham agente: o DJ Dri, o Guilherme no trompete, o Beto no sax
e o Chico no trombone; depois, o Ricardo que toca guitarra e o Gus nos
teclados. Agora deve entrar alguém na percussão, mas que agente ainda
não sabe quem é. É uma banda grande que funciona e dá certo.
E quanto às influências do grupo?
PL: Hoje em dia agente tem ouvido muita coisa brasileira. Por
exemplo, o Thaíde e Dj Hum que fazem um trabalho "black Brasil", muito
diferente do rap americano, eles têm outro tipo de influência. O som da
Fernanda (Abreu) e da Daúde é bem brasileiro, o Karnak também e até o
samba-rock.
C: A música brasileira às vezes não aparece tanto
no som quanto o Steve Wonder, por exemplo, que é uma referência muito
clara, mas funciona como uma busca de raízes. Não é tanto uma influência
sonora do tipo: Jorge Ben é fantástico, vamos fazer igual o cara. Não. É
mais uma coisa de pegar o clima. Olha as coisas que ele fala! O Gil em
Refavela; o Luiz Melodia!
PL: O Tim Maia em
Racional!
C: Fora um lance negro em nossa cultura que é o
folclore riquíssimo. Eu não me sinto competente ainda pra falar nem pra
usar isso como influência, mas pra mim é a raiz total.
O Nação Zumbi tocou aqui faz algumas semanas. Vocês acham que dá pra
fazer um som black usando ritmos como o maracatu, por exemplo?
C: Falar de influência regional em São Paulo é um pouco
complicado, porque agente está muito distante disso. Eu não nasci
ouvindo maracatu, apesar de descobrir que eu gosto muito da batida. Por
outro lado, eu acho que a cultura de rua é um lance contemporâneo
parecido.
PL: As pessoas cobram muito uma postura pra que
caminhe mais pra esse lado brasileiro, mas, morando em São Paulo, isso
não rola! O que acontece é que no rádio você vai poder ouvir pagode e
axé, depois no toca-fitas eu vou pôr uma Erica Baduh, aí tem o Free Jazz
com sons de tudo quanto é lugar e de repente eu ouço Farofa Carioca e
depois uma Nação Zumbi. É diferente do Chico (Science) que nasceu lá,
vendo o mangue. Aqui é asfalto, prédio, casa noturna tocando tecno.
Durante muito tempo houve uma resistência do mercado fonográfico ao
som black, que ainda acontece mas é menor. Para vocês, qual a explicação
para essa resistência?
PL: Eu acho que vem um pouco do público e em grande parte da
indústria (fonográfica), que tem como enfoque rapidez e dinheiro. A
música que te obriga a pensar um pouco mais, vai ser assimilada mais
devagar e o dinheiro vai entrar mais devagar. Ao mesmo tempo existe
ainda um público que ignora esse tipo de som, no sentido de não conhecer
mesmo, e outro que quer conhecer mas não encontra. E existe é claro o
público que encontra. O rap é um sucesso hoje em São Paulo; se eu fosse
dona de gravadora eu apostaria muito alto no estilo. Agora uma coisa que
o Cássio sempre diz é que tem muita verdade sendo dita naquela música e
a indústria se assusta com isso.
C: Fazer black music no
Brasil sempre foi um problema!
PL: E com isso as pessoas de
fora perderam pérolas pelo caminho ...
C: Por exemplo o
Cassião (Cassiano Ricardo), que nunca vendeu muitos discos, mas que fez
um som super importante ...
PL: ... uma prova disso é que hoje
várias pessoas regravam as músicas dele. Mas de um modo geral fazer
música black hoje é diferente; primeiro porque o número de fontes é
muito maior, segundo que não tem um foque no centro do Rio ou em São
Paulo, tomou conta do Brasil, com muita gente boa alcançando seu espaço.
Lá de fora, o que está entrando nesses ouvidos?
C: Bom, Laurin Hill foi e está sendo um CD marcante. Eu tenho
tido contato com algumas coisas de drum'n bass, de tecno, de big beat,
que é o que está rolando no momento. O que o Sly Stone fazia nos 70, a
galera está fazendo hoje correspondentemente, num lance totalmente
eletrônico.
PL: Além da Laurin, meu cdzinho da Erica Baduh
está sempre me rondando. Eu tenho ouvido também Lenny Kravitz e todo o
dia Farofa Carioca. Esses dias eu comprei o Jamiroquai novo, dois
antigos: um de jazz do Quincy Jones e outro do Luther Vandros, bárbaro!
E ainda um de uma mulher que chama Dana Lewis, por causa de uma música
que é assim ... (canto intranscritível)
E em relação a voz, em que fontes você bebeu?
PL: Isso vai de acordo com o que cada um escuta. No meu caso,
eu sempre ouvi muito jazz. Uma vez eu estava conversando com uma
produtora que me disse que às vezes eu coloco uma forma de cantar do
jazz - que é algo que já está em mim; não é pensado, é uma influência.
