Ano 1 - nº 10 
24 de junho a 14 de julho/99 
  
Guinga: A música que não é apenas produto

por Laura Campanér
borage@uol.com.br

Reprodução
Capa do CD

Lançando seu quarto CD, "Suite Leopoldina", o compositor e violonista Guinga, tem opiniões bastante definidas sobre a MPB atual e encara a controvérsia do tema com uma ousadia própria de quem sabe o que está falando.

Com quarto CDs em sua discografia, "Simples e Absurdo", "Delírio Carioca", "Cheio de Dedos" e "Suite Leopoldina", recém lançado, Guinga, apesar de fazer um trabalho de caráter instrumental sempre inclui músicas cantadas em seus discos, feitas em sua maioria em parceria com o letrista Aldir Blanc. Estão entre os convidados do CD "Suite Leopoldina", Ed Mota, Chico Buarque e Lenine.

No show de lançamento do CD "Suite Leopoldina", ele leva ao palco do SESC Pinheiros em São Paulo (veja mais no final desta entrevista), uma redução do que foi gravado em CD, ao lado do saxofonista Proveta.

Com vocês: Guinga.

Como é o seu novo CD "Suite Leopoldina"?
É um trabalho instrumental, mas tem quatro canções com letra e um vocalize. Ao todo são cinco músicas com voz: "Chá de Panela" e "Mingus Samba" com o Aldir Blanc, "Guia de Cego", com o Mauro Aguiar, e "Parsifal", com o Nei Lopes. Alias esta é a primeira vez que componho com o Nei Lopes. Nossa parceria começou neste disco.

E o CD "Catavento e Girassol", gravado por Leila Pinheiro, só com músicas suas em parceria com Aldir Blanc, conta na sua discografia?
Considero como sendo meu trabalho também, como se fosse meu quinto disco. Talvez o que tenha atingido maior público, pelo fato da Leila ser uma cantora bastante conhecida.

Com esse trabalho da Leila o público ficou conhecendo o Guinga compositor de canções e não só o violonista?
Na realidade eu sou muito mais um compositor de canções do que um compositor instrumental. Eu sou circunstancialmente um compositor instrumental, mas o âmago da minha alma de compositor é a música com letra. Mas também gosto de me manifestar instrumentalmente.

E como nascem essas canções?
Eu componho antes a música. A letra vem depois. Sempre. Eu acho que a letra existe para uma música. Eu gosto de fazer a canção livre, depois o letrista coloca a letra em cima.

Mas como fica o letrista, se suas músicas tem desenhos melódicos tão variantes?
O letrista tem que "se virar". (risos)
Mas no meu caso, quem letra as canções é o Aldir Blanc, que é um gênio. Ele contorna o problema sempre bem. Ele arredonda tudo. O Aldir é essencialmente um letrista. É um homem que nasceu pra botar palavras nas canções. O Nei Lopes também. Os letristas que eu escolho são fenomenais. Eles tem que descobrir qual é a letra daquela canção.

O que você acha que a música brasileira atual está em crise?
Eu tenho a opinião de que a música brasileira está sempre bem, porque o Brasil é um país lotado de talentos. A música brasileira nunca passou por nenhuma crise. Isso não existe. Nunca existiu crise de criatividade ou de formação de talentos novos que surgem. A música brasileira nunca foi carente desse tipo de coisa. O Brasil é um país grande e com uma formação musical bastante sólida e nunca vai passar por isso. A crise que pode existir é dos meios de comunicação, que se interessam em divulgar um material que não é bom. Então não é crise do artista. Quem está em crise é o rádio, a televisão e o mercado fonográfico. Quer dizer, em crise artística, mas estão com os bolsos maravilhosamente bem.

Eu sei de uma frase, que não é minha, mas que resume bem tudo isso: "Depois que a música virou produto, ela foi tratada como número". Quer dizer, se o bumbum da garota está dando grana, é no bumbum que eles vão investir. Isso é um fato. Se o cara com o cabelo pintado de loiro está com pinta de pagodeiro e isso vende, é nisso que eles vão investir. Não interessa se o pagode que ele canta é ruim. O que interessa é que tem quinhentos mil conjuntos iguais, tocando no rádio vendendo disco e isso faz a fortuna de muita gente.

O único aspecto legal que eu vejo nisso tudo, é que isso ajuda a fazer a fortuna de rapazes que vem de uma classe bastante pobre e que estão realizando suas fantasias. Isso eu acho legal. O cara que era pobre e não tinha o que comer de repente está milionário. Eu também venho de uma família muito pobre, só que não sei fazer esse tipo de pagode e não pintei o cabelo de loiro, mas também gostaria de ganhar dinheiro com música.

O que você acha da recente extinção da rádio paulistana Musical FM, que tocava MPB e que deu lugar a transmissões religiosas?
Eu soube disso aqui no Rio e fiquei muito triste. Olha, eu não tenho nada contra essas igrejas. Eu sou um cara altamente religioso, vou à missa e tudo mais. Eu sou católico mas respeito todas as religiões. O que eu não acho legal é a confusão que isso causa. Hoje em dia o cara diz: "Eu vou à missa". Ai o outro comenta, "Ah, é mesmo? E ele responde; "É eu vou na sessão das seis" (risos).

O cara se acostumou a vida inteira a ir no cinema e agora ele vai na igreja como quem vai ver um filme. Eu quero que a igreja prolifere mas sem ter que fechar as salas de cinema e as emissoras de rádio que tocam boa música. A igreja tem o direito de proliferar, mas a boa música não pode morrer, nem a cultura do povo brasileiro, senão a gente vai continuar sendo um país de terceiro mundo mesmo, e isso é tudo que a gente não quer. É andar pra trás.

A cada dia as exigências do povo são menores, porque quem está acostumado a comer carne de terceira e nunca comeu carne de primeira, acaba achando a de terceira boa. Acontece que só é possível fazer uma distinção de qualquer coisa, a partir do momento que se tem dois parâmetros. Se você não conhece a música boa, como é que vai saber quem é quem. Se você só ouve aquilo, você acaba se manifestando apenas dentro daquele universo.

Mas falando sobre as coisas boas, a melhor maneira do artista insurgir contra esse mecanismo é fazendo boa música, fazendo boa arte. Este é o grande protesto do artista. E denunciar, sempre que possível.

Show de Guinga
Lançamento do CD "Suite Leopoldina" ao lado do saxofonista Proveta.
SESC Pinheiros
Av. Rebouças, 2876 - SP
Dia: 29 de junho
Horário: 21h00 - venda de ingressos a partir das 19h00
Preço: R$ 2,00 (comerc.) e R$ 4,00 (usuário)

CAPA BORAGE