Ano 2 - nº 23 
30 de setembro a 20 de outubro/00 

Saraiva, Luthier de violões, dá dicas pra quem está querendo ingressar na profissão

por Laura Campanér
borage@uol.com.br

Esta edição a dica é para quem quer ingressar na profissão de construtor de instrumentos. Mais especificamente violões.

Conversamos com o Luthier Saraiva. Ele que tem entre seus clientes músicos como Luis Bueno (Duo Fel), Fernando Gama (Boca Livre), André Geraissati, Renata Montanari e Rui Saleme entre tantos outros, já construiu violões de vários modelos, violas caipira, cavaquinhos e mais de oitenta violões do modelo clássico, que estão por aí com novos instrumentistas, muitos deles vindos pela mão do professor e violonista Henrique Pinto, um de seus incentivadores.

O que você sente quando faz um instrumento?
A satisfação é gostosa. Sinto que alguém está dando continuidade à alguma coisa que eu fiz. Eu pego a madeira, faço um instrumento e depois vejo alguém tocando esse instrumento, continuando o que eu fiz.

Você sabia que ia fazer isso antes? Como você começou?
Comecei trabalhando na Giannini e depois que passei por lá é que surgiu a vontade de continuar trabalhando com isso. Porque querer fazer algo é uma coisa e ter vontade de fazer é outra.

Como assim?
Como toda carreira. Você começa e tem a vontade de começar. Ou então você tem uma carreira numa área que está te sustentando e de repente parte para uma outra área. Você tem que querer muito aquilo, senão não consegue ir pra frente.

Você começou fazendo parte de uma equipe e se apaixonou por isso?
É. Não são todos que começam nessa profissão que continuam. Poucos continuam. Pra mim o caminho foi esse. Mas é preciso querer muito de fazer alguma coisa.

O que é ser um Luthier?
O Luthier se torna um Luthier quando outras pessoas reconhecem isso. É preciso que outras pessoas do meio acreditem que você é um Luthier pra você poder acreditar também. É como um reconhecimento.

Quando você faz o design dos instrumentos, o que você toma como referência?
Existem os modelos básicos, tradicionais. Primeiramente eu trabalho dentro do que já existe como modelo. Um violão é um violão. Uma viola é uma viola e assim por diante. Depois, à medida que as pessoas vão sentindo necessidade, eu vou modificando o instrumento. Não sou eu quem mudo os instrumentos. São os instrumentistas. Os músicos trazem novas idéias, opiniões, e isso vai moldando o instrumento que está sendo feito. É uma soma disso tudo e da parte técnica, que faz um novo modelo, até chegar num ponto ideal desse instrumento.

Em 82, quando eu ainda trabalhava na Giannini, vi na TV uma entrevista do Egberto Gismonti, onde ele falava que enquanto as fábricas brasileiras não abrissem um diálogo com os músicos, com os instrumentistas, eles não iriam chegar um patamar legal. Naquela época os músicos profissionais famosos não usavam instrumentos de fábrica brasileiras. Comecei a pensar sobre isso e sobre como tudo era feito. Então cheguei nessa coisa do diálogo com os músicos.

O que você diria para alguém que está querendo começar nessa profissão?
Desde que a pessoa goste trabalhar bastante, a profissão é legal. Outra coisa é saber respeitar as pessoas. Não é a questão do trabalho em si, de mexer com as ferramentas e tudo mais. É conseguir o respeito das pessoas e ao mesmo tempo respeitar as pessoas. O mais difícil é lidar com as pessoas. É saber fazer funcionar uma idéia trazida por outra pessoa, equacionando tudo, a técnica, a sua própria experiência e a necessidade do músico.

Fale com Saraiva:
(11) 39 16 65 73

CAPA BORAGE