Ano 1 - nº 14 
04 a 20 de novembro/99 
  
Crônica

Tragicomédia: um brasileiro atrapalhado no terremoto do México

por Roberto Moreno
robertomoreno@uol.com.br

Foi a primeira vez que corri risco de vida - ou de morte - real. Foi divertido.

Acordei durante a madrugada anterior preocupado com pequenos estalos que estava ouvindo. Num país como o México, que tem jurisprudência no assunto terremotos, qualquer flatulência telúrica é motivo para atenção. Felizmente os estalos eram apenas pingos de chuva na janela. Por motivo dessa atenção, todas as noites, deixava roupas e sapatos próximos da cama, para casos de emergência.

Esta foi minha segunda viagem ao país, em menos de um mês. É um Brasil que fala espanhol. Trânsito, jeitinhos, poluição, miséria, riqueza, a mesma coisa. Exceto a comida, mas este é um abalo a parte.

Pra não ficar preso à Zona Rosa, núcleo turístico da cidade, saía a passear pelas ruas, galerias, ver o povo de perto. Mas imagine o que é sair andando por uma cidade maior que São Paulo. Vi pouca coisa, na verdade. Ainda nem sei se cheguei a caminhar pelo centro do Distrito Federal. Para quebrar esta monotonia, fui um dia às pirâmides e outro dia pedi a um taxista que me mostrasse o México de verdade, fora da metrópole. Feito: cidadezinhas exóticas, vi gente de sombrero, andei por mercados populares, comi carne de veado num lugar tão sujo que em São Paulo eu nem passaria pela porta e andei por estradinhas desertas. Uma dessas estradinhas levava a um vulcão. É óbvio que pedi ao motorista para me levar até o ponto mais próximo possível da cratera. Infelizmente, não deu. Alerta amarelo. A estrada estava fechada a uma distância considerável do pé da montanha e a população havia sido retirada. Fazer o que, né? A aventura ficaria pra outra ocasião. Voltamos, não sem antes gelarmos a barriga com um sorvete caseiro típico da região, chamado criativamente de "nieve", numa barraquinha mais suja que o mercado.

A quarta-feira foi um dia cheio. Segunda e terça também foram, mas a quarta foi agitada. Logo cedo, antes de começar o trabalho, deixei a mala arrumada para o caso de haver algum atraso na última reunião do dia, programada para as 18h. Deveria deixar o hotel às 20h, para viajar a Buenos Aires às 22h. A família estaria esperando lá no dia seguinte. De repente, um e-mail do big boss cancela a viagem. Precisaria ficar no México mais dez dias, pelo menos. Como não havia alternativa, a alternativa foi ficar. Desfazer a mala e tudo de volta para o armário. Durante a noite chegamos a uma solução, para eu sair do México na sexta e passar o fim de semana em casa. OK.

Então, dormir. Céu nublado, previsões de frio e chuva. E os estalos. Acordei por volta das 5h, vi um pouco de TV e cochilei de novo, até as 7h. Levantei, chequei e-mails, fiz a rotina matinal que toda gente limpa faz, me vesti, e desci para o café da manhã. Você não sabe o que olhar para a mesa ao lado e ver alguém comendo um prato cheio de tutu de feijão, lingüiça, cremes e molhos variando de verde pra vermelho antes das 8h. Voltei para trabalhar no apartamento e, mesmo sem ter reuniões marcadas para a manhã, continuei vestido para a batalha, em vez de trocar pela camiseta e bermuda.

No começo de um e-mail, a sensação de turbulência. Claro, só podia ser um terremoto. O primeiro pensamento é de invulnerabilidade: isso não pode estar acontecendo comigo. Corri para fora do quarto. Ainda voltei para pegar o passaporte que estava fácil, ao lado do micro, com o mórbido pensamento de ser identificado em caso de soterramento.

Naqueles poucos segundos, consegui analisar a intensidade do abalo e calculei que era um dos fracos. Nunca passei por isso antes, mas tive a nítida sensação que eram uns 3 graus Richter (depois vim a saber que meu cálculo estava furadíssimo: 7.4). Pensei que, se fosse um dos fortes, já teria caído tudo. Então, já que teria chance, corri para a escada de emergência querendo chegar à rua o mais rápido possível. Nem lembrei que estava no décimo andar e até chegar no térreo o décimo andar já teria chegado primeiro.

No caminho, uma moça chorava na porta de um apartamento. Oras, que inferno, o terremoto está fraco, dá tempo de correr pra baixo e a senhorita, ali, chorando, querendo morrer segurando a porta. Deixe a porta pra lá. Puxei a moça pelo braço e continuei correndo em direção à escada. E a moça querendo se livrar de mim. Acho que bateu um momento de herói e não deixei ela fugir. Eu puxava, ela chorava e tentava escapar. Eu corria, ela falava alguma coisa entre o choro e tentava escapar. Esqueci de calcular a velocidade, mas corri pra caramba arrastando a chorona, até que ela conseguiu me fazer parar no 7o. andar. Ela controlou o choro e gritava: "la puerta, la puerta". Ora, fui para o corredor procurar uma porta! E ela parada na porta da escada de emergência me chamando. Voltei e ela conseguiu explicar que precisávamos ficar embaixo da porta, porque o batente seria uma segurança a mais, muito melhor que sair correndo como louco. Nisso já tinha caído um monte de reboco das paredes e do teto, e o prédio balançava como se tivesse alguém grandão lá fora chacoalhando tudo.