Mas isso tudo é muito estranho. Outro dia eu fui gravar uma música
com uma banda que chama Auto Lounge e no caminho passou no rádio
rapidamente a Banda Eva. Quando eu cheguei para cantar eu fiz uma coisa
do tipo aê aê aê (em um estilo soul), e não conseguia sair disso, porque
estava muito forte naquele momento ... é tão engraçado esse tipo de
influência ... sei lá!? (risos) A minha primeira influência foi mesmo o
Michael Jackson. Quando eu tinha uns doze anos de idade, naquela fase
que todo mundo escuta o mesmo som, surgiu de repente o Michael na minha
vida e aí eu queria mais e girava o dial atrás de música daquele tipo -
que eu nem sabia identificar o que era - mas não tinha. Depois eu
descobri a Anita Backer que foi a minha deusa. Logo que eu comecei a
cantar, eu imitava a Anita Backer, o que foi um problema depois para
conseguir desimitar. Mais tarde eu conheci a diva que permanece na minha
vida, maravilhosa, a Chaca Khan. E ela é escandalosa, eu gosto disso.
Pra mim, toda vez que eu posso subir (o tom da voz) é uma realização, aí
eu vou, eu solto ... E minha outra deusa é Ella Fitzgerald. São duas
cantoras que eu quero estudar mais afundo para sacar coisas que eu ainda
não saquei. Tem muita gente aqui no Brasil também, que eu tenho
descoberto e me influenciado, como a Rita Ribeiro que tem uma super
presença no palco e o Seu Jorge do Farofa Carioca, que encara
personagens quando está cantando.
No disco de vocês tem uma regravação de Criança, uma música que fez
muito sucesso com a Marina. Vocês acham que fazer uma releitura de um
som conhecido ajuda a criar uma identificação maior junto ao público?
PL: Com certeza. Também agora nos shows a gente tem tocado uma
versão de "Azul" do Djavan que está muito bonita. Eu acho que é legal
para o artista de repente "contar uma piada conhecida", pra que todo
mundo possa rir junto. E é claro, além da troca, são músicas que agente
gosta muito.
A presença do DJ, que não está nesse primeiro disco, é marcante
durante os shows. Vocês pensam em estender essa participação para o
próximo CD?
CA: Sem dúvida. Isso é uma coisa que está cada vez mais
integrada ao nosso trabalho.
PL: Também porque agente deu
muita sorte com o Dri que não é só um dj, ele é um instrumentista, então
ele sempre traz grandes sacadas. Nesse próximo CD que agente vai gravar,
não sei se independente ou por uma gravadora, mas que já está
borbulhando, nós queremos fazer umas vinhetas e usar bastante o trabalho
do dj.
Conta um pouco como foi a gravação do primeiro CD de vocês e como
estão os planos para o próximo.
CA: O primeiro foi feito totalmente na garra, no ímpeto de
gravar. Nós chegamos ao estúdio, mas não deu pra fazer tudo o que agente
queria por questões de tempo e de grana; agente acabou ficando um pouco
limitado. Mas foi uma experiência maravilhosa porque fizemos quase tudo
sozinhos. Agente aprendeu a gravar. Eu acho que o próximo vai ser bem
diferente.
PL: Eu tenho certeza. O primeiro CD foi muito
legal, todo mundo que ouve adora, mas para esse próximo as idéias estão
mais claras e vai refletir bem o que a Zomba é agora, já que faz um ano
e meio que agente gravou. Também nós estamos nos cobrando menos, então
ele deve sair mais relaxado.
E quanto a gravadoras. Existe alguma proposta?
PL: Existem algumas pessoas interessadas, parece que vai rolar
mesmo, mas eu ainda não sei por qual.
Mudando um pouco de assunto, vocês devem ter lido há algum tempo
atrás a entrevista que a Regina Casé deu para a Folha de S. Paulo,
falando sobre as diferenças do relacionamento entre classes no Rio e em
São Paulo. Eu queria saber se vocês concordam com o ponto de vista da
apresentadora de que os jovens da classe média paulistana são mais
preconceituosos e se a black music de alguma forma faz uma junção entre
essas duas realidades, já que a classe média começou a escutar o som que
já rolava na periferia e a procurar lugares onde tocava esse tipo de
música ...
PL: Eu acho que o rap deu uma junção nisso sim. O lance da
Regina eu acho que é uma questão dela não morar em São Paulo e não
conhecer como as coisas funcionam aqui. Eu posso ir 30 vezes pro Rio,
mas enquanto eu não morar lá eu não vou saber direito como é a vida ali
exatamente. Tem um lance do Rio que é muito legal que é de todo mundo se
encontrar na praia. Aqui em São Paulo, por ser tudo muito distante e
corrido fica difícil de você encontrar um amigo, o que vai muito além de
uma questão de empatia. Embora exista um preconceito, eu acho que está
se quebrando essa barreira.
CA: São Paulo ou Rio, o
preconceito é igual; é a mesma distância, é a mesma falta de
comunicação.
PL: Mas por outro lado tem uma coisa muito legal,
por exemplo, quando o Thaíde e DJ Hum fazem uma participação com agente.
De repente agente acha que o pessoal vai estranhar "Thaíde? Rapper?" e
pelo contrário, o pessoal adora.
CA: E a gente às vezes fica
com um pé atrás quando vai tocar com eles fora do circuito e quando
chega no lugar o pessoal adora e curte o balanço. O cara se identifica
com o som que está ouvindo e está gostando.