Ano 1 - nº 10 
24 de junho a 14 de julho/99 

Histórias Cariocas contadas por Baden Powell

Reprodução

por Laura Campanér
borage@uol.com.br

Aconteceu um show com o compositor e violonista Baden Powell no projeto instrumental do SESC Paulista, no dia 21 de junho. Baden estava afiado com seu violão e tocou, entre outros sucessos, temas da Bossa Nova como "Samba do Avião", "Corcovado" e "Chega de Saudade" e temas de Dorival Caymmi.

O curioso da apresentação de Baden, escolhido pela revista "Isto É" como um dos maiores talentos da música popular brasileira do século XX, é que além de seus solos vigorosos no violão, ele contou, entre uma música e outra, a sua versão da história música popular brasileira, em cenas pitorescas recheadas de bom humor.

Com a vivência de um músico que hoje em dia quase não existe mais, Baden ilustrou as músicas que tocou de Pixinguinha ("Naquele Tempo" e "Carinhoso") e Vinícius de Moraes ("Samba da Benção" e "Samba em Prelúdio"), com as seguintes histórias:

Pixinguinha, tinha um coração enorme. Contava que um certo dia ele vinha voltando pra casa em uma rua escura e um ladrão o abordou e disse: Passe suas coisas pra cá! E ele passou o dinheiro, depois o relógio, e o ladrão falou: E essa caixinha? A caixinha era a flauta do Pixinguinha. Ele ficou meio triste de perder a flauta, mas passou a caixinha pro ladrão. O ladrão emendou: Agora acende meu cigarro.

Pixinguinha foi acender o cigarro do ladrão e nisso, a chama do fósforo iluminou seu rosto. O ladrão tomou um susto: mas é você Pixinguinha? Eu te conheço aqui do bairro, de suas serenatas por aí. Você me desculpa, eu não sabia que era você.

O ladrão ficou sem graça e devolveu tudo pro Pixinguinha, que respondeu muito obrigado, e já ia embora quando ladrão falou: não, não ... já que é assim vamos tomar uma cerveja.

Ai o Pixinguinha levou o ladrão pra tomar cerveja na casa dele!
... e ficaram tomando cerveja até de manhã ... e esse ladrão acabou ficando compadre do Pixinguinha, que até batizou um filho dele ... e ele nunca mais roubou.

Isso não é fantástico? Isso é Pixinguinha.
(...)

Numa tarde, na casa do Vinícius, toquei uma música pra ele e ele falou: Vou botar uma letra nessa música. Eu falei: Tudo bem ... e nós ficamos lá, bebendo e contando histórias um pro outro, fazendo um clima pra começar a letra ... e fomos pela noite adentro, esvaziando as garrafas. Quando chegou lá pelas três da manhã eu falei: Vinícius, cadê a letra? E ele respondeu: Pois é, eu esqueci de te falar. Eu não vou mais colocar a letra.

E eu respondi: Mas como? Eu estou aqui a um tempão e você não vai fazer a letra? Olha eu sei que nós estamos bêbados, que já estamos acendendo o cigarro ao contrario ... mas eu quero a letra.

Ele disse: Não, eu não quero mais fazer ... deixa pra amanhã ... depois eu te explico. Eu disse: Não, isso é chantagem. Me explica o que é que houve ... só estamos nós dois aqui ... não entrou nem saiu ninguém ... o que foi Vinícius?

Ele falou: Não, é que ... sei lá ... eu vou te dizer e mas sei que você vai ficar chateado ... em todo caso é o seguinte: essa música que você fez é plagio! ... aí eu falei: olha poeta, você bebeu demais e está querendo implicar comigo.

E o Vinícius: não, você é que bebeu demais e fez essa música pensando que é sua .. mas essa música já existe e é de outro compositor. Eu não vou fazer a letra. Depois o pessoal vai dizer que essa dupla (Vinícius e Baden), plagia os outros.

Eu disse: Plagiar o que, e quem? E ele: Isso é plagio sim, é Chopin. Isso é um Noturno ou Prelúdio um de Chopin.

Aí a gente ficou naquela de é, não é, e ele falou: Então vamos acordar minha mulher, que é pianista é conhece tudo de Chopin, e ela vai te falar. Eu pedi: Não Vinícius, não acorda ela não que já é tarde. E ele: Não rapaz ela não liga não, já está acostumada ...

Aí ela acordou ... veio na sala ... ouviu a música e falou: Que música bonita. Toca de novo. E eu toquei. O Vinícius ficou bravo: Você não vai falar nada. E ela: Falar o que? Mas até você está contra mim? ... Mas Vinícius, eu nem sei do que se trata, ela disse. E o Vinícius: É que isso aí é Chopin, você não está vendo. Ela respondeu: Não, isso não tem nada a ver ... não é Chopin. O Vinícius meio desconsolado falou: Bem ... então ... Chopin esqueceu de fazer essa!

E assim, tinha acabado de nascer o "Samba em Prelúdio".

CAPA BORAGE