Fazendo um resumo de sua carreira, numa gravação totalmente ao vivo, Jair Rodrigues está de volta ao cenário do samba.
Em "500 anos de Folia", sucessos que ele mesmo consagrou, foram novamente gravados bem ao sabor do instrumental de samba da década de 60. Os arranjos foram assinados pelos maestros Branco, Ivan Paulo e Laércio de Freitas.
O cantor de "Deixa Isso Pra Lá" confessa estar realizando um sonho cultivado há vinte anos. Relendo seu próprio repertório, Jair faz uma nova versão para a música "Disparada", contando com a execução primorosa dos violonistas do Duofel. Um CD dedicado à cantora Elis Regina e que não pode faltar na coleção dos apreciadores da MPB.
Porque um disco ao vivo?
Eu fui praticamente um pioneiro em gravações ao vivo. Isso numa época que era quase impossível fazer gravações ao vivo. Em 1965 fui fazer uma participação, junto com a Elis Regina e o Jongo Trio, num espetáculo do Teatro Paramount e os produtores do show resolveram gravar. Daí a fita ficou tão boa que saiu em disco pela gravadora Phillips. Esse disco, que se chamou "Dois na Bossa", estourou. Este trabalho já há muito tempo ultrapassou a marca de 10 milhões de cópias vendidas.
Acho gostoso gravar disco ao vivo, porque tem a participação do público, músicas conhecidas, todos cantando juntos. Não que eu não goste de fazer gravação em estúdio. Mas é uma coisa muito elaborada e às vezes na gravação de um disco você fica de quatro a seis meses dentro do estúdio. Você pára numa hora que a voz não esta legal, ou você não está num dia de graça. Pensando nisso tudo, de repente apareceu a gravadora "Trama". Já vai pra uns vinte anos que eu queria fazer isso.
Então a idéia partiu de você?
O pessoal da "Trama" veio saber das minha idéias, e eu disse que queria fazer um disco ao vivo, com meu próprio repertório, com meus clássicos. Isso porque de uma forma geral, essa nova geração só se tornou fã do meu trabalho depois que gravei a música "Majestade o Sabiá". Tem muito jovem que até conhece as músicas "Tristeza", "Triste Madrugada" , "Disparada" e tantas outras, pois seus pais mostram e cantam, mas não sabe que fui eu quem lançou isso tudo.
Na minha carreira, que afinal de contas são trinta e sete anos, eu tenho um repertório de aproximadamente sessenta ou setenta músicas que o Brasil inteiro conhece. Só que o jovem de hoje não saber disso, porque o rádio não toca mais as músicas dos anos 60 e tem ainda o lance dessa música descartável. Infelizmente nós ficamos sem letras e sem melodias, mas eu não vou entrar nessa, porque sempre primei por um bom repertório, com boas letras, com coisas que tenham consistência.
Como você escolheu o repertório do disco, dentro desse seu repertório tão vasto?
Eu gosto de gravar músicas que fiquem pra história. Não gosto de gravar músicas que ficam três meses em sucesso e depois ninguém sabe ninguém viu. Como o meu filho Jairzinho foi convidado para ser um dos produtores desse trabalho, ao lado do Bernardo Vilhena, e como já estava acostumado com minhas músicas, foi fácil. Nós nos reunimos e escolhemos o repertório.
Primeiro a gente ouviu umas sessenta músicas entre as minhas e as de outros compositores. Depois o Jairzinho falou: Ô pai, vamos na parte da seresta. Vamos fazer uma coisa diferente. Só tem sambas clássicos aí. Tudo lançamento seu. Vamos gravar as músicas do senhor.
Mesmo assim sobraram trinta e cinco. Entre estas nós escolhemos vinte e oito pra gravar. E eu gravei. Quando nós fomos ouvir saiu tudo bonito, tudo lindo, mas como tinha que botar só quatorze no disco, o Jairzinho e o Bernardo escolheram o repertório final, que eu achei maravilhoso!
Você já tinha gravado a música "Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda" antes?
Ah! Já. É a terceira vez que gravo a música "Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda" e "Carinhoso", a quinta. O "Berimbau", que gravei há uns vinte anos, é a segunda vez.
Como foi a escolha das músicas inéditas? A escolha da música "500 anos de Folia"?