E a moça, chorando, começou a rezar. Minha pulsação estava a uns 3000 rpm, sem saber o que fazer, confiando no batente da porta. A moça tremia, chorava e rezava, "dios, dios, nuestra señora, dios", eu falava pra ela em portunhol: "acálmate, ya esta parando, acálmate", e a moça chorando e o prédio balançando cada vez mais. Ela apontou para um lado e eu pude ver o céu lá fora. O prédio é construído em dois blocos e eles haviam se separado. Você já viu a junção de dois vagões de trem em movimento? Então já viu o que eu vi. Enquanto dizia "acálmate" e a moça ficava no "dios, nuestra señora", aparece um sujeito com cara de sono, sem saber o que estava acontecendo. Tentei conversar com ele, sei lá o que, mas o cidadão estava disposto a não entender nada, não respondia, não se protegia no batente, continuava abobalhado.

Pouco a pouco o tremor foi cessando. Certo momento me pareceu que tinha acabado e chamei os dois para continuar descendo. Ela disse que não, para esperar um pouco mais. Ora, depois daquela do batente, eu esperei, né? De fato, o prédio ainda deu uma suingada e depois parou. Aí ela liberou: "vamos". Desceu correndo eu fui atrás. Não vi mais o abobalhado. Chegando ao térreo, já havia um monte de gente se refazendo do susto, alguns já rindo e, não sei porque, riram ainda mais quando eu e a chorona aparecemos correndo e ela gritou "mojado, mojado" e eu levei um tremendo tombo no piso de mármore molhado pela água derramada da fonte. Aparentemente, o perigo já havia passado e eu sugeri à moça tomar um copo d'água no bar. O garçom ainda teve a manha de oferecer brandy, tequila ou whisky enquanto ela resmungava "agua, agua, agua". A chorona já não chorava mais, só continuava nervosa. Foi aí que eu soube que ela tinha know how. Disse que havia viajado do Equador porque sua cidade estava em alerta amarelo devido a um vulcão e naquele dia estava em alerta laranja. Imaginei que laranja fosse pior que amarelo e fiz cara de espanto. Por segurança, fui para a rua. Nunca se sabe se o chão vai tremer de novo, melhor ficar ao ar livre.

Nisso chegou o namorado da equatoriana, que ofereceu o paletó pra ela. Esqueci de dizer, mas a chorona estava de pijama e descalça. Os dois também foram pra rua e não os vi mais. Uma funcionária do hotel disse que havia uma área de segurança perto dali, sem prédios, e eu deveria ir para lá e esperar 25 minutos. Não sei de onde tirou tanta precisão. Ainda falei: "25 minutos, media hora?" Mas a funcionária determinou: "25 minutos". Tudo bem, né? Deve ser o tempo exato de acontecer outro sismo e eles avaliarem a segurança do prédio. Fui pro local e desobedeci: fiquei meia hora.

Quando todos voltaram, voltei também, já resolvido a dizer adiós. Entrei no quarto com o maior medo, deixei a porta aberta, peguei meus documentos, tirei o dinheiro do cofre, tudo nessa ordem, fechei o micro, juntei os papéis mais importantes e comecei a jogar as roupas na mala. Quem disse que cabia? A mala já estava abarrotada e o armário continuava cheio. Não entendi como tinha vindo tudo ali, mas fechei a mala assim mesmo e deixei tudo junto, ao lado da porta. Estava disposto a abandonar o resto das coisas se o bagulho tremesse de novo.

Não tremeu. Desci pela escada e fui comprar uma mala. Nisso o saguão do hotel já estava cheio de gente dizendo adiós. Subi de novo, enfiei o que faltava na mala nova, mais um monte de papéis. Deixei as revistas, porque eram muitas e pesariam demais. Fui para o lobby com a bagagem de mão, pedi pra fechar a conta e pra alguém ir buscar as malas.

Táxi! Aeroporto, por favor. Nem avisei ao chefe que estava voltando um dia antes.

Pra quem gosta de ler os epílogos, o terremoto não causou muito estrago na capital. No interior, morreram algumas dezenas, acho, a maioria de susto. Alguns prédios ficaram em posição de Torre de Pisa cover, muito teto caído, parede pelada e vidros quebrados. Escrevo esta breve narrativa no vôo de volta pra casa, enquanto tiro uns restos de areia do cabelo.

CAPA BORAGE