O estranho mundo de Cat Power http://www.matadorrecords.com/cat_power é habitado apenas por Chan Marshall, que se deixa acompanhar aqui e ali por amigos músicos, mas prefere, ao se apresentar ao vivo, apenas a presença de seu violão e seu piano.
Nascida no início dos anos 70, passou a maior parte da infância acompanhando o pai, também músico, pelo Sul dos Estados Unidos, o que explica a influência do blues em seu trabalho. Após a separação dos pais, foi morar com a mãe na Carolina do Norte, ficando lá até os 17 anos, quando decidiu abandonar o colegial e se mudar para Atlanta e, de lá, para Nova York.
A sensação de frieza e isolamento que sentia em Nova York a levou a começar a compor. Descoberta pelo dono da gravadora Matador www.matadorrecords.com , Chan passou a se apresentar em pequenos clubes e festivais, até que, em 94, abriu um show de Liz Phair e foi vista por Tim Foljahn, do Two Dollar Guitar, e por Steve Shelley, baterista do Sonic Youth, que imediatamente a convidaram para tocar juntos. Dessa união nasceram seus dois primeiros álbuns: "Dear Sir", por um pequeno selo italiano chamado Runt, e "Myra Lee", pelo selo do próprio Steve Shelley, Smells Like Records. Os dois álbuns foram gravados em apenas um dia, com Tim nas guitarras e Steve na bateria.
A riqueza da música do Cat Power vem justamente da simplicidade e da naturalidade de Chan: dois ou três acordes se repetindo ad infinitum servindo de base para a melodia, que vem mesmo da voz da cantora, levemente rouca, às vezes beirando a desafinação, porém atingindo alguns agudos que ferem o coração como as garras afiadas de um felino. São canções lentas, arrastadas, um blues de branco mesmo, que abre espaço às vezes para um ou outro barulhinho eletrônico, sons de trovão, chuvas ou uma flauta ao fundo, que conferem um toque sombrio, fantasmagórico, às agonias quase recitadas, mais do que cantadas, por Chan.
Um bom caminho para conhecer a banda é o álbum The Covers Record , com canções que Chan gostava de tocar em seu violão para si mesma, como "Satisfaction", desconstruída e rearranjada surpreendentemente, "I Found a Reason", do Velvet Underground (Lou Reed, sempre Lou Reed), "Wild Is The Wind", muito conhecida na voz de Nina Simone e "Sea of Love", o clássico dos anos 50, já regravado também por Robert Plant. Mas a melhor mesmo é "Troubled Waters". Você vai se arrepiar com Chan cantando "eu devo ser uma das filhas do demônio".
Também já foram lançados no Brasil What Would The Community Think e Moon Pix.
No caso de What Would... vá correndo para a quarta faixa, "Nude As The News", a música mais pesada de toda a obra do Cat Power, e fique nela, pulando e cantando o refrão até cansar. A letra é barra pesada: uma garota grávida, que não sabe de quem é o filho, e pensa em aborto e em abandonar a criança. Depois vá para Bathysphere, na qual Chan diz que quer viver em uma batisfera, aquelas cápsulas pressurizadas que descem a grandes profundidades no mar. Do resto do CD, você vai gostar depois.
Moon Pix, gravado na Austrália, traz a ressurreição artística de Chan Marshall, após um longo hiato. Depois de uma crise nervosa que teve em pleno palco, a cantora se mudou de Nova York para uma cidadezinha chamada Prosperity, na Carolina do Sul. Segundo entrevista ao jornalista Greg Weeks, todo o álbum foi composto em apenas uma noite, após uma série de alucinações de Chan, que aproveitou para exorcizar os últimos demônios que a atormentavam, ainda devido à crise nervosa.
Chan afirma que escreve suas letras em fluxo de consciência, e que não se preocupa muito com elas, porque a linguagem em si, é muito pobre para expressar emoções fortes e, segundo ela, "as palavras são pequenas demais".
Chan Marshall se diz recuperada do seu medo de palco e tem se apresentado ao vivo, porém sem muita freqüência. Dizem as boas línguas, que ela deve aparecer por aqui em outubro, pós-Free Jazz, para arranhar nossas almas. Vamos torcer.
The Cover Records What Would The Community Think e Moon Pix lançados no Brasil pela Trama www.trama.com.br e disponíveis para audição em streaming na Rádio UOL.