Engrenado com a volta do grupo "Capital Inicial" (veja o site
http://www2.uol.com.br/capitalinicial) e com o nascimento de sua filha
Giulia, Dinho Ouro Preto fala de seu amadurecimento pessoal e das idéias e
bandeiras quelevanta, discutindo música e brasilidade.
Com vocês: Dinho.
Como foi sua formação musical ? O que você ouvia, e que foi referência pra
sua "memória auditiva"?
Eu ouço rock desde que eu me conheço por gente. O primeiro disco que eu
comprei na minha vida, com o meu dinheiro, do tipo fui na loja e pedi, foi
Jimmy Hendrix ao vivo. Eu tinha 12 anos. Meus pais ouviam músicas da
Tropicália, da Bossa Nova, Baden Powell, mas também ouviam Joan Baez e Bob
Dylan. Por isso, mesmo a música que veio de meus pais pra mim, sempre foi
mesclada com música estrangeira. Mas rock é o que eu conheço mais. Eu não me
sinto bem navegando em outros mares, no sentido de fazer comentários sobre
outro estilo musical. Mas por alguns caras, como João Gilberto, Baden
Powell, Tom Jobim que, por causa de meus pais, eram maiores que a vida, era
assim um respeito religioso. Eu que morei muitos anos fora do Brasil, vi o
prestigio que esses caras tem.
O que você acha dos movimentos musicais que o Brasil teve?
Em parte eu acho uma injustiça que se faça uma espécie de hierarquia de
valores dentro da música popular brasileira. As pessoas que defendem essa
teoria, tendem a colocar a Bossa Nova e a Tropicália acima da Jovem Guarda
ou acima do Rock brasileiro. Acho que a "inteligência brasileira" tende a
fazer um julgamento de importância, de hierarquia dentro da música popular
brasileira, que eu discordo.
Que o Brasil é um país multi-étnico, e é até redundante falar isso, todo mundo sabe, mas por isso mesmo as diferenças na sua cultura são equivalentes.
Olha, o que vou dizer pode até soar herético, mas eu acho que o rock, a
música sertaneja, ou o pagode, são equivalentes em importância, dentro da
música popular brasileira, tanto quanto a Tropicália e a Bossa Nova. Acho
essa discussão muito boa e pouco debatida.
Tenho levantado essa bandeira porque acho injusto ter uma hierarquia. Não
quero com isso ser mal interpretado e não quero dizer que isso é mais
importante do que aquilo e apenas reorganizar essa hierarquia. O que eu
quero discutir, é que não deve existir uma hierarquia e sim uma equivalência.
Mas porque você começou a discutir essa questão de uma hierarquia musical?
Eu comecei a pensar nesse assunto lendo textos onde a agressividade estava
mais que presente, como por exemplo os do Ariano Suassuna. Apesar de eu ter
uma admiração imensa por ele, achei seus comentários sobre cultura, de um
fascismo inacreditável.
Eu não quero repetir os mesmos erros que ele e tentar simplesmente mudar a
ordem de uma hierarquia de valores culturais. Sei do imenso valor o folclore
brasileiro. Eu só acho que as coisas são equivalentes entre si, e que não é
só o folclore que é importante ... olha, o que eu sinto nas entrelinhas do
que ele diz, é o seguinte: quanto mais você é imbuído do folclore
brasileiro, mais legítimo você é, e que portanto, você é melhor. Mas é
justamente isso que eu não concordo. É essa visão do Brasil que eu discordo.
Na minha opinião, essa idéia aparece como se fosse um status quo dentro da
"inteligência brasileira", ou digamos, das pessoas que contam a história da
música popular, como se fosse uma verdade, verbalizada ou não, da qual todos
concordam. E eu discordo disso.
Pra mim é muito importante falar desse assunto e acho curioso que ele não
venha mais à tona. É um tema complexo, profundo, e até não me acho a pessoa
mais adequada pra estar discutindo, porque sinto que me faltam instrumentos
adequados para debater, por eu não ser um sociólogo ou um antropólogo. Mas
ao mesmo tempo, eu falo o que sinto.
Em outras entrevistas você tem levantado esse tema. Quando você fala isso,
você está olhando para sua carreira, para o movimento do Rock do qual você
faz parte?
Eu parto do seguinte princípio: eu sou brasileiro. Cresci no Brasil fazendo
e ouvindo rock com outros brasileiros como eu. Eu não sou alienado. Eu
simplesmente tento verbalizar o que eu sinto em relação a tudo isso, e que
eu entendo como uma injustiça. Eu me sinto de uma certa forma julgado.
