Ano 2 - nº 18 
05 a 27 de abril/00 

Fernando Gonçalves e seu CD aula: Ritmo das Esferas"

por Laura Campanér
borage@uol.com.br

Fernando Gonçalves, baterista que atualmente integra a banda dos cantores Gian e Gionvani, lança o CD "Ritmo das Esferas". O trabalho consiste em temas instrumentais gravados de maneira que o baterista possa tocar em cima da música. Algo que ele chama de "aula de bateria". São seis faixas que se apresentam primeiramente com a bateria inserida no contexto e, em seguida, as mesmas faixas sem a bateria, só com um clique do metrônomo. Estão entre as faixas os ritmos ternário, quinário e setenário, e um solo de bateria onde Fernando se liberta e mostra suas referências como instrumentista.



Como começou sua carreira?
Comecei há muitos anos atrás. Naquela época fiz parte de várias bandas de rock'n roll. A gente tinha que tirar várias músicas, tipo ópera rock. Por exemplo "Hocus Pocus" do Focus, era uma música que tinha que tirar, as pessoas pediam pra ouvir. Então pra ingressar nesse meio, eu tive que tirar músicas de alto nível de instrumentista, só que os caras que tocavam isso na época, tinham anos de janela, daí você imagina a dificuldade.

Quem eram seus ídolos?
Pierre Van Der Linden, baterista do Focus era um deles. O cara que eu mais amava na época, tinha estudado todos os instrumentos de percussão. E eu como brasileiro, ainda estava buscando um material de estudo, que era escasso naquela época de regime militar, que podava todas as iniciativas culturais nesse sentido, mais ou menos em 73-74 e os preço dos métodos de estudo eram muito caros, totalmente fora de mão. A gente não tinha acesso aos grandes bateristas, daí você imagina.


Então gravar este CD foi uma maneira que você encontrou de proporcionar aos bateristas um acesso à metodologia que você não teve quando começou?
Foi um sonho e um compromisso com a música. Não foi visando fins lucrativos. Apareceram vários temas para trabalhar em cima, mas eu dei preferência pra trabalhar temas de compassos quinários, setenários. Então o trabalho acabou caindo numa música mundial. É um trabalho para o baterista desenvolver seu conhecimento.

Por que você escolheu ritmos tão sofisticados para um baterista iniciante? É um gosto pessoal seu ou você queria atingir o instrumentista de nível avançado? Qual é o seu público alvo?
O público alvo são pessoas interessadas em ritmos alternativos. A gente vem há muito tempo tocando 4/4, que é lindo, é um ritmo maravilhoso, muita coisa rola em 4/4, mas o 5/4, que não é uma coisa assustadora, é apenas um compasso misto de 3 e de 2, ou o inverso, você pode reparar, a gente sente melhor o fraseado com ele. Eu acho que a mídia trabalha muito o 4/4. O 2/4 do samba já é mais difícil. E eu me não sinto em condições de fazer um trabalho de Brasil, que exige muita pesquisa. Outras pessoas estão fazendo isso muito bem. Meu trabalho foi mais pro lado fusion-rock porque eu fui influenciado por essa música.

Mas os compassos 5/4 e o 9/8 não são uma "coisa monstruosa". Qualquer iniciante tem condições de fazer um trabalho em cima deles, pelo simples fato de que nesse 5/4 por exemplo, existe só um ritmo rolando, que é o próprio. No final do CD tem um tema chamado "Fantasia" (Dave Grusin), onde realmente rola vários ritmos, como 11/8. Aí são coisas que ficam para as pessoas pensarem. Mas o trabalho tem um código de tempo. Lá tem um clique que está delimitando exatamente as coisas. Então acho que o iniciante já começa arriscando vôos mais altos.

A tua formação como baterista foi acadêmica ou foi mais no dia-a-dia?
Foi mais no dia-a-dia, na raça, fazendo bailes, acompanhando artistas. A gente aprende muito tocando com as pessoas. Eu sempre fui um cara que amei o estudo pelo estudo, a música pela música sabe, sem aquele negócio de estou entrando aqui para ganhar dinheiro. O dinheiro rola de qualquer maneira, mas o compromisso com a musica é muito maior. Então quando comentei que iria gravar ritmos como o 7/8, alguns amigos falaram: meu, isso ai não é comercial. E eu falei, mas isso não é pra ser comercial. A idéia é você estudar alguma coisa, é ter um CD que você possa tocar em cima, junto com o CD.

Você sabe se tem outros CDs como esse no mercado?
O que eu sei são dos famosos play-along. São livros que vem da América.

E no mercado brasileiro?
Eu nunca vi um play-along brasileiro.

Então nesse sentido o seu trabalho é uma novidade?
Sim, é uma novidade e a pessoa tem condição de se desenvolver. Eu sempre sonhei com isso, um CD onde a pessoa estivesse um take sem a batera ou sem o baixo, pra poder tocar junto.

O que significa um solo de bateria para um baterista?
O solo de batera é onde a gente pode ficar livre para expor idéias rítmicas. Onde a gente mostra vários tempos diferentes. Por exemplo o solo pode começar livre e prender o andamento num ritmo meio funk. O solo é onde você se liberta, porque geralmente o batera é groove, o batera é o chão da coisa. Ele sempre tá segurando. A gente faz duas mil vezes o mesmo desenho com a perna direita. Então chega uma hora que você quer mostrar um outro lance da bateria. Na verdade esse solo poderia ser chamado de o resumo de tudo aquilo que agente ama, tudo aquilo que a gente gosta e tira dos grandes bateras. Esse solo tem frases de John Boham (Zepelin), que eu amo, Mitch Mitchel (Hendrix), Bobby Caldwel (Captain Beyong), Steve Gadd (Vinnie Colaiuta).

O que você diria para os bateristas que estão ingressando no mercado de trabalho? O que eles vão enfrentar?
Para o baterista jovem, que está chegando no mercado, que está se estruturado em cima de certo estilo, eu digo que não há demérito nenhum em tocar um pagode, um sertanejo, tudo isso exige muita concentração, muito amor, muito carinho. Para o baterista, acompanhar um show, com quarenta mil pessoas vendo ele tocar e um computador batendo o clique pra ele seguir, precisa ter, no mínimo, muita coragem e serenidade, porque seu batimento cardíaco é um e o computador vem com outro totalmente diferente. Além do mais a orquestra inteira está na sua mão, se baseando em você. Se você não manter a calma e a serenidade, pode derrubar todo mundo.

Para o batera não tem meio termo, ou ele segura bem, faz a coisa competentemente, no caso, fazendo tudo o que foi combinado antes, ou ele se dá mal. Se o batera que está chegando, combina com o guitarrista que ele vai dar uma saída no meio da música, ele tem que fazer isso, porque se ele não fizer, fica uma situação muito difícil, onde as pessoas cobram: você não poderia ter feito isso comigo, você me fez passar vergonha, você cruzou, você inverteu etc. Então, pra um baterista ter um determinado sucesso, ele tem que fazer o que ele combina com as pessoas que o cercam.

Converse com Fernando Gonçalves
Fernandogs@linkway.com.br

Saiba mais sobre o CD:
http://www.psaginadosom.com.br/fernando

CAPA BORAGE