Formado em 84 por Ira Kaplan nos vocais, guitarras e teclados e sua namorada Georgia Hubley (atualmente esposa), na bateria, e posteriormente se alternando nos vocais com Kaplan, o Yo La Tengo manteve esse núcleo, até se definir como um trio com o baixista James McNew, contando ainda com vários colaboradores em shows e nas gravações de estúdio de sua extensa discografia. Georgia trabalhava com filmes de animação, com sua irmã, Emily, e Ira como produtor musical e crítico da "Spin", uma das maiores da imprensa musical americana.
O nome da banda foi tirado da fala de um jogador de beisebol de origem hispânica, que, ao se preparar para agarrar uma bola, gritava para o time, "Yo La Tengo!", aproximadamente algo como "deixa comigo". E é isso que têm feito. Exemplo sólido do que é uma verdadeira cult band, o YLT tem ao seu lado um público fiel e a adoração da crítica do mundo inteiro, sem nunca ter tido a cara de seus membros estampadas na mídia mainstream. Discretamente, Ira Kaplan já tocou até ao lado de Dave Grohl, no início de sua carreira pós-Nirvana, com o hypadíssimo Foo Fighters.
Em 95, o casal deixa a cidade de Hoboken, que ajudou a colocar no mapa, e se muda para Nashville, meca da música country, cidade que consideram uma constante inspiração musical, lar de vários amigos com quem gostam de conversar e beber juntos, como o soturno e romântico Josh Rouse e o pessoal do adorado Lambchop, assumindo assim a influência sutil, deliciosa, na fronteira do imperceptível, do country e do folk em sua música.
SUCO DE ROCK
Em seus primeiros trabalhos, antes de chegar ao selo Matador (a casa de grandes bandas independentes dos Estados Unidos), o estilo do grupo ainda estava se desenhando, mas em uma ou outra faixa já surgia a sonoridade que permearia os futuros trabalho do YLT: rocks lentos, com guitarras quase espaciais e golpes de teclados e orgãos; e músicas mais pesadas e aceleradas, tipicamente pós-punk, calcadas em acordes básicos, guitarras distorcidas, em cima da bateria pulsante de Georgia Hubley, acompanhada dos vários e competentes baixistas que passaram pelo grupo, até a entrada de James McNew, emoldurando a voz melancólica de Ira Kaplan (às vezes de Georgia Hubley).
Se você apurar os ouvidos, vai sentir a história do rock no som do YLT, desde os anos 60, evidenciada em covers de Bob Dylan, Beach Boys e Velvet Underground - é impossível também não pensar em Doors e seus teclados psicodélicos - passando pelo final dos anos 70 e início dos anos 80, fazendo um tipo de ponte entre a Grã-Bretanha e o Estado de New Jersey, vertendo uma sonoridade próxima às bandas inglesas daquela época.
O Yo La Tengo é um liqüidificador, e seu som é um suco de rock delicioso e nutritivo para os ouvidos mais seletivos.
O CORAÇÃO DA MÚSICA
Quem foi viu. O show do Yo La Tengo em São Paulo, em 15 de fevereiro, mostrou ao público brasileiro a verdadeira essência da banda: música consistente, improviso e diversão. Passando por vários instrumentos, os três membros da banda não hesitaram até em fazer uma coreografia propositalmente brega adorável, em que, no final, formavam um coração com os braços, durante "You Can Have It All" (de George McRae, hino da era disco), do último álbum, And Then Nothing Turned Itself Inside Out. Ira não se fez de rogado e reclamou que o único defeito da produção do show é que não havia um globo de espelhos, e tocou seus teclados até com os cotovelos, contorcendo o corpo em uma performance que hipnotizou e divertiu a platéia, a essa altura já totalmente à vontade com a banda.
Não faltaram covers, como "Route 66", com guitarras distorcidas, causando microfonia, evocando a banda escocesa Jesus and Mary Chain; "Don't Cry No Tears" de Neil Young; e "It's Alright (The Way That You Live)" do Velvet Underground, é claro.
