Cássia Eller chega trazendo flores e cabelos em seu mais recente CD "Com Você... Meu Mundo Ficaria Completo". Em entrevista à Revista Borage pelo telefone, Cássia rapidamente falou de tudo, sobre seu processo de escolha de repertório, de seus músicos e de quando começou sua carreira, cantando os compositores "malditos".
Com vocês: Cássia Eller.
Como foi a participação do Nando Reis nesse seu trabalho, já que você escolhei quatro músicas dele para entrar no CD?
O Nando Reis me modificou pra caramba. Até na minha maneira de cantar. Eu procurei imitá-lo cantando (veja a letra cifrada para violão da música "O segundo sol"). A minha voz tem um jeito agressivo na maneira de interpretar. Eu não tinha nada de suavidade pra cantar e buscava isso, queria aprender isso. Quando eu conheci o Nando, sem perceber, eu comecei a cantar como ele cantava pra mim.
Quando eu vou estudar uma música, aprender como ela é pra poder cantar, a primeira coisa que eu faço é tentar entender o que o compositor estava pensando ao fazer a música e o que ele sente ao cantar. O Nando tem uma maneira bem delicada, bem suave de cantar. A voz dele quase não sai. Então eu passei a imitar ele para aprender a música. Depois que eu aprendo uma música é que eu vou buscar meu jeito de cantar. Só que eu gostei muito de imitar ele, e o resultado disso interferiu pra caramba no disco. Antes, cantar uma balada mais suave, uma música romântica, pra mim era um suplício. Agora eu estou super feliz. Eu aprendi isso.
E isso te motivou para escolher as músicas?
Eu já tinha me encantado antes de aprender a cantar. Quando eu via e ouvia ele cantando tanto a letra como a melodia eu ficava enlouquecida, tinha vontade de cantar, só que não me achava capaz.
Você que morou em várias cidades, em estados diferentes, como você sente o rock em cada lugar por onde passou?
O rock é uma coisa engraçada. Não é exatamente a batida do rock, é o espírito. Eu sou roqueira. Se eu gravar um disco de valsa vai ter essa veia de rock, mesmo que a gente não faça a levada. Tem que ter esse espirito de protesto, de insatisfação. O rock mora é aí. De você não estar satisfeito com as coisas e querer mudar. É gritar por liberdade. É o comportamento, a maneira como você encara as coisas e vê o mundo.
Porque você gosta de tocar com músicos que sejam seus amigos.
É identificação. Eu parto do seguinte princípio: eu tenho que conviver com eles, são pessoas que convivem durante algum tempo, uma temporada viajando e trabalhando junto. Se divertir, passear, vai estar morando junto. Morando que eu falo, é assim: viajando, ficando no mesmo hotel, indo para os mesmos lugares. No mínimo eu tenho que escolher pessoas que eu tenho certeza que vai dar certo. Daí para uma afinidade musical maior é um sopro só, é muito mais fácil. O entendimento é muito mais fácil, o diálogo. Você tem mais abertura, liberdade para poder conversar o que você quiser com o músico e o cara tem que se identificar com você também.
Como instrumentista, na conversa dos instrumentos?
Eu tenho um pouco de intimidade com os instrumentos, mais não que eu saiba tocar de tudo, não é isso, eu me atrevo a entender. Qualquer instrumento eu quero pegar, quero tocar, quero entender como ele funciona. E daí a gente já calcula a personalidade do cara que esta tocando.
E sobre a capa do seu CD? Está super provocativa.
É. Essa capa é diferente de todas as outras que eu já fiz.
Teve uma escolha do que foi usado pra capa? Na foto onde você esta apenas coberta com uma colcha que parece mais uma colcha de cabelos?
Nessa capa nada foi calculado. São pessoas com quem eu trabalhei a capa são hiper talentosas. A equipe toda que produziu essas fotos, o Flávio Colker e o Duda Molinas. Gente de prima. Mas foi tudo improvisado. Eu achei legal a percepção deles de fazer do jeito que eu gosto. Eles sabiam que eu não gosto de nada ensaiado, de nada arrumadinho. Foi muito legal esse jeito deles fazerem o trabalho. Eles levaram toda a parafernália. As coisas mais absurdas. Levaram as coisas comuns que se leva pra sessão de fotos, como a maquiagem, mas levaram uns tufos de cabelos, umas roupas velhas e pediram pra eu escolher. E foi fácil, foi rápido. São pessoas tranqüilas. A gente conversa e não tem muita frescura. E o Duda, maquiador, estava voltando de uma produção de fotos. Então ele tinha uns restos de cabelos na mala. Daí o Flávio pediu pra colocar na minha cabeça e saiu assim.