Quando o repertório já estava quase pronto falei pro Jairzinho e pro Bernardo que mesmo assim eu gostaria de colocar alguma coisa inédita porque podia ser legal. A gente conversou novamente e quando eu cantei a música "500 anos de Folia". os dois pensaram na possibilidade dessa música ser o título do CD: Jair Rodrigues, "500 anos de Folia". Porque o novo milênio está aí e seria uma homenagem ao Brasil 500 anos.
E "Morena Paulista", é uma homenagem ao samba de São Paulo?
O samba "Morena Paulista" é uma de composição do Jairzinho. Ele fez essa música há uns três ou quatro anos atrás, quando estava estudando em Boston.
Aconteceu o seguinte: Ele estava lá numa discoteca e de repente começou a tocar uma seleção de sambas. Aí a namorada dele saiu para dançar. E ela estava lá dançando que era uma beleza. Chegou um cara e falou: Como samba bem essa carioca. Mas ela ouviu e falou: Eu não sou carioca eu sou paulista. Ai o Cara falou: Então 'tá errado esse negócio do Vinícius de Moraes ter dito que São Paulo é o "túmulo do samba". Olha aí como samba bonito essa Paulista. Ai o Jairzinho foi para casa e fez o samba.
Como é mesmo que surgiu o gesto que você faz na música "Deixa Isso Pra Lá"?
Quando eu lancei essa música ... deixa que diga, que pense, que fale... eu lancei junto esse gesto que eu faço com a mão enquanto canto, botando a palma da mão para cima e pra baixo ao mesmo tempo, no ritmo da música. Então minha mãe, quando me viu fazendo esse gesto, me recriminou dizendo que eu estava fazendo de gesto de sacanagem. Isso porque naquela época tinha um gesto parecido com esse, que as prostitutas faziam quando que a gente passava, e diziam: vamos bem?
Então eu falei: não mãe esse gesto aqui e para acompanhar a música não tem nada a ver com aquilo que a senhora esta pensando. É diferente. Então ela riu para caramba! Nunca mais ela falou.
Em que ano você gravou essa música pela primeira vez?
Isso foi em 64. Uma inovação. Essa música fez uma verdadeira revolução no mundo musical. Mudou tudo. Essa música foi gravada em francês, italiano, inglês e inclusive em Portugal. Uma pá de cantores do mundo inteiro gravou essa música. A música e a letra tem dois autores: um deles já falecido, o Alberto Paes e o outro, o Edson Menezes, que 'taí vivinho da silva e hoje é o diretor da UBC (União Brasileira de Compositores).
Então essa música está fazendo sucesso de novo?
Eu soube que essa música tá dando o maior tiro lá no Rio. Pegou de novo e ainda 'tá sendo considerada o primeiro rap gravado no Brasil. Isso por causa do Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, que estava fazendo uma pesquisa sobre ritmos e quando se falou em rap ele lembrou: foi o Jair Rodrigues quem fez o primeiro rap no Brasil, com aquela música deixa que digam... Agora eles estão me tratando como o "Pai do Rap". E eu estou contente. É gostoso cantar um ritmo de outra época que pegou agora novamente. Só que na época não era tratado como rap. Naquela época era "sambalanço".
Serviço:
Jair Rodrigues
500 anos de Folia
Trama
Preço: R$ 22 em média
1. Pout-pourri: Triste Madrugada (Jorge Costa) A minha Madrugada (Jair Rodrigues/Carlos Odinlon/Estáquio Sena) Tristeza (Haroldo Lobo/Niltinho)
2. Orgulho de um Sambista (Gilson de Souza)
3. Casa de Bamba (Martinho da Vila)
4. Conde (Evaldo Gouveia/Jair Amorim)
5. Eu Sonhei que Tu Estavas Tão Linda (Lamartine Babo/Francisco Mattoso)
6. Carinhoso (Pixinguinha/João de Barro)
7. Majestade o Sabiá (Roberta Miranda)
8. Ponteio (Edu Lobo/Capinan)
9. Disparada (Geraldo Vandré/Theo de Barros)
10. Marcha da Quarta-feira de Cinzas (Carlos Lyra/Vinícius de Moraes)
11. Berimbau (Baden Powell/Vinícius de Moraes)
12. Morena Paulista (Jairzinho Oliveira)
13. Deixa isso pra Lá (Alberto Paz/Edson Menezes)
14. 500 Anos de Folia (Luis Carlos/Fred)