Lobão, 41, esteve em São Paulo apresentando um show sentado em um banquinho e acompanhado apenas por violão. Não, nada mudou no estilo do cantor e compositor, que está preparando material inédito para seu site na Internet. Em entrevista concedida minutos antes de uma das apresentações na cidade, Lobão mostrou que permanece buscando o que chama de "movimento rock'n'roll", que nem sempre está ligado ao estilo marcado por guitarras nervosas e volume alto. Política, direitos autorais, Gil e Caetano também foram avaliados pelo cantor, que vê na banda santista Charlie Brown Jr. um exemplo de postura rock. Lobão não poupa os roqueiros da sua geração, os quais acusa de admitirem atitudes covardes na construção da história cultural brasileira. Leia abaixo alguns trechos da entrevista:
O que aconteceu com o rock que movimentou o país nos anos 80?
Lobão - Aquilo que chamam de "a geração dos 80 no Brasil", como eu sempre disse, não podia ser tachado de rock. Não porque eu não goste de rock. Veja, por exemplo, o que aconteceu quando começaram a pintar as premiações, o Prêmio Shell, o Prêmio Sharp. E aí começou haver uma coisa ruim, um apartheid musical. Um lance dividindo MPB, pop, rock... Eu dizia que a gente não podia ir lá, não vou lá. E os caras vinham com aquela de "eu tô do lado do Caetano e do Gil". Tá, mas se tem o Caetano e o Gil e eu tô num segmento diferente, não consigo entender. Faço parte da mesma história. Eu não admito uma enciclopédia botar lá "Lobão: rock". Não é assim. Eu usei o estilo musical rock pra contestar um estilo vigente na música popular brasileira. Mas tem muita gente que diz que é roqueiro e aí vira anúncio de iogurte. O rock que eu penso, a essência dele, é a frase do Dylan Thomas, ou seja, as pedras que rolam não criam limo. Movimentação. Isso é moderno. Não há nada mais arcaico do que esse comportamento neoliberal que alguns ditos roqueiros exibiram no passado e voltam a exibir hoje.
Mas esse comportamento é anterior ao rock dos 80.
Lobão - Sim, mas não pode ser admitido por quem diz que está fazendo um movimento novo. Tem que parar com isso. O músico tem que encontrar maneira para sobreviver com dignamente. Por que ao invés de vender iogurte, por que não vai para o Congresso Nacional lutar para que haja número de série nos discos? Lutar para ganhar direito autoral, para fazer uma música decente?. Eu vou escrever um livro e vou ganhar dinheiro com o meu livro, eu vou fazer um disco e vou ganhar dinheiro com o disco. Não vou ficar exibindo a minha cara para depois fazer propaganda e aí ganhar dinheiro. Assim fica tudo perdido, confunde as pessoas.
E por que você acha que os músicos não lutam pelos direitos autorais?
Lobão - Pura covardia né, cu na mão. Eu sofro disso também. Você acha que eu não tenho medo de não ter onde cair morto? Tenho, claro que eu tenho, inclusive só é corajoso aquele que tem medo, porque aquele que não tem medo e faz é inconseqüente. Eu me arrisco porque sei que vou suportar com galhardia a derrota, se caso houver. E uma eventual vitória jamais será comemorada com abuso. Sei respeitar meus inimigos.
E como se pode chegar a essa vitória?
Lobão - Eu gostaria que tivesse mais adesões. Eu, por enquanto, sou um sozinho. Pelo menos entre os artistas da minha geração. E eu sempre me senti muito desconfortável ao lado de alguns personagens da minha geração. Continuo vendo que eles têm uma atitude patética diante disso tudo.
O que é isso tudo?
