O "Prata da Casa" desta edição conversa com Flávio Decaroli Sani, que
atualmente é Técnico de som da dupla Gian & Giovani" e já trabalhou com
vários artistas, além de se revezar, desde 78, fazendo o som ora do Carnaval
Carioca, ora do Carnaval Paulista.
Quando a coisa é séria, volta e meia ele é chamado. Fez a sonorização e
transmissão do evento que trouxe o Papa João Paulo II pela primeira vez ao
Brasil, em 80, e a sonorização do famoso show de Frank Sinatra na terrinha.
Flávio nos fala de sua experiência profissional e dá dicas para quem está
começando a gravar. Coisas que ele vive no seu dia a dia, entre os shows e
as gravações no Studio Mega (veja no final da entrevista), seu refúgio em Sampa.
Como você começou a ser Técnico de som?
Eu gostava de tudo relacionado a áudio. Então fui procurar uma área que
tivesse a ver. Descobri a eletrônica. Conheci uma pessoa que trabalhava
fazendo manutenção de equipamentos numa empresa de locação de som. Com esse
cara eu fui aprendendo as coisas na prática e na teoria, pois ele era
professor.
Comecei há vinte e um anos atrás, montando amplificadores e operando som.
Estudei acústica quando trabalhei no IPT (Instituto de Pesquisa Tecnológica)
no setor de acústica, e pude aprender mais sobre eletrônica. Mas acabei
percebendo que não era eletrônica o que eu queria. Então comecei a fazer o
som de shows.
Naquela época o artista não tinha o seu próprio técnico. Não existia isso.
Acontecia assim: era contratada uma empresa de som do mercado, e essa
empresa é que mantinha uma equipe de técnicos. Os artistas escolhiam mais a
empresa do que os técnicos. Depois é que cada artista começou a trabalhar
com seu próprio técnico, o que ficou melhor, pois um técnico exclusivo sabe
mais sobre o som do artista.
Depois fui trabalhar na "Funarte", mantida pelo Ministério da Cultura, que
na época fazia grandes shows. Muita gente começou cantando lá, como Zizi
Possi e Angela RoRo. Fiz muita coisa na Funarte. Caetano Veloso, Gilberto
Gil e outros tantos.
Eu trabalhava lá e fazia outros eventos fora. Fiz por exemplo o Raul Seixas
aqui em São Paulo e tenho até uma gravação inédita desse show.
Na sua carreira, aconteceu alguma história durante um show, uma coisa que
tenha marcado, que você se lembre?
Aconteceu uma vez, num show em Brasília, com a Fafá de Belém e o Gonzagão.
Era um show para o presidente da Argentina, que na época era o Afonsin.
Então era um policiamento total. Não entrava e nem saia ninguém. Revistavam
todo mundo até o último fio de cabelo.
Bem, acontece que pra complicar ainda mais, nesse show tinha uma rivalidade
entre os técnicos para ver quem fazia o som, e no final, eu fui o escolhido.
Mas teve um técnico que não se conformou e fez uma sabotagem.
Mas antes de começar, sem saber muito bem o por quê, talvez alguém lá de
cima tenha me avisado, eu fui conferir as ligações dos cabos e estava tudo
invertido. E nessa inversão, se fosse usada, nada funcionaria. Então eu revi
tudo, liguei novamente e fui fazer o som.
Acontece que o som, naquela confusão, não tinha sido passado e ainda por
cima, eu tinha que fazer tudo num volume super baixo, por ser aquela coisa
de político etc. Conclusão: não sei como, nem porque, saiu tudo perfeito. O
som aconteceu sozinho! Esse foi um fato que me assombrou e que eu nunca
entendi direito, pois o som saiu maravilhoso sem eu ter mexido em nada!
Você trabalhou em outros lugares?
Trabalhei no Memorial da América Latina, em São Paulo, onde tinha sempre
encontros de artistas brasileiros com artistas da América do Sul. Os shows
eram, em geral, com dois artistas no palco e seus músicos. Era uma loucura
montar aquilo tudo. Fazer o som de monitor para cada um deles ... imagine
duas bandas diferentes, com vários instrumentos, e todos tendo que se ouvir.
