Com três anos de carreira e gravado por diversos artista, entre eles Rapa, Cidade Negra, Adriana Calcanhoto e Fernanda Abreu, Pedro Luís que produziu o "Ovo", em 95, trabalho que representava os novos artistas cariocas, chega ao público adulto pela recente gravação por Ney Matogrosso de uma de suas músicas, em seu CD "Olhos de Farol".
Pedro Luís acredita que a música é uma linguagem universal, e que não é preciso saber exatamente o que esta sendo dito, para se comunicar com o público. Lançando seu segundo CD "É tudo 1 Real", com a banda Parede, vem passo a passo conquistando o público, inclusive no Japão.
Em suas músicas ele "pesca" temas urbanos e do cotidiano e utiliza a musicalidade das palavras para fazer uma massa sonora forte o bastante para se ouvir e dançar.
Com vocês Pedro Luís, falando do novo CD, sobre criação, sobre música, nudez e de como "pescar" boas canções:
Por que o nome Pedro Luís e a Parede?
Na verdade foi assim: combinou com um convite informal de fecharmos um projeto (no Rio de Janeiro) com meia hora de música dançante. Por causa desse evento, nós, eu o Sidon, que já tocava comigo, resolvemos dar inicio a essa idéia de fundar um projeto que a gente já tinha o desejo, e que sempre ficava na promessa. Nossa intenção inicial foi de fazer uma espécie de um portátil, que a gente pudesse estar com as peças dependuradas, os instrumentos, onde a gente pudesse estar dançando com a platéia. Quando fomos lá fazer o som, não tínhamos propriamente o nome. Tínhamos uma combinação de que a gente se alinharia como se fosse uma parede sonora. Uma parede percussiva. E no dia da estréia, finalmente, quando íamos subir ao palco, o Michel Melamede, poeta que organizava o evento, perguntou: Como é que faz? Como é que chama isso aí ? E nós: Diz aí que é Pedro Luís e a Parede. E acabou ficando.
Isso foi muito antes da gravação do primeiro CD?
Foi, imediatamente antes, na verdade após o terceiro show que a gente teve essa idéia, acabamos sendo contratados.
O trabalho de vocês fala especificamente do cotidiano?
É porque o cotidiano engloba tantas coisas, podemos dizer que é do cotidiano.
E a música "Fazer O que?" Que está no primeiro CD já seguia essa linha?
Na verdade "Fazer O que?" é uma música auto biográfica. É uma história real. Numa época que eu estava meio desestimulado, desanimado mesmo. Uma coisa até com a própria criação. Ai eu fui viajar com um amigo e a gente fez uma cavalgada de cinqüenta quilômetros. Foi tão gostoso aquilo, renovador, que na volta na rodoviária de Barbacena, eu pequei um guardanapo da lanchonete e rabisquei a letra. A música saiu assim feito um presente. Cavalgando, recuperei meu gosto por compor, criar.
"Tudo por 1 Real" é uma cena carioca?
É uma cena bastante carioca mais que a gente pode observar em alguns outros lugares. A gente esteve tocando em Garanhuns e viu que lá é tudo muito mais "um real" que aqui no Rio de Janeiro. Ela é pescada. Na verdade ela é uma música do Rodrigo Maranhão, que eu tive o prazer de ser autor coadjuvante e ele pescou, e ele diz que é inspirada em coisas até que a gente já fez, como "Miséria S.A." a música que O Rappa gravou, que é baseada nos ambulantes do Rio, e que traz toda uma musicalidade, uma criatividade. O "Real" ele pescou na rampa do Maracanã. Dezenas de vendedores vendendo ao mesmo tempo, tudo por um real. Então fica aquela ladainha um real, um real, um real, um real .... você já não sabe mais o que é um real, quem esta vendendo por um real.
Mas essa cena é comum em vários lugares?
Na verdade é um retrato de uma urbanidade, de uma quantidade acontecimentos que acontece em todos as grandes cidades, Recife, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, em todos os centros de cidade se encontra uma manifestação semelhante. Essa particularmente ele pescou no Maracanã, mas ele poderia ter pescado em outro lugar. Em que retrata muito a musicalidade da fala brasileira, criatividade para vender seu peixe. No comércio informal você tem quer ter sua mídia, sua propaganda, sua reclame, muito a partir de sua voz, o que você cria com ela. E a gente se inspira nisso e tenta devolver.
Quando estão escolhendo o repertório para o CD, vocês pensam em um público específico?
Não, não pode vir antes, no meu entender. O que a gente pensou intencionalmente foi depois de reunir o repertório. O que a gente gostaria de estivesse na discussão e que acabou estando. A gente conversou com o Liminha que é o produtor desse CD, e ele buscou uma linguagem bem pop para que essas histórias que a gente queria contar pudessem atingir um maior números de pessoas.
Os shows de Pedro Luís e a Parede fizerem muito sucesso no Japão. Você acredita que é por causa da melodia. Uma vez que vocês cantam em português?