Lobão - Os caras da minha geração se colocam como um subproduto. Eu uso o rock como o samba. É uma coisa telúrica, é uma coisa animal. Eu quero ser melhor, eu quero coisas novas. Agora, isso requer um pouco de virilidade, como também tem de ser doce, terno. Mas a minha geração não tem isso. É uma complacência vil. Eu vejo determinadas pessoas dizendo coisas e até me incluindo... tem uns que dizem até que são meus fãs. Aí eu penso assim: pô, que tarefa inglória. Eu correr o risco de me tornar um vilão, um indelicado e dizer "olha, fã é o caralho. Você é meu ladrão, você me deteriora porque me copia mal, me cita mal e usa meu nome em vão. Não me reverencie, faça sua cagada sozinho. Se você for meu fã, vem falar comigo. Eu tô aqui à disposição"
Eu tô há anos querendo falar com as pessoas. Mas esses caras me evitam. Me vêem num lugar público e saem. Mas eu tô disposto. O Caetano fala comigo. Eu abraço e beijo o Caetano. Também respeito o Gil. Mas tenho a maior vergonha dessas pessoas da minha geração. Exceto o Roger (Ultrage à Rigor), que pra mim é o Adoniran Barbosa atual, talvez até mais representativo. E está aí, trabalhando, como eu. Só que eu não vou ao Gugu Liberato, não vou ao Raul Gil, não posso ir. Eu tenho 41 anos, porra. Inventem um programa pra eu ir. As pessoas que vão aos meus shows, que querem me ouvir, não querem me ver no Faustão, no Raul Gil. E para a maioria das pessoas, se você não toca em novela e não vai ao Faustão, não existe. E eu existo, tô aqui, porra, trabalhando.
Mas Caetano se apresenta no programa do Faustão e no Gugu.
Lobão - Olha, costumo dizer que o Tropicalismo era uma coisa antagônica, e foi um movimento de inspiração histórica. Mas você não pode ser um assecla do Caetano por isso. Eu não me permito isso. Fico muito feliz quando leio por aí "Caetano X Lobão". Ótimo. Agora estamos no mesmo patamar. Daqui a pouco a gente vai virar companheiro. Podemos até fazer uma música juntos. Mas por enquanto o terreno é de antagonismo, porque tem de ser. Porque senão a gente não se estabelece. Quem não se desloca, não tem preferência. Isso é uma regra universal.
Acontece que algumas pessoas, por falta de auto-estima, porque não cresceram, por falta de talento ou porque têm uma má formação dentro desse setor que se submetem, viram assecla do Caetano ou do Gil. Politicamente e historicamente não tá certo isso. Qualitativamente eu acho que o Gil é um puta músico, poeta e tal. Mas eu, pessoalmente, simpatizo com Caetano e antipatizo muito com Gil. Acho o Gil um canastrão. Eu não consigo ver o Gil falando. Como é que pode usar essa maneira afetada de falar. Ele não tem naturalidade nenhuma. Eu será que eu é que estou sendo muito áspero com Gilberto Gil? Ele é inteligente, mas é canastrão. Ele bota a mão na cabeça de Orlando Moraes e diz que é gênio. Acho ótimo isso, porque é um equívoco didático que me possibilita dizer "olha só, um cara que diz que o Orlando Moraes é gênio não tem muita clarividência no que tá falando sobre esse aspecto que eu estou querendo enfocar. Então vamos ao aspecto, por favor?" Aí já destruí o cara parcialmente. É isso que eu quero fazer.
É isso que você quer fazer artisticamente?
Lobão - É o que eu tenho feito. Componho muito. Tenho um disco prontinho. Estou experimentando novos sons, mexendo com eletrônicos, pesquisando. Enfim, estou trabalhando, fazendo o meu lance, que é música. Qualquer um pode comprovar isso, já que estou me apresentando ao vivo e mostrando parte desse novo repertório. Agora, as empresas que estão aí para lançar discos para que as pessoas possam ouvir, essa gente que vive de divulgar a produção artística, eles é que têm de conviver com o constrangimento de não lançarem meu trabalho. Eles que expliquem porque o disco ainda não está no mercado. Meu departamento é outro.