Lançando
seu quarto CD, "Suite Leopoldina", o compositor e violonista Guinga, tem
opiniões bastante definidas sobre a MPB atual e encara a controvérsia do
tema com uma ousadia própria de quem sabe o que está falando.
Com quarto CDs em sua discografia, "Simples e Absurdo", "Delírio
Carioca", "Cheio de Dedos" e "Suite Leopoldina", recém lançado, Guinga,
apesar de fazer um trabalho de caráter instrumental sempre inclui
músicas cantadas em seus discos, feitas em sua maioria em parceria com o
letrista Aldir Blanc. Estão entre os convidados do CD "Suite
Leopoldina", Ed Mota, Chico Buarque e Lenine.
No show
de lançamento do CD "Suite Leopoldina", ele leva ao palco do SESC
Pinheiros em São Paulo (veja mais no final desta entrevista), uma
redução do que foi gravado em CD, ao lado do saxofonista Proveta.
Com vocês: Guinga.
Como é o seu novo CD "Suite Leopoldina"?
É um trabalho
instrumental, mas tem quatro canções com letra e um vocalize. Ao todo
são cinco músicas com voz: "Chá de Panela" e "Mingus Samba" com o Aldir
Blanc, "Guia de Cego", com o Mauro Aguiar, e "Parsifal", com o Nei
Lopes. Alias esta é a primeira vez que componho com o Nei Lopes. Nossa
parceria começou neste disco.
E o CD "Catavento e Girassol", gravado por Leila Pinheiro, só com
músicas suas em parceria com Aldir Blanc, conta na sua
discografia?
Considero como sendo meu trabalho também, como se
fosse meu quinto disco. Talvez o que tenha atingido maior público, pelo
fato da Leila ser uma cantora bastante conhecida.
Com
esse trabalho da Leila o público ficou conhecendo o Guinga compositor de
canções e não só o violonista?
Na realidade eu sou muito mais um
compositor de canções do que um compositor instrumental. Eu sou
circunstancialmente um compositor instrumental, mas o âmago da minha
alma de compositor é a música com letra. Mas também gosto de me
manifestar instrumentalmente.
E como nascem essas canções?
Eu componho antes a música. A
letra vem depois. Sempre. Eu acho que a letra existe para uma música. Eu
gosto de fazer a canção livre, depois o letrista coloca a letra em cima.
Mas como fica o letrista, se suas músicas tem desenhos melódicos
tão variantes?
O letrista tem que "se virar". (risos)
Mas no
meu caso, quem letra as canções é o Aldir Blanc, que é um gênio. Ele
contorna o problema sempre bem. Ele arredonda tudo. O Aldir é
essencialmente um letrista. É um homem que nasceu pra botar palavras nas
canções. O Nei Lopes também. Os letristas que eu escolho são fenomenais.
Eles tem que descobrir qual é a letra daquela canção.
O que você acha que a música brasileira atual está em
crise?
Eu tenho a opinião de que a música brasileira está sempre
bem, porque o Brasil é um país lotado de talentos. A música brasileira
nunca passou por nenhuma crise. Isso não existe. Nunca existiu crise de
criatividade ou de formação de talentos novos que surgem. A música
brasileira nunca foi carente desse tipo de coisa. O Brasil é um país
grande e com uma formação musical bastante sólida e nunca vai passar por
isso. A crise que pode existir é dos meios de comunicação, que se
interessam em divulgar um material que não é bom. Então não é crise do
artista. Quem está em crise é o rádio, a televisão e o mercado
fonográfico. Quer dizer, em crise artística, mas estão com os bolsos
maravilhosamente bem.
Eu sei de uma frase, que não é minha, mas que resume bem tudo isso:
"Depois que a música virou produto, ela foi tratada como número". Quer
dizer, se o bumbum da garota está dando grana, é no bumbum que eles vão
investir. Isso é um fato. Se o cara com o cabelo pintado de loiro está
com pinta de pagodeiro e isso vende, é nisso que eles vão investir. Não
interessa se o pagode que ele canta é ruim. O que interessa é que tem
quinhentos mil conjuntos iguais, tocando no rádio vendendo disco e isso
faz a fortuna de muita gente.
O único aspecto legal que eu vejo nisso tudo, é que isso ajuda a
fazer a fortuna de rapazes que vem de uma classe bastante pobre e que
estão realizando suas fantasias. Isso eu acho legal. O cara que era
pobre e não tinha o que comer de repente está milionário. Eu também
venho de uma família muito pobre, só que não sei fazer esse tipo de
pagode e não pintei o cabelo de loiro, mas também gostaria de ganhar
dinheiro com música.
O que você acha da recente extinção da rádio paulistana Musical
FM, que tocava MPB e que deu lugar a transmissões religiosas?
Eu
soube disso aqui no Rio e fiquei muito triste. Olha, eu não tenho nada
contra essas igrejas. Eu sou um cara altamente religioso, vou à missa e
tudo mais. Eu sou católico mas respeito todas as religiões. O que eu não
acho legal é a confusão que isso causa. Hoje em dia o cara diz: "Eu vou
à missa". Ai o outro comenta, "Ah, é mesmo? E ele responde; "É eu vou na
sessão das seis" (risos).
O cara se acostumou a vida inteira a ir no cinema e agora ele vai na
igreja como quem vai ver um filme. Eu quero que a igreja prolifere mas
sem ter que fechar as salas de cinema e as emissoras de rádio que tocam
boa música. A igreja tem o direito de proliferar, mas a boa música não
pode morrer, nem a cultura do povo brasileiro, senão a gente vai
continuar sendo um país de terceiro mundo mesmo, e isso é tudo que a
gente não quer. É andar pra trás.
A cada
dia as exigências do povo são menores, porque quem está acostumado a
comer carne de terceira e nunca comeu carne de primeira, acaba achando a
de terceira boa. Acontece que só é possível fazer uma distinção de
qualquer coisa, a partir do momento que se tem dois parâmetros. Se você
não conhece a música boa, como é que vai saber quem é quem. Se você só
ouve aquilo, você acaba se manifestando apenas dentro daquele universo.
Mas falando sobre as coisas boas, a melhor maneira do artista
insurgir contra esse mecanismo é fazendo boa música, fazendo boa arte.
Este é o grande protesto do artista. E denunciar, sempre que possível.
Show de Guinga
Lançamento do CD "Suite Leopoldina" ao lado
do saxofonista Proveta.
SESC Pinheiros
Av. Rebouças, 2876 -
SP
Dia: 29 de junho
Horário: 21h00 - venda de ingressos a partir
das 19h00
Preço: R$ 2,00 (comerc.) e R$ 4,00
(usuário)