Tem alguns fatores. A melodia e música miscigenada, que tem um acento pop e que dialoga com linguagem pop internacional, provoca uma identificação mais imediata, quer dizer, próxima da linguagem. No Japão especificamente eles são muito curiosos, aplicado, dedicados, então lá o CD vai com um encarte todo em japonês, todas as letras são traduzidas. Acho que lá o público se interessa pelo que estava sendo dito ali também . Então por mais que eles não compreendam o português, eles entenderam o que a gente estava querendo falar. Gostaram da forma como a gente estava falando, não só a forma literária como a musical . E estavam lá disponíveis pra cantar num português que eles de fato desconhecem, mas se interessam. Foi muito interessante ver uma galera imensa cantando, reproduzindo aquela sonoridade português, que na verdade eles não sabem o que quer dizer. Mas em japonês puderam saber o que eles estavam dizendo.
Você já sabe quem é seu público?
Nosso público é variado, são jovens, tem pessoas maduras e tem também muitas crianças que gostam do disco. Mas espero conquistar um público adulto, os das faixa dos 40 e 50 anos, também.
Quem foi o primeiro artista a gravar suas músicas?
A primeira pessoa a gravar que estava no mercado foi a Fernanda Abreu, umas parceiras no disco "Da Lata" , depois teve O Rappa, Cidade Negra, Adriana Calcanhoto, Alicia, Edno. E mais recente o Ney Matogrosso.
Como você vê a mídia no Brasil?
Eu acho que uma tendência nas grandes incorporação de mídia é explorar muito um determinado acontecimento até o esgotamento. Eu o que acho que isso é o que acontece com o axê e o pagode, que também são gêneros que tem valores muito interessantes, mais que acabam ficando até sufocado, se cria um preconceito pelo esgotamento, pela exploração exacerbada. Muitas coisas continuam acontecendo, aliás, todas as coisas continuam acontecendo, independente de estarem sendo expostas e exploradas. Eu acho que espaço se cria, não adianta você ficar parado chorando, tem espaço de show, e a gente tem corrido muito atrás.
Como a mídia tem recebido o trabalho de vocês?
A mídia, fora o rádio, que é um veículo que a gente ainda não conseguiu conquistar, em geral tem sido muito generosa com a gente. A mídia impressa, TV a gente tem feito bastante. O show, que é o meio de você atingir o público, se comunicar, tem sido uma mídia importantíssima para gente. Você não pode ficar parado esperando que o sistema mude. A atitude faz com que ele vá mudando e criando novas possibilidades.
O que você atribui de não ter conquistado o rádio?
O rádio, é como essa levada que eu falei anteriormente, como uma grande instituição trabalha muito no imediato. Eu acho que tem que diversificar um pouco mais, tem que atingir um pouco mais o rádio. O mercado tá mudando e o rádio deve acompanhar, retomar um pouco o espirito original do rádio que era da informação, que ele tem esse caráter ao vivo, da informação imediata, da variedade, ele tem se permitir uma maior variação. Acho que depende muito da gente invadir um pouco, retornar um pouco esse lugar.
O encarte foi do CD "É tudo 1 Real" foi criado a partir da música "Cidade em movimento". Cheios de placas?
Não necessariamente. Foi um trabalho desenvolvido pelo Billy e pelo Hernandes da Nú-Dës, que fizeram a capa e o cenário. É um pouco dessa linguagem urbana, informal, dessa grafia informal, dos artistas anônimos que produzem fontes de letras e um visual muito interessante, original, que compõe sua urbanidade. Na verdade não é sobre essa música, mas para ela que fala da cidade se movimentando.
E o cenário?
É a mesma idéia do encarte, coisas que entraram no encarte só que tamanho gigante, uns três metros. Aquela placa que tem na capa do menino batucando, indicações para lá e para cá.
E sobre o clip onde vocês estão nus?
É o segundo clip da gente. Todo mundo nu. Só os instrumentos. Foi uma idéia dos videos makers. Acabou ficando bem interessante. Não é um clip erótico. A não ser o erotismo que o próprio corpo reserva. É um clip natural. Um clip naturista. No clip a nudez tem uma função, uma estética, da música "Caio no Suingue".
Qual é base instrumental do trabalho de vocês?
É a batucada, até o violão e o baixo. A formação é violão, baixo e guitarras. Estou usando bastante guitarras. É a incorporação dos instrumentos não convencionais, a gente usa, dos convencionais, as vezes até com sonoridades diferentes, e de objetos que resistem as nossas grosserias ao tocar, que produzam timbres interessantes que a gente possa usar.
Por que os instrumento tem que resistir as grosserias?
Modo de tocar, por que a gente toca alto e com uma técnica limitada. Na verdade tem que resistir essa nossa mão pesada. Por exemplo: a idéia era fazer uma bateria desmembrada, onde cada um pudesse tocar médio, grave e agudo. Dentro dessa expectativa a gente começou a pegar objetos que produzissem agudos, médios ou graves e que não fossem convencionais. Então a gente usa chão de ônibus, enxadas, calotas, placas, pedaço de metal que a gente encontra, dobra, um barril de chope de 10 litros, que a gente trouxe do Japão e achou muito legal.
Alguma influência de Hermeto Pascoal?
Sem dúvida. Um mestre inspirador. E de outros como Jimmy Hendrix, Bob Marley, Cartola, Geraldo Pereira, Tim Maia, Raul Seixas ...
Pedro Luís vai "cantar para toda nação"
por Laura Campanér
borage@uol.com.br