Ano 3 - nº 29 
20 de junho a 10 de julho/01 
  
Daniel Carlomagno estréia em CD

por Laura Campanér
lauracampaner@borage.com.br

Músico e arranjador, o paulistano Daniel Carlomagno estréia em disco como cantor e compositor. Autor da música "É Assim Que Se Faz", sucesso na voz da cantora Luciana Mello, Daniel mostra agora ao público um conjunto de 13 canções que fez e a regravação da música "Caminhos Cruzados" (Tom Jobim/Newton Mendonça). Bastante tranquilo e feliz com o seu primeiro trabalho, Daniel falou sobre suas músicas e de como se sente em relação ao disco, em entrevista exclusiva para a Revista Borage.

Nesse disco você tocou todos os instrumentos, baixo, guitarra, teclados e programação de bateria e fez os arranjos. Isso aconteceu por uma escolha ou por uma facilidade?
A idéia foi manter a composição na íntegra. Eu considero que a espinha dorsal do meu trabalho, não só deste disco, é a composição. É o que eu gosto mais de fazer e me sinto mais realizado. Então os arranjos são como que uma extensão da composição e da produção em si e servem pra eu me expressar melhor. O fato de eu tocar esses instrumentos, que é uma coisa que eu já venho fazendo a bastante tempo, foi pertinente pra eu poder manter uma integridade. Não foi uma viagem egocêntrica, nada disso. Foi uma coisa que eu gosto de fazer e fiz para que a música ficasse mais íntegra.

Você tem uma música que gosta mais do que as outras no disco?
Algumas músicas tem características que estão mais em sintonia comingo nesse momento. A música "Casas" é legal e tem muito a ver comigo, meu jeito de pensar. Tem também a música "Um Querer" que também é assim. Essa duas são as que eu mais me identifico agora, mas todas elas tem a ver com o meu mundo.

E a música "Sem Você", escolhida como música de trabalho?
A música de trabalho nem sempre deveria ser escolhida pelo autor do disco, porque tem exatamente essa preferência. Mas tem aquela música que se comunica melhor com as pessoas, que abre uma porta mais fácil que as outras. Posso rer uma música muita especial pra mim, que faz parte da minha vida pessoal, mas ela não se liga tão fácil com as pessoas. Então eu deixei a escolha para a gravadora, mas obviamente eu também opinei. Mas a escolha foi para a música "Sem Você", que é uma balada "a la" Roberto e Erasmo que eu gosto muito também. Uma música simples no que ela quer dizer.

Você tem claramente suas referências musicais?
Tenho. No caso da música "Casas" percebo muito minha ligação com os mineiros. Essa música tem palavras idênticas com uma música que eu adoro que é "Ponta de Areia" do Milton e Fernando Brand. Tem um monte de coisas que tem literalmente em "Ponta de Areia". Não que na hora em que eu estava compondo eu pensei. Acho que eu gostava tanto dessa música que na hora eu me liguei a ela de alguma forma, um clima. Sempre ouvi tudo. Sempre norteado pela canção. Eu sempre fiquei fascinado com a idéia de uma pessoa compor uma música em qualquer lugar do planeta e as pessoas, mesmo sem sacar as letras, entenderem o que a música quer dizer.
Pouquíssimas pessoas conseguem fazer isso. Tom Jobim, Stevie Wonder, Paul Mc Cartney, John Lennon. Os caras tem essa idéia original da música e concretizam isso de uma forma tão legal, tão verdadeira, que qualquer pessoa no mundo sabe o que eles estão dizendo. Como aquela frase que diz: "A música é a única das artes que se comunica direto com Deus", que na verdade pra mim quer dizer que a música é a única arte que se comunica direto com o coração, ou com o incosciente, chame com o que quizer. E é isso que me atrai na música até hoje.

E o seu estilo?
Estilo é uma coisa que eu uso como ferramenta. Eu não gosto só de rock ou de black music. Eu gosto de ter esses estilos como ferramentas para me expressar e meu disco não tem um compromisso com uma estética. Ele é mais emocional.

Você faz a letra e a música sozinho. O que é mais importante pra você, a letra ou a música? Quando eu componho geralmente eu estou com o violão ou o piano. Então quando me vem uma inspiração é através de uma melodia. Daí sinto que essa primeira idéia já vem com tudo junto. Não claramente, com o resultado do arranjo de baixo e bateria, mas como quando a gente assiste um filme e se emociona com uma cena e ela já vem completa na sua cabeça. Só que na música é preciso destrinchar cada elemento. Mas o primeiro impacto não é racional. E é a melodia que me traz os sentimentos e o clima da música. A letra vem depois e é bem trabalhosa pra mim.

E nas letras, sobre o que você gosta mais de falar?
Eu gosto de falar sobre relacionamentos. Isso envolve o amor e todos os seus aspectos, seja amor ou ódio. E boa parte está ligado ao amor romântico, por assim dizer, mas no meu disco eu não escolhi as músicas pela sintonia das letras. Eu apenas foi tocando as músicas e escolhendo as que eu gostava mais. Acabou ficando com este aspecto que pode até ser chamado de romântico, mas que eu entendo mais como relacionamentos, no total, do que romantismo. Agora, amor e relacionamento pra mim é a mesma coisa.

Você já tem músicas de sucesso cantadas por outros artistas, como a música "É Assim Que Se Faz", cantada pela Luciana Mello e que está sendo muito tocada. Você já está sendo assediado pelos cantores pedindo músicas para gravar?
Eu não componho sob encomenda. Geralmente eu gosto de fazer músicas pra mim e a aquelas que acho que são boas pra todo mundo, são músicas que trabalham com o sentimento e qualquer pessoa que for cantar pode adaptar aquilo pro seu universo. Eu sempre mostro as minhas músicas. E esses últimos dois anos foram pra mim a fase mais criativa até agora. Mas o assedio pra pedir música tem sido ainda muito timidamente. São pessoas que estão começando que vem me pedir músicas pra gravar.Talvez seja o meu disco que vai me projetar como compositor.

O que tem pra dizer pra quem está começando a compor e tudo o mais?
No caso do compositor, se a gente for analisar mais a fundo, os artistas morrem mas a composição fica. Isso quando a música tem uma característica mais duradoura. E pra mim, quanto mais sincera sua música, quanto mais você procurar se conhecer e falar sobre coisas que são inerentes a você, no sentido mais profundo possivel, não importa a forma que isso aflore mas que você esteja sempre falando sobre coisas suas, você vais estar falando sobre coisas que tem a ver com todo mundo. E é isso que faz você se comunicar com outras pessoas. Ouvir de tudo e não ficar preocupado em copiar os outros.

CAPA BORAGE