Ano 1 - nº 12 
30 de agosto a 15 de setembro/99 
  
Klébi grita: "Eu sou Paulista"

por Laura Campanér
borage@uol.com.br

Heloísa Cobra

Cantando os problemas e as belezas da cidade, Klébi chega ao terceiro CD mais madura e assumindo definitivamente seu amor por São Paulo. Nesta entrevista Klébi fala de suas composições, das dificuldades de se viver na maior cidade do Brasil e do peso que isso causa nas pessoas.

Com a palavra: Klébi.

Você consegue ver sua música como alguém que está de fora, e perceber para que direção você está indo?
Quando eu fiz o primeiro disco, foi o meu "cartão de apresentação". Então eu achei que devia fazer alguma coisa que estava de acordo com esse ambiente, tentando dar uma coerência pra tudo, alinhavando. Tive que pensar numa série de coisas, no que estava acontecendo, que eu estava em São Paulo, que é uma cidade difícil pra fazer esse tipo de trabalho, que é uma mulher fazendo tudo isso e ainda conviver com a emoção de estar fazendo o primeiro disco. Foi complicado adequar tudo.
O segundo disco já veio com uma personalidade um pouco mais definida, porque já tinha a experiência de ter feito o primeiro, tinha a referência do que eu queria mudar e do que queria repetir.
Este disco de agora é exatamente o que o título diz: "Escolhas". Ele está muito perto daquela coisa original de quem compõe de tudo. Quer dizer, faltava um samba pra eu compor e saiu "Samba pra Sampa". Não que eu tenha pensado no mercado, na onda do pagode, ou na moda. Aliás muito pelo contrário, essa música tem a ver mais com a raiz antiga da escola de samba. Saiu um disco dentro do que eu sempre fiz desde que eu componho, que é compor em vários ritmos, desde um baião um samba, apesar de eu só ter feito um samba agora.

Você é eclética?
Não quero abusar da palavra ecletismo. Hoje em dia tem pessoas que até recriminam essa palavra, mas a gente faz o que a gente é. Esse é o meu tipo de trabalho e componho o que acontece comigo. "Escolhas" é um trabalho muito próximo do que eu sou, mesmo antes de ter gravado um disco. Eu fui me aproximando do que sempre fui. Tem artista que no decorrer da carreira, vai se distanciando de si próprio. A minha história e inversa. Eu vim em direção a mim. Pra quem me conhece, apesar de eu ter um tempo fonográfico muito curto, pois eu tenho apenas cinco anos gravando e por outro lado, dez de estrada, dá pra ver que este disco é muito mais próximo do que eu fazia no começo da minha carreira, em shows.

Você falou da questão de ser mulher. Você tem pontos de referência de outras mulheres compositoras, para sua poesia e sua música?
As mulheres volta e meia estão fazendo coisas. Eu percebo que uma "leva" de mulheres cantoras e compositoras aparecem e algumas se fixam, outras não. Nós temos exemplos de grandes letristas, como a Zélia Duncan, a Adriana Calcanhoto, que escreve mais concretista e que acho muito interessante, e no caso das cantoras, a Cássia Eller, que eu gosto muito também. São presenças femininas fortes da nossa música. Então acho que as mulheres estão sempre ali, sempre fazendo coisas, com uma linguagem mais simples, ou com uma linguagem mais rebuscada.
Eu particularmente prefiro a linguagem poética um pouco mais carregada, que mostre mais de interesse pela língua, por literatura, por coisas nossas. Eu acho até que, como o meu trabalho se transforma muito, eu já escrevi de uma outra maneira e que hoje escrevo de maneira mais simples, pra que eu possa também ser entendida de uma outra maneira. Acho que quando eu tinha uma letra mais rebuscada, sentia que acabava não entrando nas pessoas. Na questão das letras do disco "Escolhas", eu acho que facilitei mas aprimorei. Essa foi a minha intenção.

O encarte do CD é o teu livro de poemas?
Com relação ao meu trabalho é. Na minha poesia é onde eu estou inteiramente presente. Fazer letras é o meu maior interesse. Eu componho músicas pra que elas façam as letras florescerem.

Essas composições do CD são atuais?
A maioria é recente. Antigas são "Completa" é de 87 / 88, mas eu achei de devia fazer parte desse trabalho, porque ela complementa a música "O que lhe pareço", e "A cidade de outro", que tem mais ou menos uns cinco anos. As outras são novas, "Samba de Sampa", "Pra Pirar", "Prima Serena", "Escolhas" e "Pé de amor".

E a música "Eu Sou Paulista"?
"Eu Sou Paulista" tem uns três anos (veja a letra da música "Eu Sou Paulista" cifrada para violão). Eu já cantava em shows e as pessoas de uma certa maneira me cobravam por não ter gravado. Desde o começo era uma música muito forte no show. Acabou ganhando vários arranjos por conta da gente sempre mudar alguma coisa pra apresentar, e também mudou agora que coloquei no CD. Está mais dançante porque o arranjo puxou pro funk. É a melhor concepção entre todas que a gente já fez.
(Letra da música "Eu sou Paulista" cifrada)

