Ano 3 - nº 27 
20 a 31 de Março/01 
  

 

----- Original Message -----

From: "Ricardo Fotios"
To: "Rita Lee"
Cc: "Borage Interativa"
Sent: Thursday, March 15, 2001 6:43 PM
Subject: Sonhei com você!
E-mail aberto a Rita Lee

por RICARDO FOTIOS*
fotios@uol.com.br

Furacão 2000
A vereadora carioca Verônica Costa, conhecida por
"mãe loira do funk", dança cheia de glamour

Querida Rita,

Desde aquele encontro quase ocasional no começo do ano, em que fiz você pagar o mico de cantar a maravilhosa "Pagú" para os engravatados, venho ensaiando lhe escrever um e-mail. A correria é grande, aí vieram as férias... enfim, agora me sinto na obrigação de "conversar" contigo e ainda mais no dever de fazê-lo de forma pública. É que sonhei com você uma noite dessas e, ao acordar, pensei sobre música e o interleitor desta simpática Borage Interativa pode querer saber. Sabe como é curioso o público virtual, não é? Vamos ao sonho.

Era uma sala bem iluminada e permanecíamos sentados ali eu, você e Carlos Rennó conversando. (Acho que Rennó apareceu no sonho por causa de um papo recente que tivemos, eu e ele, sobre você. Cheio de elogios, claro). Conversávamos então sobre um suposto novo trabalho seu, em que a ordem seria, pasme você, Rita, e você,interleitor, o funk carioca. Isso mesmo, releituras de clássicos de Rita Lee com arranjos funk.

Não a música tecno, presente em "3001" e que pode ser considerada irmã mais próxima do bom e velho rock'n'roll entre as vertentes da música eletrônica. Digo isto tanto pela concepção artística, quanto pela social. Os DJs sempre gritam refrões argumentando contra o modelo social vigente, como os guitarristas fizeram outrora. E, na prática, tudo o que temos são roquinrios, por um lado, e escolbites, por outro. Também não era nada baseado no legítimo e elogiável movimento do rap paulistano, que merecia um bom e exclusivo artigo.

Você falava mesmo, preparada Rita, sobre esse funk carioca. O mesmo que ganhou manchetes, primeiro, por ser uma avalanche comercial que conquistou as principais capitais do país e, segundo, por levantar a suspeita de que os bailes onde se toca este tipo de música eram, na verdade, inferninhos onde o sexo público seria a maior atração. Vocês, Rita e interleitor, devem ter lido que uma garota diz ter engravidado numa destas festas.

Comecei a imaginar o estrago que uma "Lança-Perfume" à lá Furacão 2000 não poderia causar no salão. Quando tocasse o verso "Me deixa de quatro no ato", o baile todo viraria uma grande orgia e, claro, a referida posição sexual substituiria a atual "Dança da Cadeira". E "Mania de Você", então. Imagine quantas performances sexuais não poderia embalar. Obviamente, estes devaneios tive depois de acordado, pois a única coisa que lembro do sonho foi o que contei lá no começo.

Não identifico, confesso, neste atual funk carioca uma modalidade musical de fato. Ouvi e ouço muito funk nacional, mas os meus ouvidos entendem melhor os produzidos por Tim Maia, Jorge Benjor, Fernanda Abreu, Black Rio, entre muitos outros. De qualquer forma, uma coisa me preocupa agora, purpurinada Rita, em relação ao funk carioca (e deve ter preocupado os inventores do funk brasileiro e a você, em outros momentos) é a forma com que, para ganhar notoriedade, alguns empresários da música plantam qualquer tipo de informação. Pior, a forma com que o atemporal policiamento cultural aparece logo para mostrar seu serviço sujo e, por que não dizer, patológico. Como foi no samba, como foi no Tropicalismo, como foi no rock...

Assim como parece exótico imaginar que somente adolescentes roqueiros fumavam maconha, me parece muita canalhice dizer que os menores que freqüentam bailes e casas impróprias são todos funqueiros. Pior, glamourosa Rita, o que diabos o gênero musical tem a ver com a imperfeição social das nossas cidades. A mesma imperfeição que permite gente morrer de porrada em praça pública porque gosta de transar com o mesmo sexo ou que produz show de horrores com animais em arenas brego-romanas. (Desculpe ter me apropriado de sua causa, mas é que cabe como uma luva neste parágrafo).

Ninguém põe na capa do jornal que menores e maiores de classe média-alta convivem em casas noturnas da moda com a prostituição liberada, com favores sexuais em banheiros de mármore em troca de um fedorento cigarro de canela ou em troca de coisa alguma. Ninguém publica com destaque na Internet que, ao sair de casa cheirosa para a balada, a garota adolescente da zona sul vai encher a cara com todo tipo de bebida, vendida sem discriminação nas casas mais famosas da cidade. Mas os bailes funks são periferia e "periferia é periferia em qualquer lugar". Falando em Racionais, os shows de rap sofrem do mesmo mal: preconceito. Tem coisa mais doentia, Rita e Interleitores, do que preconceito?

Ainda bem que o sonho, neste caso, foi curto e não tem respaldo na realidade. Mas, absoluta Rita, adorei tê-lo sonhado. E você sabe por quê. Apareça para um papo.

Abs,

Fotios.

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*O jornalista Ricardo Fotios é editor do Bate-papo UOL

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