Aconteceu um show com o
compositor e violonista Baden Powell no projeto instrumental do SESC
Paulista, no dia 21 de junho. Baden estava afiado com seu violão e
tocou, entre outros sucessos, temas da Bossa Nova como "Samba do Avião",
"Corcovado" e "Chega de Saudade" e temas de Dorival Caymmi.
O curioso da apresentação de Baden, escolhido pela revista "Isto É"
como um dos maiores talentos da música popular brasileira do século XX,
é que além de seus solos vigorosos no violão, ele contou, entre uma
música e outra, a sua versão da história música popular brasileira, em
cenas pitorescas recheadas de bom humor.
Com a vivência de um músico que hoje em dia quase não existe mais,
Baden ilustrou as músicas que tocou de Pixinguinha ("Naquele Tempo" e
"Carinhoso") e Vinícius de Moraes ("Samba da Benção" e "Samba em
Prelúdio"), com as seguintes histórias:
Pixinguinha, tinha um coração enorme. Contava que um certo dia ele
vinha voltando pra casa em uma rua escura e um ladrão o abordou e disse:
Passe suas coisas pra cá! E ele passou o dinheiro, depois o relógio, e o
ladrão falou: E essa caixinha? A caixinha era a flauta do Pixinguinha.
Ele ficou meio triste de perder a flauta, mas passou a caixinha pro
ladrão. O ladrão emendou: Agora acende meu cigarro.
Pixinguinha foi acender o cigarro do ladrão e nisso, a chama do
fósforo iluminou seu rosto. O ladrão tomou um susto: mas é você
Pixinguinha? Eu te conheço aqui do bairro, de suas serenatas por aí.
Você me desculpa, eu não sabia que era você.
O ladrão ficou sem graça e devolveu tudo pro Pixinguinha, que
respondeu muito obrigado, e já ia embora quando ladrão falou: não, não
... já que é assim vamos tomar uma cerveja.
Ai o Pixinguinha levou o ladrão pra tomar cerveja na casa dele!
... e ficaram tomando cerveja até de manhã ... e esse ladrão acabou
ficando compadre do Pixinguinha, que até batizou um filho dele ... e ele
nunca mais roubou.
Isso não é fantástico? Isso é Pixinguinha.
(...)
Numa tarde, na casa do Vinícius, toquei uma música pra ele e ele
falou: Vou botar uma letra nessa música. Eu falei: Tudo bem ... e nós
ficamos lá, bebendo e contando histórias um pro outro, fazendo um clima
pra começar a letra ... e fomos pela noite adentro, esvaziando as
garrafas. Quando chegou lá pelas três da manhã eu falei: Vinícius, cadê
a letra? E ele respondeu: Pois é, eu esqueci de te falar. Eu não vou
mais colocar a letra.
E eu respondi: Mas como? Eu estou aqui a um tempão e você não vai
fazer a letra? Olha eu sei que nós estamos bêbados, que já estamos
acendendo o cigarro ao contrario ... mas eu quero a letra.
Ele disse: Não, eu não quero mais fazer ... deixa pra amanhã ...
depois eu te explico. Eu disse: Não, isso é chantagem. Me explica o que
é que houve ... só estamos nós dois aqui ... não entrou nem saiu ninguém
... o que foi Vinícius?
Ele falou: Não, é que ... sei lá ... eu vou te dizer e mas sei que
você vai ficar chateado ... em todo caso é o seguinte: essa música que
você fez é plagio! ... aí eu falei: olha poeta, você bebeu demais e está
querendo implicar comigo.
E o Vinícius: não, você é que bebeu demais e fez essa música pensando
que é sua .. mas essa música já existe e é de outro compositor. Eu não
vou fazer a letra. Depois o pessoal vai dizer que essa dupla (Vinícius e
Baden), plagia os outros.
Eu disse: Plagiar o que, e quem? E ele: Isso é plagio sim, é Chopin.
Isso é um Noturno ou Prelúdio um de Chopin.
Aí a gente ficou naquela de é, não é, e ele falou: Então vamos
acordar minha mulher, que é pianista é conhece tudo de Chopin, e ela vai
te falar. Eu pedi: Não Vinícius, não acorda ela não que já é tarde. E
ele: Não rapaz ela não liga não, já está acostumada ...
Aí ela acordou ... veio na sala ... ouviu a música e falou: Que
música bonita. Toca de novo. E eu toquei. O Vinícius ficou bravo: Você
não vai falar nada. E ela: Falar o que? Mas até você está contra mim?
... Mas Vinícius, eu nem sei do que se trata, ela disse. E o Vinícius: É
que isso aí é Chopin, você não está vendo. Ela respondeu: Não, isso não
tem nada a ver ... não é Chopin. O Vinícius meio desconsolado falou: Bem
... então ... Chopin esqueceu de fazer essa!
E assim, tinha acabado de nascer o "Samba em Prelúdio".