Ano 1 - nº 11 
22 de julho a 10 de agosto/99 


Festa e confraternização musical no som da banda Zomba

por Ricardo Barreto
Rbarreto@uol.com.br

Reprodução

Formada em fevereiro de 1997, a Zomba é uma banda inovadora dentro do cenário musical brasileiro, trazendo um som influenciado por grandes mestres da música negra e agraciado pelos vocais de Paula Lima, uma cantora que carrega na voz incomparável a beleza do jazz e a energia do soul. Fechando a química perfeita da Zomba - uma palavra africana que soa como zombar e significa festa, confraternização - estão dois músicos excepcionais: Cássio, no baixo mais que funk, e Curumim, responsável, além da bateria, pelas composições e arranjos que transformam o som desse grupo num trabalho de altíssima qualidade, como provam em seu disco homônimo.

Apesar da história recente, a banda já conquistou admiradores de peso e o vocal de Paula Lima já fez duetos com ícones como Jorge Benjor (com quem participou do disco "23"), Fernanda Abreu (que já cantava com Paula desde o Unidade Bop - o primeiro projeto de acid jazz brasileiro), Sandra de Sá, Daúde, Marcelo D2, o legendário Skowa, Otto e, é claro, Thaíde e DJ Hum, com quem gravou um dos maiores hits do hip hop nacional, "Sr. Tempo Bom".

A entrevista a seguir foi realizada durante mais uma temporada da banda, que já passou esse ano pelos palcos paulistanos do Crowne Plaza, do Centro Cultural São Paulo e do KaBoom. Desta vez, no Blen Blen, a Zomba falou com exclusividade e muito bom humor para a Borage sobre sua trajetória, suas influências, música, sociedade e muito mais. Confira!

Começando pelo básico, como foi a formação da banda?

Cássio: Eu toco com o Curumim já há quase dez anos. Agente fazia um som instrumental, um pouco de tudo: funk, blues, música negra norte-americana em geral. Aí fomos melhorando, gravamos um CD demo, e começamos a mostrar para as pessoas, até que ele caiu nas mãos do Bruno Bona e do Celso Vilaça (produtores). Eles falaram: agente conhece a Paula Lima, que tem tudo a ver com esse som. Então conhecemos a Paula e ...
Paula Lima: ... e eu fiquei encantada com as composições deles, que já tocavam super bem. Na época eu fazia um trabalho solo, mas que não estava saindo como eu queria. Quando eu ouvi os dois, eu falei: eu quero cantar com vocês!
A formação da banda agora é o Cássio (baixo), o Curumim (bateria e vocal) e eu, além das pessoas maravilhosas que acompanham agente: o DJ Dri, o Guilherme no trompete, o Beto no sax e o Chico no trombone; depois, o Ricardo que toca guitarra e o Gus nos teclados. Agora deve entrar alguém na percussão, mas que agente ainda não sabe quem é. É uma banda grande que funciona e dá certo.

E quanto às influências do grupo?

PL: Hoje em dia agente tem ouvido muita coisa brasileira. Por exemplo, o Thaíde e Dj Hum que fazem um trabalho "black Brasil", muito diferente do rap americano, eles têm outro tipo de influência. O som da Fernanda (Abreu) e da Daúde é bem brasileiro, o Karnak também e até o samba-rock.
C: A música brasileira às vezes não aparece tanto no som quanto o Steve Wonder, por exemplo, que é uma referência muito clara, mas funciona como uma busca de raízes. Não é tanto uma influência sonora do tipo: Jorge Ben é fantástico, vamos fazer igual o cara. Não. É mais uma coisa de pegar o clima. Olha as coisas que ele fala! O Gil em Refavela; o Luiz Melodia!
PL: O Tim Maia em Racional!
C: Fora um lance negro em nossa cultura que é o folclore riquíssimo. Eu não me sinto competente ainda pra falar nem pra usar isso como influência, mas pra mim é a raiz total.

O Nação Zumbi tocou aqui faz algumas semanas. Vocês acham que dá pra fazer um som black usando ritmos como o maracatu, por exemplo?