A DISCOGRAFIA NO BRASIL
RIDE THE TIGER
(1986 - Coyote/ Relançado em 1996 pela Matador)
O álbum de estréia da banda é um passeio por suas influências mais evidentes e um exercício de como o YLT viria a soar no futuro, como em "The Pain of Pain"
e "Alrock's Bells". É quase um disco de uma banda inglesa, "The Evil That Men Do" parece os primeiros passos do Joy Division, ainda com o nome de Warsaw; "Screaming Dead Balloons" reflete também o primeiro álbum do Echo & The Bunnymen, "Crocodiles". Apesar da atmosfera cinzenta de Manchester e Londres que permeia o disco, ainda sobra espaço para o country ("The Way Some People Die", "The Empty Pool"), para o folk ("Big Sky", que soa como Lou Reed interpretando uma composição de Bob Dylan) e para o rock psicodélico setentista ("The River of Water"). Vale mais como curiosidade e para conhecer as raízes do som da banda.
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PRESIDENT YO LA TENGO/ NEW WAVE HOT DOGS
New Wave Hot Dogs foi lançado em 87 e President Yo La Tengo em 89, ainda pelo selo Coyote. Em 96, os dois álbuns foram editados em um CD pela Matador, acrescido de um faixa que tinha sido parte de um single, lançado também em 87 pelo Coyote: "The Aspargus Song".
O que se ouve em New Wave Hot Dogs é praticamente uma homenagem ao Velvet Underground, confirmada na belíssima cover de "It's Alright (The Way That You Live". Em quase todas as faixas, a voz de Ira nunca se pareceu tanto com a de Lou Reed, talvez a influência mais marcante da banda. Destaque para a muralha de guitarras enlouquecidas de "Let's Compromise" e de "The Story of Jazz", para momentos em que queremos descontar a raiva.
Por falar em raiva, algo aconteceu com a banda em President Yo La Tengo, para soar tão nervosa. Pesado do começo ao fim, o único contraponto é a cover de "I Threw It All Away", de Bob Dylan, que soa como uma respirada de alívio, depois de toda a pauleira. Lembra daquela música do primeiro álbum que parece Joy Division? Pois ela está de volta aqui, em uma atormentada versão de 10:30, com o fantasma de Ian Curtis enlouquecendo Ira Kaplan e sua banda (se você escutar bem, vai ouvir uns gritos ao fundo no começo da música) e em outra mais meiga, com teclados e guitarras mágicas, só as duas já valem o CD todo...
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PAINFUL
Depois de Fakebook e May I Sing With Me, que ainda não fazem parte do catálogo da Matador e não foram lançados no Brasil, foi a vez de Painful, de 1993. A essa altura o Yo La Tengo já tinha dominado completamente seu estilo, incorporando suas influências e mostrando o que seria seu som a partir de então, sem ser repetitivo.
O álbum é uma trilha perfeita para um road movie, ou uma viagem de verdade mesmo. Começa com a lenta "Big Day Coming", que traduz a empolgação de uma viagem por acontecer ("um grande dia está chegando/ está a uma milha de distância", susurra Ira); faz a primeira parada em "From a Motel 6", excursiona por lugares onde vivem celebridades, "Superstar-Watcher", e chega ao auge com a decepção amorosa de "I Was The Fool Beside You For Too Long" (Fui o bobo ao seu lado por muito tempo), uma balada rasgante, minimalista, com a bateria delicada de Georgia e o baixo de James McNew costurando as esquisitices, distorções e microfonias das guitarras de Kaplan. O primeiro grande álbum de uma grande banda!
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ELECTR-O-PURA
Tido como o álbum mais experimental do YLT, foi a partir de Electr-O-Pura, que a banda começou a gravar e a viver em Nashville. Embaixo de cada faixa na contracapa, há comentários de Ira Kaplan, como na climática "Flying Lesson" (Aula de Vôo): "O som é a música e luzes aceleradas e as pessoas que tomam nosso som como o delas próprias. É isso o que realmente nos empolga". Esse som, aqui, vai passar sim, pela tangente do country e do folk, mais sem deixar de lado o que a banda tinha aprendido até aqui. A música de abertura, "Decora", é a gravação de um ensaio, mostrando que banda boa é boa em qualquer situação.
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GENIUS+LOVE=YO LA TENGO
Essa é uma compilação de 28 músicas, divididas em 2 CDs, com sobras de estúdio, faixas de coletâneas com outras bandas, material ao vivo e de trilhas sonoras. O álbum traz momentos históricos como "Evanescent Psychic Pez Drop"
(lembra daquelas balinhas com a cabeça de personagens Disney, que abriam a boca pra você tirar a guloseima?), que faz parte de um single dividido com o Stereolab (espécie de banda irmã do Yo La Tengo), "Demons", de 86, retrabalhada para a trilha sonora sublime de "Um Tiro para Andy Warhol", Hanky Panky No How", com o gato do casal nos backing vocals, "Artificial Heart", primeira gravação de James McNew com a banda e ainda "Her Grandmother's Gift", "Too Much" (Partes 1 e 2), "One Self: Fish Girl" e "Enough", todas utilizadas como trilha sonora de filmes de animação de Emily, irmã de Georgia Hubley.