Essa coisa que música "Eu Sou Paulista" propõe, de defender sua cidade, de abraçar uma causa, é o que você acredita?
São Paulo é uma paixão minha, como deve ser de muitas outras pessoas, e até mesmo de quem não é paulista. Eu tenho conversado com muitas pessoas que vivem aqui em São Paulo, mas que não são daqui. Parece que esse assunto cutuca as pessoas, até no bom sentido. Por exemplo eu tenho cantado em Pernambuco e tem sido uma coisa fascinante pra mim, pois lá o público conhece profundamente minhas músicas. Isso num ambiente onde eu nem imaginava que alguém pudesse se identificar, por ser um trabalho tão urbano, tão paulista. Mas as pessoas adoram. Acho até que gostam mais que os próprios paulistas.
Mas essa questão de eu falar de São Paulo na minha música, é por eu gostar muito dessa cidade. Eu gosto de ler tudo que fale sobre São Paulo, me informar, mas acho também que é uma cidade muito judiada musicalmente. É uma cidade onde poucos artistas conseguem divulgar seu trabalho, estando sediados aqui. Nesse momento até acho que as coisas estão mudando nesse sentido, mas sempre foi muito difícil.

Mas São Paulo recebe bem os artistas de fora?
São Paulo divulga artistas de todos os lados, de todos cantos, mas acho que aqui o "santo de casa" não é dos mais fazedores de milagres. É claro que tem alguns artistas, como foi, em sua época, o Adoniran Barbosa. Teve o "Lira Paulistana", que aconteceu no passado, mas muita gente tem ranço desse movimento, que contraditoriamente era formado por pessoas que nem eram paulistas, como o Arrigo Barnabé e Itamar Assunção. Mas se você conversar com essas pessoas, vai ouvir sobre a mesma dificuldade de ter ficado em São Paulo.
Então quando eu canto "Eu Sou Paulista", eu canto também os problemas da cidade. Falo do meu amor por São Paulo, mas também faço uma crítica, exercendo uma certa pressão, não política, mas artística. E quando eu canto isso, eu sinto a resposta das pessoas. Tanto dos artistas quanto do público. É uma coisa muito legal isso. Sinto que as pessoas precisam ouvir determinadas coisas. As pessoas precisam ouvir alguém falando sobre São Paulo, bem ou mal, porque eu não falo só bem. Eu falo que tem um cara no meu vidro, tem um cara lá no chão, que eu 'tô parada na vinte e três de maio, 'tô alagada na marginal, então eu estou falando de coisas delicadas, de problemas da cidade, e ao mesmo tempo estou falando de belezas, do carnaval paulista, da "Gaviões da Fiel", que é o meu time do coração...

E os que não são paulistas acham essa música bairrista?
Alguns acham. Mas "Eu Sou Paulista" não é uma música bairrista de modo algum. Eu não 'tô falando mal de nenhuma outra cidade, nem querendo subjugar qualquer outro lugar a São Paulo. Isso é ser bairrista.
São Paulo tem uma história, principalmente neste século, de migração e de imigrações. Tem os italianos, japoneses e tantos outros povos que vieram pra cá e tem pessoas de todos os estados do Brasil que vieram também. É uma cidade toda miscigenada. Então é engraçado essa nossa história de receber as pessoas muito bem. Nós recebemos as pessoas muito bem o tempo inteiro. Graças a Deus. E vamos continuar recebendo. Agora, é diferente a postura das pessoas que não são paulistas, com relação aos paulistas. Não adianta. Existe preconceito contra os paulistas.

E ninguém pra defender?
A Rita Lee quando esteve aqui cantando no Ibirapuera, defendeu os paulistas com uma frase: "Minha amiga Regina Casé que me desculpe, mas São Paulo carrega o Brasil nas costas sim", em referência aquela entrevista da Regina para a Folha de S.Paulo. Ela falou isso para as cem mil pessoas que estavam lá e a reação das pessoas, que aplaudiram com toda força, foi de arrepiar.
É isso que eu sinto quando canto a música "Eu sou Paulista". Sinto que as pessoas precisam ouvir isso e levantar o moral, porque ao mesmo tempo os paulistas ficam retraídos. Eu não sei o que é isso. No fundo todo mundo acha que paulista é melhor e isso acaba sendo um peso que traumatiza. São Paulo é a maior cidade do país e as pessoas acabam entrando em culpa por isso. Porque? Daí é que você vê certos rótulos, porque não é isso. O paulista é carente.

Rótulos de um comportamento?
Eu adoraria fazer um estudo sobre o que acontece com São Paulo, com o comportamento do paulista, sobre os sintomas, sobre o impacto que a cidade causa nas pessoas. Aliás eu estou lendo cada vez mais sobre os aspectos da cidade e do Estado. Sobre a história dos Bandeirantes, sobre a mística paulista e, eu não sei se é porque eu estou evidenciando esse fato, pelo menos na música "Eu sou Paulista", que volta e meia tem saído matérias sobre o que eu falo.
Saiu uma crítica no Rio de Janeiro, até de pessoas que nem sabem sobre o que estou falando, que confundem o que eu digo na letra da música "City-SP", "Eu vou molhar minha guia na nascente do rio Tietê", misturando com a música "Eu sou Paulista" onde eu falo da marginal, achando que eu estou ali na beira do rio Tietê. Essas pessoas estão completamente por fora. Nem sabem o que é a nascente do rio Tietê, que fica em Salesópolis, que dá pra nadar, que a água é pura, que tem cachoeira, que é lindo. Não sabem de nada e ficam falando isso no Rio à toa. É uma falta de entendimento das coisas que eu acho impressionante. Por isso eu queria fazer esse estudo, pra saber o por quê dessa implicação com São Paulo.
Será que é inveja ? ...

Veja o CD Klébi.

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CAPA BORAGE