C: Falar de influência regional em São Paulo é um pouco complicado, porque agente está muito distante disso. Eu não nasci ouvindo maracatu, apesar de descobrir que eu gosto muito da batida. Por outro lado, eu acho que a cultura de rua é um lance contemporâneo parecido.
PL: As pessoas cobram muito uma postura pra que caminhe mais pra esse lado brasileiro, mas, morando em São Paulo, isso não rola! O que acontece é que no rádio você vai poder ouvir pagode e axé, depois no toca-fitas eu vou pôr uma Erica Baduh, aí tem o Free Jazz com sons de tudo quanto é lugar e de repente eu ouço Farofa Carioca e depois uma Nação Zumbi. É diferente do Chico (Science) que nasceu lá, vendo o mangue. Aqui é asfalto, prédio, casa noturna tocando tecno.

Durante muito tempo houve uma resistência do mercado fonográfico ao som black, que ainda acontece mas é menor. Para vocês, qual a explicação para essa resistência?

PL: Eu acho que vem um pouco do público e em grande parte da indústria (fonográfica), que tem como enfoque rapidez e dinheiro. A música que te obriga a pensar um pouco mais, vai ser assimilada mais devagar e o dinheiro vai entrar mais devagar. Ao mesmo tempo existe ainda um público que ignora esse tipo de som, no sentido de não conhecer mesmo, e outro que quer conhecer mas não encontra. E existe é claro o público que encontra. O rap é um sucesso hoje em São Paulo; se eu fosse dona de gravadora eu apostaria muito alto no estilo. Agora uma coisa que o Cássio sempre diz é que tem muita verdade sendo dita naquela música e a indústria se assusta com isso.
C: Fazer black music no Brasil sempre foi um problema!
PL: E com isso as pessoas de fora perderam pérolas pelo caminho ...
C: Por exemplo o Cassião (Cassiano Ricardo), que nunca vendeu muitos discos, mas que fez um som super importante ...
PL: ... uma prova disso é que hoje várias pessoas regravam as músicas dele. Mas de um modo geral fazer música black hoje é diferente; primeiro porque o número de fontes é muito maior, segundo que não tem um foque no centro do Rio ou em São Paulo, tomou conta do Brasil, com muita gente boa alcançando seu espaço.

Lá de fora, o que está entrando nesses ouvidos?

C: Bom, Laurin Hill foi e está sendo um CD marcante. Eu tenho tido contato com algumas coisas de drum'n bass, de tecno, de big beat, que é o que está rolando no momento. O que o Sly Stone fazia nos 70, a galera está fazendo hoje correspondentemente, num lance totalmente eletrônico.
PL: Além da Laurin, meu cdzinho da Erica Baduh está sempre me rondando. Eu tenho ouvido também Lenny Kravitz e todo o dia Farofa Carioca. Esses dias eu comprei o Jamiroquai novo, dois antigos: um de jazz do Quincy Jones e outro do Luther Vandros, bárbaro! E ainda um de uma mulher que chama Dana Lewis, por causa de uma música que é assim ... (canto intranscritível)

E em relação a voz, em que fontes você bebeu?

PL: Isso vai de acordo com o que cada um escuta. No meu caso, eu sempre ouvi muito jazz. Uma vez eu estava conversando com uma produtora que me disse que às vezes eu coloco uma forma de cantar do jazz - que é algo que já está em mim; não é pensado, é uma influência.
Mas isso tudo é muito estranho. Outro dia eu fui gravar uma música com uma banda que chama Auto Lounge e no caminho passou no rádio rapidamente a Banda Eva. Quando eu cheguei para cantar eu fiz uma coisa do tipo aê aê aê (em um estilo soul), e não conseguia sair disso, porque estava muito forte naquele momento ... é tão engraçado esse tipo de influência ... sei lá!? (risos)
A minha primeira influência foi mesmo o Michael Jackson. Quando eu tinha uns doze anos de idade, naquela fase que todo mundo escuta o mesmo som, surgiu de repente o Michael na minha vida e aí eu queria mais e girava o dial atrás de música daquele tipo - que eu nem sabia identificar o que era - mas não tinha.
Depois eu descobri a Anita Backer que foi a minha deusa. Logo que eu comecei a cantar, eu imitava a Anita Backer, o que foi um problema depois para conseguir desimitar. Mais tarde eu conheci a diva que permanece na minha vida, maravilhosa, a Chaca Khan. E ela é escandalosa, eu gosto disso. Pra mim, toda vez que eu posso subir (o tom da voz) é uma realização, aí eu vou, eu solto ... E minha outra deusa é Ella Fitzgerald. São duas cantoras que eu quero estudar mais afundo para sacar coisas que eu ainda não saquei.
Tem muita gente aqui no Brasil também, que eu tenho descoberto e me influenciado, como a Rita Ribeiro que tem uma super presença no palco e o Seu Jorge do Farofa Carioca, que encara personagens quando está cantando.