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CD1:
CD2:
I CAN HEAR THE HEART BEATING AS ONE
A Obra Prima
A partir desse disco, de 1997, o Yo La Tengo assimila uma nova influência, que leva seu som mais para perto do pop e o tornou ainda mais sublime: a bossa nova (sim, a nossa, aquela, a única), com seu sotaque mais eletrônico e contemporâneo que anda novamente ameaçando tomar o mundo. Para os detratores do estilo, calma, o disco não é todo assim. Estão lá o rockão pesado de "Sugarcube", o maior sucesso da banda e "Little Honda", cover do Beach Boys, homenageando novamente os anos 60 e os escoceses do Jesus and Mary Chain (que fizeram sucesso com outra cover do Beach Boys, "Surf In USA", no mesmo estilo); e as baladas esquizofrênicas minimalistas como "Damage" ("eu pensava em você o tempo todo/ agora é estranho você estar aqui/ o estrago está feito).
A banda parece estar voltada aqui para as questões do amor, seus prós e contras, pânicos, decepções, retornos e sensações de conforto. Marque um encontro com aquela pessoa, fique apavorado e dê o cano (ou leve o cano), então escute "Autumn Sweater": "É muito tarde para desmarcar isso?/ Poderíamos sair de fininho/ Eu sem nada a dizer/ E você com seu casaco de outono". Arrependa-se e convide seu objeto de amor para passar uma noite em seu cantinho do mundo, ouvindo "My Little Corner of The World": "Sempre soube que encontraria uma pessoa como você/ Tão bem-vinda ao meu cantinho do mundo".
Ah, a bossa nova? Aparece delicadamente em "Shadows", que, um pouco mais rápida, poderia se chamar "Luz" e ter como tema o Rio de Janeiro; se insinua um pouco em "Stockholm Syndrome" (se alguém aí souber o que é a Síndrome de Estocolmo, por favor, me mande um email) e chega exuberante em "Center of Gravity", nas vozes suaves do casal mais legal do rock, com direito até a pa-ra-pa, pa-ra-pa: "Sempre que você está perto de mim/ Centro de gravidade/ Meus pés saem do chão".
Três parágrafos é pouco para falar de um dos álbuns mais bonitos da história do rock, que estará no meu CD player para sempre. É uma verdadeira benção ele ter sido lançado por aqui. Aproveite.
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AND THEN NOTHING TURNED ITSELF INSIDE OUT
Em seu trabalho mais recente, o Yo La Tengo abandona o pop fofo do seu trabalho anterior e mergulha mais uma vez no experimentalismo, sem perder seus atrativos. Com mais de quinze anos de estrada, a banda se permite agora improvisos em canções longas como "Night Falls on Hoboken", com quase 18 min, vertendo um som psicodélico, quase espacial, mostrando a interação do trio, que se comunica quase que telepaticamente, nessa homenagem a sua cidade natal.
Estamos diante de um passeio no tempo, com citações como Tony Orlando (vocalista da banda "Dawn", que fez sucesso com "Candida", na era do bubblegum) em "Let's Save Tony Orlando's House", a época da disco em "Last Days of disco (nada a ver com o filme) e em uma cover de George McRae, "You Can Have It All", que ficou com uma cara de... Yo La Tengo. Os anos 50 também aparecem em "The Crying of Lot G", em uma saborosa balada a la The Platters. Uma releitura da bossa nova aparece novamente em "Tired Hippo", uma faixa instrumental que salta aos ouvidos como a melhor do disco, apesar do título meio bobo ("Hipopótamo Cansado").
É um álbum maravilhoso (um pleonasmo no caso do YLT), mas dá a impressão de ser um estudo, um hiato, um conforto, um presente para os fãs, enquanto aguardamos a próxima travessura de uma das melhores bandas dos EUA e do mundo.
Ouça And Then Nothing Turned Itself Inside Out na Rádio UOL
Obs: todos os CDs foram lançados pela Trama.