Ano 2 - nº 20 
21 de junho a 02 de julho/00 

"Como Tem Passado!!": CD de Maricenne Costa é bom que dói

por Bel Carrilho Martins
borage@uol.com.br

Fiz uso de um verso da música "Isto É Bom" (Xisto Bahia), que diz: "isto é bom / isto é bom / isto é bom que dói", para definir o CD "Como Tem Passado !!" de Maricenne Costa. Com o propósito de regravar as primeiras canções registradas em discos no Brasil em diversos estilos, Maricenne vai além do projeto de pesquisa e resgate de um passado musical. Ela conseguiu realizar um trabalho belíssimo.

O CD "Como tem Passado!!" é pra quem quer ouvir canções que apenas ouviu falar ou conhece trechos de letras citadas em obras bibliográficas.

E voltando ao "Isto É Bom", faixa que abre o CD, foi a primeira obra musical gravada no Brasil, em 1902. O disco segue com "As Laranjas da Sabina", de Arthur e Aluízio Azevedo, primeiro tango brasileiro, também de 1902. Com ele ficamos sabendo, através do encarte, que a letra descreve os motivos que levaram a primeira passeata de protesto que se tem notícia.

O trabalho de pesquisa teve a colaboração de José Ramos Tinhorão, que assina o texto do encarte e fala, entre outras curiosidades, sobre a música "Tristezas do Jeca" (1926), de Angelino de Oliveira, que ele chamou de "toada paulista inauguradora da música sertaneja precursora dos caipiras". Quem conhece as gravações recentes dessa canção, vai se surpreender ao ouvi-la: a segunda parte da música, é quase que totalmente diferente da que conhecemos hoje em dia.

Também esclarecedora é a gravação do conhecido samba "Pelo Telefone" (Donga/Mauro Almeida), de 1917. Aliás, conhecido nem tanto, pois somente na voz de Maricenne ficamos sabendo que o primeiro verso do samba é: o chefe da folia pelo telefone manda me avisar / que com alegria não se questione para se brincar".

E por aí vai. O CD é indispensável aos amantes da música popular antiga, aos colecionadores e aos músicos criativos - aqueles que se dedicam a conhecer a fundo a história da música brasileira, para poder beber em fontes mais puras.

Fale com Maricenne:
micen@zip.net

Comos Tem Passado !!
Maricenne Costa com Izaías e Convidados
Gravadora Umes
R$ 18 em média

1. Isto é Bom (Xisto Bahia) primeira obra gravada no Brasil - 1902
2. As Laranjas da Sabina (Arthur e Aluízio Azevedo) primeiro tango - 1902
3. Perdão, Emília (Anônimo) primeira modinha - 1902
4. Não Empurre (Autor desconhecido) primeira cançoneta -1902
5. A Bicharada (Autor desconhecido) primeira marcha -1909
6. São Paulo Futuro (Marcelo Tupinambá) primeiro maxixe - 1917
7. Pelo Telefone (Donga- Mauro Almeida) primeiro samba - 1017
8. Meiga-Flor (Henrique Vogler/Freire Jr.) primeiro samba canção - 1929
9. A Espingarda (José Calazans) primeira embolada - 1920
10. Ai Amor (Freire Jr.) primeira marchinha carnavalesca - 1921
11. Tristezas do Jeca (Angelino Oliveira) primeira toada paulista - 1926
12. Forrobodó (Chiquinha Gonzaga) primeiro maxixe - 1912

 

Demônios da Garoa: "Mais Demônios do Que Nunca"

por Laura Campanér
borage@uol.com.br

Homenageando Adoniran Barbosa, o CD "Mais Demônios do Que Nunca" reúne 12 sambas muito bem escolhidos dentro do repertório do compositor.

O disco ressalta o tempo todo as letras divertidas e alegres de Adoniran. O resultado é um casamento perfeito com o bom humor característico dos Demônios da Garoa, que acertam em cheio nesse trabalho: estão " Mais Demônios do Que Nunca", pois capricharam nos arranjos vocais e instrumentais do "regional do choro", que percorreu toda a carreira do grupo e ventilaram o repertório de Adoniram. O trabalho é muito bonito. Só lamentamos a perda de Arnaldo Rosa, integrante e fundador do grupo, que fez sua última participação neste disco, gravado em fevereiro de 2000, antes de sua morte.

Algumas letras tem um toque de ironia que o samba já perdeu há muito tempo. Por exemplo na música "Já Fui Uma Brasa" (A Barbosa/Marcos César): "eu gosto dos meninos desse tal de iê, iê, iê, porque com eles canta a voz do povo / e eu que já fui uma brasa / se me assoprarem posso acender de novo ". Em seguida entra o recitativo: "eu 'tava batendo uma prosa na praça, passou um brotinho por mim e disse assim - é uma cinza mora / mal sabe ela que debaixo dessa cinza, se assoprar tem muita brasa pra queimar ". Daí entra o vocal fazendo um lá lá iá parodiando a melodia da música "Que Tudo Mais Vá Pro Inferno" de Roberto Carlos.

No samba "Luz da Light", Adoniram diz assim: Lá no morro quando a luz da Light pisca / a gente apela pra vela / se não tem não faz mal / a gente samba no escuro / que é muito mais legal.

Já na letra da música "Conselho de Mulher" (A. Barbosa/Oswaldo Moles/J. Belarmino Santos), vemos que em termos de comportamento brasileiro, quase nada mudou: "pogressio, pogressio, nóis sempre escuitô falá / porgressio vem do trabaio / então ... amanhã cedo nois vai trabaiá".

O CD tem a participação de Leci Brandão, na faixa "Apaga o Fogo Mané", e de Jair Rodrigues na faixa "Mulher, Patrão e Cachaça" e fecha com o já conhecido "Samba Italiano".

Serviço:

Demônios da Garoa
"Mais Demônios do Que Nunca"
Gravadora Trama
R$ 22 em média

1. Fica Mais Um Pouco Amor (Adoniran Barbosa)
2. Apaga o Fogo Mané (Adoniran Barbosa)
3. Já Fui Uma Brasa (Adoniran Barbosa/Marcos César)
4. Luz da Light (Adoniran Barbosa)
5. Joga a Chave (Adoniran Barbosa/Oswaldo França)
6. Malvina (Adoniran Barbosa)
7. Mulher, Patrão e Cachaça (Adoniran Barbosa/Oswaldo Moles)
8. Tadinho do Home (Adoniran Barbosa/Roberto Barbosa)
9. Conselho de Mulher (Adoniran Barbosa/Oswaldo Moles/J. Belarmino Santos)
10. Prova de Carinho (Adoniran Barbosa/Hernê Cordovil)
11. Uma Simples Margarida (Adoniran Barbosa)
12. Samba Italiano (Adoniran Barbosa)

CAPA BORAGE