No disco de vocês tem uma regravação de Criança, uma música que fez muito sucesso com a Marina. Vocês acham que fazer uma releitura de um som conhecido ajuda a criar uma identificação maior junto ao público?

PL: Com certeza. Também agora nos shows a gente tem tocado uma versão de "Azul" do Djavan que está muito bonita. Eu acho que é legal para o artista de repente "contar uma piada conhecida", pra que todo mundo possa rir junto. E é claro, além da troca, são músicas que agente gosta muito.

A presença do DJ, que não está nesse primeiro disco, é marcante durante os shows. Vocês pensam em estender essa participação para o próximo CD?

CA: Sem dúvida. Isso é uma coisa que está cada vez mais integrada ao nosso trabalho.
PL: Também porque agente deu muita sorte com o Dri que não é só um dj, ele é um instrumentista, então ele sempre traz grandes sacadas. Nesse próximo CD que agente vai gravar, não sei se independente ou por uma gravadora, mas que já está borbulhando, nós queremos fazer umas vinhetas e usar bastante o trabalho do dj.

Conta um pouco como foi a gravação do primeiro CD de vocês e como estão os planos para o próximo.

CA: O primeiro foi feito totalmente na garra, no ímpeto de gravar. Nós chegamos ao estúdio, mas não deu pra fazer tudo o que agente queria por questões de tempo e de grana; agente acabou ficando um pouco limitado. Mas foi uma experiência maravilhosa porque fizemos quase tudo sozinhos. Agente aprendeu a gravar. Eu acho que o próximo vai ser bem diferente.
PL: Eu tenho certeza. O primeiro CD foi muito legal, todo mundo que ouve adora, mas para esse próximo as idéias estão mais claras e vai refletir bem o que a Zomba é agora, já que faz um ano e meio que agente gravou. Também nós estamos nos cobrando menos, então ele deve sair mais relaxado.

E quanto a gravadoras. Existe alguma proposta?

PL: Existem algumas pessoas interessadas, parece que vai rolar mesmo, mas eu ainda não sei por qual.

Mudando um pouco de assunto, vocês devem ter lido há algum tempo atrás a entrevista que a Regina Casé deu para a Folha de S. Paulo, falando sobre as diferenças do relacionamento entre classes no Rio e em São Paulo. Eu queria saber se vocês concordam com o ponto de vista da apresentadora de que os jovens da classe média paulistana são mais preconceituosos e se a black music de alguma forma faz uma junção entre essas duas realidades, já que a classe média começou a escutar o som que já rolava na periferia e a procurar lugares onde tocava esse tipo de música ...

PL: Eu acho que o rap deu uma junção nisso sim. O lance da Regina eu acho que é uma questão dela não morar em São Paulo e não conhecer como as coisas funcionam aqui. Eu posso ir 30 vezes pro Rio, mas enquanto eu não morar lá eu não vou saber direito como é a vida ali exatamente. Tem um lance do Rio que é muito legal que é de todo mundo se encontrar na praia. Aqui em São Paulo, por ser tudo muito distante e corrido fica difícil de você encontrar um amigo, o que vai muito além de uma questão de empatia. Embora exista um preconceito, eu acho que está se quebrando essa barreira.
CA: São Paulo ou Rio, o preconceito é igual; é a mesma distância, é a mesma falta de comunicação.
PL: Mas por outro lado tem uma coisa muito legal, por exemplo, quando o Thaíde e DJ Hum fazem uma participação com agente. De repente agente acha que o pessoal vai estranhar "Thaíde? Rapper?" e pelo contrário, o pessoal adora.
CA: E a gente às vezes fica com um pé atrás quando vai tocar com eles fora do circuito e quando chega no lugar o pessoal adora e curte o balanço. O cara se identifica com o som que está ouvindo e está gostando.

 


  • o CD da banda pode ser encomendado pelo bip: 887-7722 / código: 1328585, ao preço de R$ 10,00
  • os Shows no Blen Blen acontecem todas as quintas-feiras, a partir da meia-noite, a R$ 10,00 ou R$ 5,00 com a carteira de estudante. O endereço é R. Inácio Pereira da Rocha, 520 - Pinheiros (tel.: 212-9333)
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