Foi a primeira vez que corri risco de vida - ou de morte - real. Foi
divertido.
Acordei durante a madrugada anterior preocupado com pequenos estalos que
estava ouvindo. Num país como o México, que tem jurisprudência no assunto
terremotos, qualquer flatulência telúrica é motivo para atenção. Felizmente
os estalos eram apenas pingos de chuva na janela. Por motivo dessa atenção,
todas as noites, deixava roupas e sapatos próximos da cama, para casos
de emergência.
Esta foi minha segunda viagem ao país, em menos de um mês. É um Brasil que
fala espanhol. Trânsito, jeitinhos, poluição, miséria, riqueza, a mesma
coisa. Exceto a comida, mas este é um abalo a parte.
Pra não ficar preso à Zona Rosa, núcleo turístico da cidade, saía a passear
pelas ruas, galerias, ver o povo de perto. Mas imagine o que é sair andando
por uma cidade maior que São Paulo. Vi pouca coisa, na verdade. Ainda nem
sei se cheguei a caminhar pelo centro do Distrito Federal. Para quebrar esta
monotonia, fui um dia às pirâmides e outro dia pedi a um taxista que me
mostrasse o México de verdade, fora da metrópole. Feito: cidadezinhas
exóticas, vi gente de sombrero, andei por mercados populares, comi carne de
veado num lugar tão sujo que em São Paulo eu nem passaria pela porta e andei
por estradinhas desertas. Uma dessas estradinhas levava a um vulcão. É óbvio
que pedi ao motorista para me levar até o ponto mais próximo possível da
cratera. Infelizmente, não deu. Alerta amarelo. A estrada estava fechada a
uma distância considerável do pé da montanha e a população havia sido
retirada. Fazer o que, né? A aventura ficaria pra outra ocasião. Voltamos,
não sem antes gelarmos a barriga com um sorvete caseiro típico da região,
chamado criativamente de "nieve", numa barraquinha mais suja que o mercado.
A quarta-feira foi um dia cheio. Segunda e terça também foram, mas a quarta
foi agitada. Logo cedo, antes de começar o trabalho, deixei a mala arrumada
para o caso de haver algum atraso na última reunião do dia,
programada para as 18h. Deveria deixar o hotel às 20h, para viajar
a Buenos Aires às 22h. A família estaria esperando lá no dia seguinte. De
repente, um e-mail do big boss cancela a viagem. Precisaria ficar no
México mais dez dias, pelo menos. Como não havia alternativa, a alternativa
foi ficar. Desfazer a mala e tudo de volta para o armário. Durante a noite
chegamos a uma solução, para eu sair do México na sexta e passar o fim de
semana em casa. OK.
Então, dormir. Céu nublado, previsões de frio e chuva. E os estalos. Acordei
por volta das 5h, vi um pouco de TV e cochilei de novo, até as 7h. Levantei,
chequei e-mails, fiz a rotina matinal que toda gente limpa faz,
me vesti, e desci para o café da manhã. Você não sabe o que olhar para a
mesa ao lado e ver alguém comendo um prato cheio de tutu de feijão,
lingüiça, cremes e molhos variando de verde pra vermelho
antes das 8h. Voltei para trabalhar no apartamento e, mesmo sem ter reuniões
marcadas para a manhã, continuei vestido para a batalha, em vez de trocar
pela camiseta e bermuda.
No começo de um e-mail, a sensação de turbulência. Claro, só podia ser um
terremoto. O primeiro pensamento é de invulnerabilidade: isso não pode estar
acontecendo comigo. Corri para fora do quarto. Ainda voltei para pegar o
passaporte que estava fácil, ao lado do micro, com o mórbido pensamento de
ser identificado em caso de soterramento.
Naqueles poucos segundos, consegui analisar a intensidade do abalo e
calculei que era um dos fracos. Nunca passei por isso antes, mas tive a
nítida sensação que eram uns 3 graus Richter (depois vim a saber que meu
cálculo estava furadíssimo: 7.4). Pensei que, se fosse um dos fortes, já
teria caído tudo. Então, já que teria chance, corri para a escada de
emergência querendo chegar à rua o mais rápido possível. Nem lembrei que
estava no décimo andar e até chegar no térreo o décimo andar já teria
chegado primeiro.
No caminho, uma moça chorava na porta de um apartamento. Oras, que inferno,
o terremoto está fraco, dá tempo de correr pra baixo e a senhorita, ali,
chorando, querendo morrer segurando a porta. Deixe
a porta pra lá. Puxei a moça pelo braço e continuei correndo em direção à
escada. E a moça querendo se livrar de mim. Acho que bateu um momento de
herói e não deixei ela fugir. Eu puxava, ela chorava e
tentava escapar. Eu corria, ela falava alguma coisa entre o choro e tentava
escapar. Esqueci de calcular a velocidade, mas corri pra caramba arrastando
a chorona, até que ela conseguiu me fazer parar no 7o. andar. Ela controlou
o choro e gritava: "la puerta, la puerta". Ora, fui para o corredor procurar
uma porta! E ela parada na porta da escada de emergência me chamando. Voltei
e ela conseguiu explicar que precisávamos ficar embaixo da porta, porque o
batente seria uma segurança a mais, muito melhor que sair correndo como
louco. Nisso já tinha caído um monte de reboco das paredes e do teto, e o
prédio balançava como se tivesse alguém grandão lá fora chacoalhando tudo.