Talvez porque a geração do rock da qual eu participo, que está agora com
seus 30 anos, e que apareceu no mercado há pelo menos dez ou quinze anos, já
tem história suficiente para olhar pra trás e tentar entender o que foi seu
legado. Acho que foi por isso que essa discussão veio à tona na minha cabeça.
Você faz isso em nome do Rock, pelo famoso dom de contestar?
Em nome do Rock mas em benefício de todos.
Pra mim essa necessidade de defender uma opinião, é antiga. Começou dentro
da universidade, porque vários músicos de Brasília eram filhos de
professores, e sempre tivemos que lidar com esse tipo de crítica, pois
éramos acusados de colonizados, vítimas do imperialismo cultural americano,
o que era mentira.
Mas isso não é uma discussão político-partidária. Pelo contrário, quem nos
acusa disso tende a ter, em última análise, comportamentos que beiram ao
fascismo, dizendo que existiria um discurso legítimo, oficial, único, e que
evidentemente, seria o deles e não o nosso.
Você vê essa discussão como uma coisa abrangente?
Eu vejo pequenas pontas de ice bergs a respeito dessa discussão, como por
exemplo a polêmica que a Regina Casé provocou com sua entrevista para a
Revista da Folha. Na minha opinião essa discussão, e outras como a de Ariano
Suassuna, revolvem sobre o mesmo assunto que é: o que é ser brasileiro?
Por exemplo, a Regina Casé se enfurece com a hegemonia paulista, porém não a
incomodava a hegemonia carioca que era exercida até bem pouco tempo atrás. E
aí eu pergunto, será que alguma região do Brasil tem direito de ter
hegemonia sobre as outras? Será que essa hegemonia não é massacrante, seja
lá de onde ela vier? É essa a conclusão verdadeira. Acho legítimo a Regina
ter levantado essa lebre, só que a conclusão é errada. A conclusão é que
nenhum estado deve prevalecer sobre os outros. E que todo estado brasileiro
é em si um microcosmo. Pra mim é errado qualquer um dos estados brasileiros
tentar forçar a barra sobre os outros.
Você acredita nas diferenças?
Tem uma grande diferença entre o Brasil de hoje e do passado. Pesquisando
sobre o censo brasileiro, descobri que o primeiro foi em 1900, e que a
população de então era de vinte milhões de pessoas. E hoje a realidade é outra.
Ou seja, essa visão de Brasil, que associa a Tropicália à Bahia e a Bossa
Nova ao Rio de Janeiro, tende a achar que naturalmente eles mereceriam a
hegemonia, porque eles representariam o Brasil mais folclórico e mais
legítimo, e isso é, na minha opinião, uma visão arcaica do Brasil. É o
Brasil luso-africano e portanto, não vale mais. Não para o resto do Brasil.
Não para São Paulo.
Se quisermos ver, em vários quesitos, São Paulo é diametralmente o oposto
disso tudo: é continental, é urbano, é feito de imigrantes e tem muito mais
dinheiro. É justamente o contrário do Brasil "Jorge Amado", que muitos tomam
como sendo o Brasil verdadeiro.
E quem representaria o Brasil culturalmente?
Quando se trata de brasilidade eu discordo dessa visão porque, e esses
italianos, japoneses, libaneses e judeus que vivem no Brasil, o que eles
são? Eles contribuíram para fazer um outro Brasil, e que não é esse Brasil
do interior de Pernambuco de Ariano Suassuna.
Veja, eu acho ótimo o folclore e acho que tem que ser preservado, mas não é
só isso. Na verdade eu luto contra a simplificação do conceito que alguns
fazem do que é a cultura brasileira.
Alguns procuram, quase como um Santo Graal, definir a cultura brasileira
como sendo uma mistura de Europa com Brasil e assim chegar a uma síntese do
seria a brasilidade. Eu argumento que isso não existe. O Brasil são várias
coisas. Isso é uma tentativa de simplificar o Brasil, que é injusta e
intelectualmente falsa. Eu acho que essa discussão é ótima e que precisava
estar mais viva. Todos devem ter uma opinião diferente a respeito, porque
afinal de contas todos ouvem coisas diferentes.
Acho que os sertanejos devem ter voz, os pagodeiros devem ter voz, a música
erudita deve ter voz, que quem faz reggae deve ter voz, pois se faz de tudo
no Brasil. E, na minha opinião, de modo legítimo, pois nós não somos uma
sociedade única etnicamente, como o Japão por exemplo, onde se pode ver,
nitidamente, o que é estrangeiro e o que é do povo japonês. Aqui a gente
não consegue fazer essa distinção, e portanto, tudo é legítimo.
Fale com o Dinho:
capitalinicial@uol.com.br