A coisa das flores fui em que pedi que fossem fotografadas por causa da letra da música "Maluca", uma das minhas preferidas no disco. Fala de um cara que um dia viu passando um caminhão carregado de botões de rosas. A letra tem essa frase. Eu achei essa imagem bonita, cinematográfica e queria que fosse colocada. Daí eles misturaram o cabelo com as flores. Eu achei muito bonito. Ficou lindo, plástico.
Você morou em São Paulo e fez sua primeira demo aqui.
É. Conheci o Itamar Assumpção, o Mário Manga, o Arrigo Barnabé.
E como foi esse seu encontro com São Paulo?
Eu tenho uma história linda aí. Eu cheguei em início de 88, e já cantava as músicas do pessoal de São Paulo, que era aquela coisa do pessoal "maldito". Nessa época eu era uma cantora de Brasília, mas meu trabalho lá não tinha nada de maldito, mas eu tinha no meu repertório a música desses caras. Só que lá em Brasília essas músicas eram completamente acessíveis. Não tinha essa dificuldade do mercado que existe pra esses músicos, fora de São Paulo. E quando eu fui pra São Paulo eu fiz questão de conhecê-los. Procurei a Ná Ozzetti, o Itamar, todos eles. Eu ia a shows deles direto.
E eles te receberam bem?
Eles me receberam super bem. Eu pedia músicas pra cantar e eles me davam. Não foi como a dificuldade que eu tive na época do meu primeiro, segundo e terceiro CD. Era difícil pedir músicas para os compositores. Eles ficavam amarrando. Lá em São Paulo era muito mais fácil. Eles não tinham essas coisas. Eu fiquei muito amiga de todos eles enquanto morei em São Paulo, foi onde gravei minha primeira fita demo, e vim pro Rio e cantei todas as músicas deles no meu primeiro disco.
E foi engraçado porque na gravadora, eles achavam que as músicas eram minhas, porque eles não conheciam aquelas músicas aqui no Rio. Daí eu falava, não cara, a música é do Arrigo Barnabé, e eles torciam o nariz. E essa aqui? Essa música é ótima. E eu respondia: é do Mário Manga. E eles torciam o nariz. E essa aqui? É do Itamar Assumpção. E eles torciam o nariz.
Mas porque? Você acha que é uma coisa com os paulistas?
É preconceito. Muito preconceito. 'Cê 'tá louco! É por causa desse nome: Malditos. O cara é taxado de maldito, aí é f.... É difícil demais.
E como você encarava isso?
Eu tinha medo, na época do meu primeiro disco, dele ser aceito só em São Paulo, por causa da maioria dos compositores que eu cantava serem paulistas. Mas não foi nada disso. Aqui no Rio de Janeiro começaram a achar legal. Por eu ser carioca, eles não virão problema nenhum. Eu achei legal demais, porque eu apresentei a música dos caras sem preconceito e sem aquela coisa de: agora eu vou cantar uma música dos malditos ... (Cássia faz uma voz solene)
Quando você gravou a música "Por enquanto", você já conhecia o Renato Russo pessoalmente, por ter morado em Brasília?
Não eu conheci depois. Lá em Brasília eu ia muito ao show do "Aborto Elétrico", e depois do "Legião Urbana", também. Cheguei a ir em dois shows deles, antes deles gravarem disco. Mas eu não era amiga deles.
Eu encontrei com o Renato a primeira vez, porque eu gravei a música "Por enquanto". O encontro foi engraçado porque eu me pelava de medo dele. Eu sou meio capiau com essas coisas de conhecer artistas. E ele era um cara meio difícil. Gostava de conversar. E eu, não é que eu não goste de conversar, mas fico na minha. Eu tenho dificuldade de conversar. Vergonha, medo, sabe essas coisas? Mas depois foi melhorando.
E ele fez o "Primeiro de Julho" pra mim, e a gente se encontrou pra caramba, a gente se falava por telefone, e acabou que eu fui morar na mesma rua que ele aqui no Rio de Janeiro.
E o Cazuza?
O Cazuza eu era doida pra conhecer. E eu conheci até, em 86, aqui no Rio de Janeiro, mas tipo de tiéte mesmo. Porque eu já cantava lá em Brasília e vim ao Rio especialmente para ver um show do "Barão Vermelho".
E a gravação da música "Malandragem"?
Eu conheci a mãe dele, depois que ele morreu. Foi na época que eu estava gravando o disco. A Lucinha me procurou falando que tinha uma música pra me dar de presente. A gente ficou super amiga. Eu adoro essa música.
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