Uma loucura! Mais saía.
Lá no Memorial teve um fato técnico interessante. Foi num show do Toquinho.
A gente já tinha feito o primeiro dia, o som tinha sido maravilhoso e tudo
mais. Bem, quando são dois dias de show a gente não mexe, deixa a coisa lá.
Mas acontece que no dia seguinte, o tempo esfriou e caiu a maior chuva. Daí
ele foi passar o som e estava tudo estranho, parecia que o som não saía das
caixas. Dava a impressão de que o som vazava de todos os lugares, menos das
caixas.
Então ele começou a pedir isso e aquilo e a coisa foi piorando e eu pensava:
mas que coisa, estava tudo certo antes ... o que é que está acontecendo
agora? Daí surgiu a idéia: deve ser a umidade do ar que está mudando tudo.
Então a gente acendeu todos os refletores do teatro, até a temperatura
voltar ao normal, como no dia anterior, e o som voltou sozinho ao que era
antes, sem precisar mexer em nada. Isso foi uma lição. Mas a gente só
aprende no desespero.
E quanto ao Studio Mega?
Montei o Studio Mega na época que eu fazia projetos de estúdios. Eu fazia,
não só a montagem de amplificadores e manutenção nessas empresas, mas também
montava projetos. Então resolvi montar o meu. A idéia era trabalhar na área
publicitária, mas com a saída de meus sócios, decidi passar o estúdio para a
área de gravação, pois eu tinha mais contato com artistas.
Quem já gravou no Mega?
Olha, já vieram vários músicos e artistas aqui. O Bocatto gravou, o Toninho
Ferragutti, o Zeca Baleiro, a Rita Ribeiro, a Maricene Costa, que trouxe o
Paulinho Nogueira, o Paulo Barnabé ... a Roberta Miranda veio, gravou uma
faixa, o Genival Lacerda, o Chico César, a Leila Pinheiro, o Skowa, Maurício
Pereira, tanta gente que nem sei mais. E teve também a produção de dois
discos dos "Inocentes" e o CD "Vertigo", do Dinho Ouro Preto.
E quanto a diferença de fazer o som em show e no estúdio? O que você gosta mais?
Gosto de tudo que é relacionado a som, mas é bem diferente. No estúdio a
gente não trabalha só a parte técnica. Tem também a emoção. Tem que saber
como lidar com as pessoas. É bem mais próximo.
No show é uma coisa mais técnica. O artista chega na hora marcada e faz o
show. Se ele tiver que falar alguma coisa do som ele fala ali e pronto. É
uma coisa sem envolvimento, é como uma empresa prestando serviço. Já no
estúdio o artista se torna seu amigo, pelo menos durante aquele período.
Você tem que saber lidar com ele, conhecer o máximo para ajudar a melhorar o
trabalho. Você não consegue tirar um bom som se o músico não consegue tirar
o dele.
E pra quem quer gravar pela primeira vez, quais as dicas que você dá?
Pra começar é importante, por exemplo, que o lugar onde uma banda ensaia,
tenha uma boa acústica, pra todo mundo se ouvir bem. A maioria das bandas
quem gravam pela primeira vez, geralmente por ter poucos recursos, ensaiam
em garagens ou em lugares onde ninguém se ouve. Isso atrapalha bastante
quando eles vem pro estúdio, pois no estúdio é que vão perceber as
deficiências do arranjo, que nem sempre funciona. É bom já trazer a coisa
pronta, porque no estúdio tem a questão dos custos, e mesmo trazendo tudo
pronto, tem sempre que alterar alguma coisa.
Outra coisa é trazer o instrumento com cordas novas, o que em geral não
acontece, e ainda, aprender a afinar uma bateria. Senão não tem som que saia
legal. Se a bateria é do estúdio, o baterista tem que ir lá antes e dar uma
olhada pra ver se a sua é melhor, ou se tem que trazer alguma peça para
acrescentar. Isso tudo faz parte da gravação. Senão o tempo não rende e quem
sai perdendo é quem grava.
Saiba mais:
Studio Mega - São Paulo - SP
Tel. (011) 36 67 90 59
Studio@internetcom.com.br
Veja também:
http://www.pobox.com./~marcosski