E a moça, chorando, começou a rezar. Minha pulsação estava a uns 3000 rpm,
sem saber o que fazer, confiando no batente da porta. A moça tremia, chorava
e rezava, "dios, dios, nuestra señora, dios", eu falava pra ela em portunhol:
"acálmate, ya esta parando, acálmate", e a moça chorando e o prédio
balançando cada vez mais. Ela apontou para um lado e eu pude ver o céu lá
fora. O prédio é construído em dois blocos e eles haviam se separado. Você
já viu a junção de dois vagões de trem em movimento? Então já viu o que eu
vi. Enquanto dizia "acálmate" e a moça ficava no "dios, nuestra señora",
aparece um sujeito com cara de sono, sem saber o que estava acontecendo.
Tentei conversar com ele, sei lá o que, mas o cidadão estava disposto a não
entender nada, não respondia, não se protegia no batente, continuava
abobalhado.
Pouco a pouco o tremor foi cessando. Certo momento me pareceu que tinha
acabado e chamei os dois para continuar descendo. Ela disse que não, para
esperar um pouco mais. Ora, depois daquela do batente, eu esperei, né? De
fato, o prédio ainda deu uma suingada e depois parou. Aí ela liberou:
"vamos". Desceu correndo eu fui atrás. Não vi mais o abobalhado. Chegando
ao térreo, já havia um monte de gente se
refazendo do susto, alguns já rindo e, não sei porque, riram ainda mais
quando eu e a chorona aparecemos correndo e ela gritou "mojado, mojado" e eu
levei um tremendo tombo no piso de mármore molhado pela água derramada da
fonte. Aparentemente, o perigo já havia passado e eu sugeri à moça tomar um
copo d'água no bar. O garçom ainda teve a manha de oferecer brandy, tequila
ou whisky enquanto ela resmungava "agua, agua, agua". A chorona já não
chorava mais, só continuava nervosa. Foi aí que eu soube que ela tinha know
how. Disse que havia viajado do Equador porque sua cidade estava em alerta
amarelo devido a um vulcão e naquele dia estava em alerta laranja. Imaginei
que laranja fosse pior que amarelo e fiz cara de espanto. Por segurança, fui
para a rua. Nunca se sabe se o chão vai tremer de novo, melhor ficar ao ar
livre.
Nisso chegou o namorado da equatoriana, que ofereceu o paletó pra ela.
Esqueci de dizer, mas a chorona estava de pijama e descalça. Os dois também
foram pra rua e não os vi mais. Uma funcionária do hotel disse que havia uma
área de segurança perto dali, sem prédios, e eu deveria ir para lá e esperar
25 minutos. Não sei de onde tirou tanta precisão. Ainda falei: "25 minutos,
media hora?" Mas a funcionária determinou: "25 minutos". Tudo bem, né? Deve
ser o tempo exato de acontecer outro sismo e eles avaliarem a segurança do
prédio. Fui pro local e desobedeci: fiquei meia hora.
Quando todos voltaram, voltei também, já resolvido a dizer adiós. Entrei no
quarto com o maior medo, deixei
a porta aberta, peguei meus documentos, tirei o dinheiro do cofre, tudo
nessa ordem, fechei o micro, juntei os papéis mais importantes e comecei a
jogar as roupas na mala. Quem disse que cabia? A mala já estava
abarrotada e o armário continuava cheio. Não entendi como tinha vindo tudo
ali, mas fechei a mala assim mesmo e deixei tudo junto, ao lado da porta.
Estava disposto a abandonar o resto das coisas se o bagulho tremesse de
novo.
Não tremeu. Desci pela escada e fui comprar uma mala. Nisso o saguão do
hotel já estava cheio de gente dizendo adiós. Subi de novo, enfiei o que
faltava na mala nova, mais um monte de papéis. Deixei as revistas, porque
eram muitas e pesariam demais. Fui para o lobby com a bagagem de mão, pedi
pra fechar a conta e pra alguém ir buscar as malas.
Táxi! Aeroporto, por favor. Nem avisei ao chefe que estava voltando um dia
antes.
Pra quem gosta de ler os epílogos, o terremoto não causou muito estrago na
capital. No interior, morreram algumas dezenas, acho, a maioria de susto.
Alguns prédios ficaram em posição de Torre de Pisa cover, muito teto caído,
parede pelada e vidros quebrados. Escrevo esta breve narrativa no vôo de
volta pra casa, enquanto tiro uns restos de areia do cabelo.